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Com Dilma, carro brasileiro enfim entrou no século 21; veja legado

Diogo Moreira/Frame/Estadão Conteúdo
Dilma Rousseff durante o Salão de São Paulo de 2012, ano em que surgiu o Inovar Imagem: Diogo Moreira/Frame/Estadão Conteúdo

André Deliberato
Leonardo Felix

Do UOL, em São Paulo (SP)

31/08/2016 15h19Atualizada em 01/09/2016 15h24

Motores turbo, eficiência energética, downsizing... Essas expressões certamente não estariam em discussão no Brasil com a mesma intensidade de hoje se não fosse o programa Inovar-Auto, regime de fomento à indústria automotiva lançado durante o governo Dilma Rousseff.

Este é, certamente, o principal legado da presidente deposta nesta quarta-feira (31), conforme atestado por especialistas ouvidos por UOL Carros.

"Foi um marco na indústria brasileira, que já vinha sendo estudado antes da Dilma, é verdade. Mas foi ela quem colocou em prática", afirmou o engenheiro, jornalista e colunista de UOL Carros, Fernando Calmon.

"É o ato mais importante de seu governo em defesa do interesse da indústria nacional. E certamente um dos mais importantes de toda a história do setor", acrescentou o analista de mercado e blogueiro do UOL, Joel Leite.

Efeitos do Inovar

Lançado em 2012, com prazo para valer até o fim do ano que vem nesta primeira fase, o programa chegou com objetivo de fazer os carros brasileiros enfim apresentarem índices de consumo e emissões de poluentes similares aos exigidos em mercados como Europa e Estados Unidos.

A evolução foi sensível nos últimos quatro anos: se em 2012 praticamente nenhum modelo à venda por aqui alcançava as metas de eficiência estabelecidas, hoje já temos automóveis movidos a combustão com índices de consumo próximos aos dos híbridos.

Seja com turbo, redução de capacidade cúbica ou cilindros ou mesmo rearranjos de engenharia a motores já existentes, o fato é que as fabricantes tiveram de se mexer para entregar veículos mais econômicos e ecologicamente corretos.

Brasil no radar do mundo

Outra consequência foi o estímulo à expansão da capacidade produtiva local. Segundo dados da Anfavea (associação dos fabricantes), de 2012 a 2018 serão investidos R$ 85 bilhões na indústria automotiva nacional, com inauguração de 10 fábricas e aumento da capacidade produtiva para 5 milhões de veículos ao ano.

UOL Carros contou quais são essas novas unidades fabris em 2014. Produzindo localmente por conta do Inovar-Auto, as empresas também ganharam autonomia para criar e lançar produtos cada vez mais globais -- chegamos ao ponto em que o Brasil recebeu prioridade para o lançamento mundial modelos como Nissan Kicks, Honda HR-V, Jeep Renegade e, mais recentemente, o outro que será feito no país, substituto do Compass.

Aperto aos importados

Se há um ponto a se criticar no InovarAuto foi a política de taxação aos carros importados, apelidado de "super-IPI". O acréscimo de 30% de imposto sobre automóveis vindos de fora -- com cotas progressivas de isenção conforme o grau de comprometimento da companhia em relação às metas do regime -- representou um enorme baque para empresas como Kia e JAC, dependentes da importação.

"Governo quis intervir demais e atrapalhou a livre concorrência", analisa Calmon. Para o especialista, isso foi determinante no processo de aceleração da queda de mercado.

Outra consequência foi o fenômeno de aumento excessivo dos preços, tática usada pelas montadoras para garantir rentabilidade em detrimento do volume.

Joel Leite ponderou a medida: "A presidente privilegiou a indústria instalada no país e, ao mesmo tempo, deu chance dos importadores participarem do mercado, mesmo que limitados", argumentou.

Outros acertos

Entre outros avanços importantes do setor no Brasil sob o governo de Dilma Rousseff estão: o fim da tributação excessiva para modelos elétricos, híbridos ou movidos a célula de combustível (como hidrogênio); simplificação e barateamento da transferência de carros usados; e regulamentação do uso de reboques e semirreboques.

Também foi em sua gestão que entrou em vigor a presença obrigatória de airbags frontais e freios ABS em todos os automóveis zero-quilômetro, embora a pressão de fabricantes e sindicatos quase tenha provocado uma prorrogação de prazo. Para o futuro já está certa a obrigatoriedade do controle de estabilidade, prevista para 2022.

No âmbito de acordos bilaterais o Brasil fechou parcerias importantes com México e Uruguai, sendo este último o primeiro acordo de livre-comércio do setor no país.

Os vacilos

Entre 2011 e 2016 também houve deslizes provocados pelo governo federal -- por exemplo, o caso da saga dos extintores ABC, que deveriam ser obrigatórios no início de 2015 e, após diversas procrastinações, acabou virando item opcional.

Também fracassou a tentativa de criar o Siniav, um chip de rastreamento que se tornaria uma espécie de "RG" dos automóveis.

Para Calmon, faltou também agressividade para fechar acordos internacionais mais robustos. "Os avanços que tivemos nesse quesito foram muito pequenos e tímidos, longe do ideal. Já deveríamos ter criado um sistema de livre-comércio para o Mercosul", defendeu.

Ainda segundo o especialista, também faltou definir com antecedência as novas etapas do Inovar. "A indústria trabalha pensando daqui a 10, 20 anos", enfatizou.

Balanço final

Ponderando erros e acertos, é inegável que o governo Dilma Rousseff contribuiu para deixar a indústria automotiva nacional mais moderna, com automóveis mais seguros e tecnológicos. Foi sob sua gestão que, com alguns anos de atraso e correndo contra ele, o carro brasileiro enfim entrou no século 21. 

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