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Brasileiro Carlos Ghosn colecionou fama e crises na Renault-Nissan

Do UOL, em São Paulo (SP)

19/11/2018 11h31

Conhecido como "cortador de custos", Ghosn eliminou empregos e conviveu com crises; sua queda choca imprensa e indústria

Usando palavras do jornal francês "Le Figaro", caiu "como um raio" no mercado, nos bastidores da indústria e na própria imprensa global, a informação da prisão do alto executivo Carlos Ghosn por fraude financeira, no Japão.

Nascido no Brasil, Ghosn era respeitado no mundo financeiro, desde o final dos anos 1990, pela fama de tirar empresas da situação de falência, apesar de também ser conhecido por cortar custos e vagas de emprego sem dó.

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Ghosn estava sendo investigado pelo Ministério Público japonês por suspeita de informar ao fisco ganhos menores do que aqueles realmente obtidos. Além disso, estaria usando dinheiro da Nissan em benefício próprio, junto a outro executivo, o diretor-representante Greg Kelly, há anos.

Além do "Le Figaro", o francês "Elysee" também repercutiu a prisão e o "afastamento em curso" de Ghosn da presidência da Nissan. Globalmente, a norte-americana CNN, as agências "Reuters", "AFP e a TV pública japonesa NHK noticiam a queda do executivo, nesta segunda-feira.

Para a CNN, "atos significantes de má conduta corporativa", por "inúmeras ocasiões" levaram ao afastamento. Segundo outra agência japonesa, a "Jiji", Ghosn notificava à Receita Federal japonesa ganhos de 10 bilhões de ienes (quase R$ 334 milhões) para ocultar o uso pessoal de outros 5 bilhões de ienes (R$ 167 milhões). Este montante seria de dinheiro da companhia usado em benefício próprio por Ghosn e por Kelly.

Informações da agência "Kyodo" apontam que a fraude estaria sendo conduzida há anos, desde pelo menos 2011.

Vanderlei Almeida/AFP
Ghosn em visita anual a sedes da Renault e Nissan no Brasil. Ano foi 2016, com anúncios para o país Imagem: Vanderlei Almeida/AFP

Coleção de sucessos e de crises

Com 40 anos dedicados à indústria, Ghosn foi sempre reverenciado pelos resultados, mas a agência "Reuters" questiona também os custos por trás de sua gestão.

Ghosn iniciou sua carreira na Michelin, fabricante francesa de pneus e outros componentes, em 1978, mas ganhou fama global nos anos 1990. Em 1996, foi para a Renault, onde cresceu e ganhou fama e o apelido de "cortador de custos".

Revigorou as finanças da fabricante francesa com planos ousados, mas também demitindo em massa.

Usando resultados a seu favor, chegou ao topo da companhia e consolidou sua posição ao traçar a aliança com a Nissan, em 1999. Os mesmos métodos que deram certo na Renault foram usados para revigorar a marca japonesa.

Ghosn sempre teve foco para se livrar de crises, como a ideia de apostar em mercados emergentes para fugir da crise de 2008, que afetou fortemente Europa e EUA. Com isso, consolidou submarcas como Dacia (que fez sucesso não apenas na Europa Oriental, mas também no Brasil, onde Logan, Sandero e Duster fizeram sucesso usando o símbolo da Renault) e Samsung, entre outras.

Também foi o momento em que apostou pesado no segmento de elétricos, colocando a Renault como referência global no assunto.

Mas também colecionou crises e polêmicas. 

Em 2011, sob sua gestão, a Renault teve de pedir desculpas públicas após a demissão de três executivos. Ghosn teve de ir à televisão francesa admitir que a fabricante havia acusado erroneamente três de seus altos funcionários de espionagem industrial. Por ter conduzido falso testemunho na ocasião, Ghosn correu o risco de ser ele próprio demitido e até envolvido com a Justiça.

Em 2013, já com a proeminência de Renault e Nissan como construtores de elétricos, começou a costurar um acordo com a alemã Daimler-Benz, controladora da Mercedes, para desenvolver produtos em conjunto. A nova geração do pequeno smart, por exemplo, saiu desse projeto conjunto -- o novo carro seria basicamente um Renault Twingo de última geração com o exterior bolado pela Mercedes, passando, mais tarde a um modelo com vocação elétrica. Tudo muito antenado, mas é preciso lembrar que os anúncios iniciais do acordo foram abalados por declaração de Ghosn afirmando que a convivência só ocorreria se a jornada dos operários envolvidos fossem ampliada, assunto sempre traumático na Europa.  

Entre 2016 e 2017, outra pequena crise surgiu quando Ghosn tentou assegurar sua liderança na Renault com a compra de ações, mas acabou desbancado internamente. Retornou à carga em seguida, pagando quase 7,5 milhões (mais de R$ 30 milhões) do próprio bolso para, mais uma vez, ter controle acionário interno.

Planos precisarão ser refeitos

Com a fraude vindo à tona, a subsequente prisão e o afastamento de Ghosn, a Nissan terá de achar um substituto para alguém que era praticamente endeusado dentro da empresa. 

Aos 67 anos, Ghosn conseguiu colocar a Renault-Nissan como o segundo maior conglomerado fabricante de carros do mundo, desbancando a Toyota, com mais de 813 mil unidades entregues em 2017, ficando atrás apenas do Grupo Volkswagen, que fabricou mais de 960.400 automóveis no período.

A própria aliança se considera líder global, uma vez que computa não só as duas maiores empresas, mas também todas as subsidiárias Samsung Automóveis, Avtovaz/Lada, Dacia, Infiniti, Datsun, Alpine, bem como a recém-adquirida Mitsubishi, perfazendo 122 fábricas e mais de 10 milhões de unidades entregues no último ano. 

Ghosn já havia sido, até mesmo, retirado de uma anunciada aposentadoria para voltar a gerir a Mitsubishi e a própria Nissan no período de transição pós-compra da empresa japonesa por R$ 8 bilhões

Em 2017, na CES (famosa feira de tecnologia, que nos últimos anos tornou-se palco para apresentação de carros autônomos e elétricos), Ghosn foi o principal palestrante e mostrou planos que serviriam não apenas para países desenvolvidos como Japão, China, EUA e os da Europa Ocidental, mas para mercados como Rússia, Índia e até Brasil

Além da nova geração do Leaf, que foi lançada no Brasil agora, durante o Salão do Automóvel de São Paulo, inovações propostas pela Renault-Nissan incluiam até mesmo carro elétrico que geraria sua energia a partir de depósito de etanol.

Graças ao amplo trânsito neste segmento, o executivo de origem brasileira era nome certo para liderar a nova empresa global a ser criada pelo conglomerado, a Renault-Nissan. Esta nova empresa emprestaria o mesmo nome da aliança inicial, mas seria focada em carros elétricos e compartilhados e teria como objetivo liderar este tipo de mercado.

Planos que precisam ser remodelados com o afastamento e prisão de Ghosn.

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