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Toyota: Brasil terá carro mais econômico e avançado, mas preço não vai cair

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Planos de eletrificação ganham impulso, diz executivo, e quem não investir em tecnologia pode ser punido Imagem: Divulgação

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

20/07/2018 14h26

Executivo da Toyota do Brasil e da Anfavea, Ricardo Bastos falou a UOL Carros sobre o que esperar do "Rota 2030"

UOL Carros já mostrou que o "Rota 2030" trouxe, finalmente, novas regras para o setor automotivo brasileiro, que devem permitir às fabricantes de carros e também de autopeças e componentes eletrônicos planejarem melhor investimento e desenvolvimento de tecnologias. Também há a promessa de haver uma melhoria no mercado de carros elétricos e híbridos com as novas regras.

Mas você também já viu que, conforme afirmou o presidente da Anfavea (a associação nacional de fabricantes automotivos), boa parte das mudanças determinadas pelo governo federal para a indústria de automóveis do país só vai valer após a publicação de alguns decretos e de muitas outras discussões.

Mas o que todo mundo quer saber é: o "Rota 2030" vai mesmo melhorar os carros fabricados no Brasil? Ele vai deixar os carros mais baratos ou ainda mais caros?

Poucas pessoas na indústria nacional podem dar melhores respostas às perguntas acima do que Ricardo Bastos. Diretor de relações públicas e governamentais da Toyota do Brasil, porta-voz da empresa quando o assunto é estratégia de eletrificação e também de sustentabilidade, além de vice-presidente da Anfavea, o executivo participou junto a outros executivos das negociações com o governo e esteve presente na cerimônia de assinatura e anúncio do "Rota 2030", no começo do mês.

E foi para ele que UOL Carros conversou e fez estas duas perguntas. Confira as respostas.

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Melhor anúncio é o anúncio feito

Com as credenciais citadas acima, Bastos afirmou, com alivio na voz, que o novo programa de fomento à indústria nacional de carros é "ótimo" por ter sido anunciado. Nós já reportamos que o grande atraso na assinatura do "Rota 2030" pelo Planalto deixou fabricantes temerosos sobre o futuro da indústria. Assim, o executivo da Toyota afirmou que ter "o anúncio em si foi ótimo, por dar condições às fabricantes de se programarem e determinarem suas estratégias" para o futuro.

De toda forma, muitos dos detalhes do programa de regras e incentivos ainda tem pontos em aberto, que terão de ser definidos por decretos futuros. É o caso dos benefícios a elétricos e híbridos, que devem sair apenas em novembro, e de como os incentivos de R$ 1,5 bilhão à indústria em geral serão calculados, ainda sem data.

A Toyota tem fortes planos de eletrificação -- como o desenvolvimento do Prius híbrido e da próxima geração do Corolla, que também deverá usar motor híbrido flex -- e, acreditamos, já gostaria de ter esse tipo de definição em mãos. Por conta disso, Bastos classificou o texto do "Rota 2030" como "muito bom".

Um ponto exemplar do novo programa federal, na opinião do diretor da Toyota, é permitir que cada empresa trace sua estratégia livre de amarras, por não haver protecionismo e distinção entre produtos nacionais e importados. Além disso, deve haver também o fortalecimento da cadeia nacional de desenvolvimento de autopeças e de implementos tecnológicos, permitindo que toda a indústria de carros avance e fique mais competitiva.

Porém, ressalta Bastos, nada disso significa, em nenhum momento, carros necessariamente mais baratos na etiqueta. Isso porque o "Rota 2030" não vai reduzir preços de forma direta: "O programa não prevê queda de impostos como o IPI [Impostos sobre Produtos Industrializados]", afirma. Bastos acredita que a maior competitividade da indústria, tanto no mercado interno, quanto no cenário internacional, pode levar à concorrência justa. Mas se isso trará alguma redução de preços é algo a ser visto a médio e longo prazos.

De toda forma, há uma esperança apontada por Bastos de que a regulamentação de modelos híbridos e elétricos, no final do ano, reduza o IPI e (de quebra) os preços deste tipo de veículo. Só que preciso lembrar que eles já têm um patamar de preço muito alto, algo que desestimula boa parte do consumo.

Adriano Vizoni/Folhapres - 12.03.2015
Ricardo Bastos, diretor de relações institucionais e governamentais da Toyota, em foto de 2015 Imagem: Adriano Vizoni/Folhapres - 12.03.2015

Confira agora a leitura de Ricardo Bastos sobre os efeitos do "Rota 2030".

UOL Carros: Ricardo, você esteve presente não só ao anúncio do "Rota 2030", agora no começo do mês, no Palácio do Planalto, mas durante todo o longo processo de discussão de ideias, dos grupos de negociação e de diversas datas para encontros entre indústria e governo. No fim das contas, o programa anunciado agradou à expectativa da indústria de carros brasileira?

Ricardo Bastos: O ponto importante a ressaltar é que o anúncio do programa em si foi algo ótimo. E o programa em si é algo muito bom e explico. Ter nesse momento essa definição de regras para o setor até 2030, em três ciclos de cinco anos, foi muito bom.

A regra, no seu detalhe, precisa ser esclarecida com a regulamentação da lei. Pensando além da regulamentação, o primeiro conceito de longo prazo é ótimo, tratar de eficiência energética e segurança, o setor ter sido ouvido, isso esclareceu o que a indústria tem de fazer e dá liberdade para que cada empresa tome a decisão sobre as metas para alcançar as definições.

Vamos trabalhar bastante e não será algo fácil. Mas agora o Brasil está alinhado com o que o mundo está fazendo.

No mundo todo não se toma decisão, nem se coloca equipamentos em carros de um dia para outro. 

UOL Carros: O que muda na prática, com o "Rota 2030", na perspectiva da indústria brasileira?

R. B.: Incentivo para investimento em engenharia ficou alinhado ao que já existia com o "Inovar-Auto". As empresas podem receber parcelas bem pequenas de retorno [incentivo], mas ele existe.

Precisamos, também neste caso, esperar pela regulamentação para saber quais são os critérios de forma mais clara, mas é menor do que no "Inovar-Auto" e vamos ter de disputar investimentos de engenharia em pesquisa e desenvolvimento. Mas regras claras, flexibilidade, desafios de eficiência e segurança estão traçados e isso, para a agenda da Toyota para híbridos e eletrificação, é muito importante.

O grande avanço do "Rota 2030" para o "Inovar-Auto" é não ter proteção, não ter descriminação entre importados e nacionais. O momento, então, é de regras claras e de competitividade ampliada.

UOL Carros: Para o consumidor, a pessoa que compras carros, o que muda? Carro vai ficar melhor ou mais barato no Brasil?

R. B.: O consumidor ganha não imediatamente, mas haverá uma definição interessante para um futuro próximo. Primeiro, porque os carros ficarão mais modernos e mais eficientes. Também vai diminuir a diferença entre o que vemos no mundo e aqui no Brasil.

A agenda de eletrificação vai ter impulso, não um grande salto, mas um impulso. Carros terão conectividade e tecnologias mais modernas.

Já sobre os preços, teremos de aguardar para ver reflexos, mas, com regras definidas, a gente trabalha com antecedência a cadeia de fornecedores de componentes aqui no Brasil. Isso, no cenário atual de dólar a R$ 4, impactando custos, representa um cenário no qual a gente evita essa dificuldade [de importação de componentes de construção e tecnologia] e reflete em custo menor, que chega ao consumidor com preços mais enxutos.

Além disso, a competitividade de indústria também pode ter seu benefício em preços.

Ainda assim, não há uma mudança direta de preços por conta do "Rota 2030" porque não há redução de impostos.

UOL Carros: Falando agora especificamente das áreas nas quais a Toyota atua, das quais você foi mediador, da agenda de novos produtos e também do desenvolvimento de projetos eletrificados e mais eficientes, o "Rota 2030" trará novidades reais? O híbrido Prius, por exemplo, vai ficar mais barato? Não seria melhor o governo tratar de incentivos a carros mais eficientes no geral, não excluindo os motores a combustão, que todo mundo compra?

R. B.: O decreto da eletrificação [de redução de IPI para modelos híbridos e elétricos] fala de metas de eficiência energética de acordo com o peso do veículo. Assim, estamos fazendo cálculos, vendo exatamente qual é o ganho que pode ter com diferente faixas de peso e, com isso, saber se podemos aliviar alguma coisa, em termos de equipamentos, para entrar numa faixa melhor [de isenção].

De fato, não foi uma redução tão grande quanto esperávamos. Dificilmente alcançaremos a alíquota de 7%, que é a menor, mas teremos sim alguma redução.

Isso vem não apenas para o Prius, mas para toda a linha com a qual o Grupo Toyota trabalha hoje. A gente fala aqui também para o Lexus CT 200h e para o Lexus LS 500h.

De toda forma, esse conceito de redução de IPI foi um sinal muito bom, falando de eficiência energética. É muito moderno, como tendência, e como discussão a longo prazo traz um conceito excelente.

Talvez seja um bom "teste piloto" para extensão [da isenção] para todos os carros, para os modelos a combustão, podendo ser o futuro da tributação, envolvendo a cobrança de acordo com a eficiência e eliminando a cobrança que temos hoje por tamanho de motor. Assim, você pune quem estiver com a tecnologia mais atrasada e premia quem for mais atualizado e eficiente. 

Como critério, poderá fazer justiça a carros modernos e mais eficientes.

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