Análise: JAC vai esperar dois anos para voltar à vida

Claudio Luís de Souza

Do UOL, em Camaçari e Mata de São João (BA)

  • Divulgação/Governo da Bahia

    J3 recheado de itens referentes a 2012, como numa cápsula do tempo, é guindado em Camaçari (BA)

    J3 recheado de itens referentes a 2012, como numa cápsula do tempo, é guindado em Camaçari (BA)

A "segunda encarnação" da JAC Motors no Brasil será no corpo de um novo carro, destinado a substituir o atual J3. O futuro modelo compacto, com preço entre R$ 30 mil e R$ 40 mil, será produzido na fábrica da chinesa em Camaçari (BA), cuja pedra fundamental foi lançada na última segunda-feira (26).

Chega-se ao terreno da unidade fabril cerca de 15 minutos depois de deixar a estrada estadual que serve a região, e ele fica exatamente no meio do nada. Obras de terraplanagem estavam a todo vapor quando os jornalistas chegaram para acompanhar a cerimônia, sob sol forte e temperatura de uns 35 graus (a assessoria da JAC forneceu chapéus e protetor solar aos visitantes). Não havia ar-condicionado -- aliás, não se via sequer rede elétrica por ali.

Por que "segunda encarnação"? A marca chinesa, que estreou em 2010 prometendo uma revolução no mercado com sua política de oferecer carros completos a preço de pelados, na prática foi estrangulada à morte com as novas regras do setor automotivo para veículos importados.

UM ENTERRO, MUITOS DISCURSOS

Sérgio Habib, midiático presidente da JAC no Brasil, afirmou em março de 2011, quando o J3 foi efetivamente lançado, que até o último dia daquele ano emplacaria 35 mil unidades. O primeiro pico do IPI para importados aconteceu em setembro, um mês depois de a minivan J6 chegar às lojas -- e foi suficiente para cortar as vendas da JAC a 24 mil carros.

Em 2012, oferecendo desde março o sedã médio J5 (exaustivamente propagandeado na TV pelo apresentador Fausto Silva), os emplacamentos totais da JAC, segundo afirmou o próprio Habib, não passarão de magríssimos 19 mil. É menos do que vende o Volkswagen Gol em um único mês. Se isso, para uma empresa, não é morrer, o que seria?

E que não se perca a ironia: na cerimônia da pedra fundamental, a JAC cumpriu a promessa de criar uma "cápsula do tempo", na verdade um J3 já bem rodado e recheado de lembranças de 2012 (como jornais, livros, amostras de música, além de mensagens de clientes da marca) que será recuperado daqui 20 anos -- quando, supostamente, os dias de hoje serão uma curiosidade.

O carro foi içado por um guindaste e baixado a um buraco numa área nobre no terreno da futura fábrica. Depois, o guindaste ajudou a selar o local com uma lápi... ops, laje de concreto de 7,5 toneladas. A ideia era marqueteira, mas ficou a impressão de um enterro simbólico da JAC pré-regime automotivo. Confira nas fotos que ilustram esta reportagem.

REAGINDO
A primeira ação para a JAC respirar novamente foi o próprio anúncio da fábrica na Bahia -- mas ela só começa a produzir no final de 2014, limitando a operação da marca em 2013 e também em 2014 à cota de 25 mil carros importados por ano.

A segunda ação foi o lançamento do J2, um carro muito mais interessante que o J3, e mais barato também. Habib, que tem fama de consertar relógio no escuro usando luva de boxe, sabe que este é seu melhor produto -- tanto que estima em 8 mil as futuras vendas anuais do J2. Dá mais de um terço, num portfólio com quatro carros.

Depois de o J2 segurar a onda por longos dois anos (13 e 14), a "volta" da JAC se apoiará no carro que vai ser feito na Bahia, podendo elevar sua oferta a 100 mil carros por ano quando atingir o primeiro limite de produção. E o modelo já está "pronto", ao menos em linhas gerais.

Além do preço entre R$ 30 mil e R$ 40 mil, que o situa numa das faixas mais largas do mercado brasileiro, já se sabe que sua gama terá um hatch, um sedã (nesta ordem) e uma variação aventureira do dois-volumes. Os motores serão a gasolina/etanol, com capacidade de 1 e 1,4 litro. É quase o mesmo script da Hyundai para o HB20.

E como vai se chamar essa nova geração do J3, melhorada em tudo, inclusive na segurança e na estrutura, para evitar novo vexame em testes como o do Latin NCAP? Sabe-se que vai ser "J" também. Os numerais 2, 3, 5 e 6 já são usados pela fabricante; voltar na contagem e usar o 1 parece meio esquisito -- e o 4 pode estar reservado para o sedã que será importado em 2013 (concorrente do Chevrolet Cobalt). Além das formas do JAC verde-amarelo, descobrir seu nome fará parte do jogo de gato-e-rato entre imprensa e fabricante nos próximos meses.

  • Divulgação/Governo da Bahia

    J3 já dentro de câmara (ou túmulo), onde ficará por 20 anos; laje de 7,5 toneladas selou o local

Viagem a convite da JAC Motors

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