JAC J2, carro "fofo" da chinesa, vira estrela da marca enquanto a fábrica não abre

Claudio Luís de Souza

Do UOL, em Camaçari e Mata de São João (BA)

A chinesa JAC Motors passa por um momento de transição no Brasil, pouco mais de dois anos após o início de sua operação local. Tomou um baque com o aumento do IPI para carros importados, depois de parecer fadada a explodir nas vendas com sua estratégia de oferecer modelos "completões" a preços de "peladões". Agora, com as regras do jogo claramente definidas pelo novo regime automotivo (Inovar-Auto), a data da virtual re-estreia da JAC no Brasil está marcada para algum momento do segundo semestre de 2014.

  • Traseira do JAC J2 se destaca pelas enormes lanternas e pelo inserto preto no para-choque

Será então que a fábrica da marca em Camaçari (BA), cuja pedra fundamental foi lançada nesta segunda-feira (26), começará a produzir o substituto do J3, provavelmente sob o nome J4, podendo chegar a 100 mil carros por ano. Até lá, em 2013 e ao longo do próprio ano de 2014, o teto de vendas será o teto de importações estabelecido pelo Inovar-Auto: 25 mil unidades/ano. E aí entra o pequeno J2, carro de entrada da JAC, apresentado e testado nesta terça (27), também na Bahia.

O J2 mantém a política de recheio robusto já conhecida em J3, J5 e J6. É um pacote fechado, com itens como airbags frontais, ABS/EBD (antitravamento e distribuição de força de frenagem), faróis e luzes de neblina, regulagem de altura dos faróis, sensor de ré, ar-condicionado, assistência elétrica à direção, vidros e retrovisores ajustáveis por comando elétrico, rodas de liga etc. Tudo isso compactado em 3,53 metros de comprimento, excepcionais (para o segmento) 2,40 metros de entre-eixos e 1,47 metro de altura, e pelo preço sugerido de R$ 30.990. Personalização visual, como faixas externas e combinação de cores, é cobrada em separado.

A briga do J2 é bastante específica: seu alvo é o Nissan March, o único carro vendido no Brasil exatamente com a mesma proposta. Em segundo plano, pode-se dizer que Fiat Uno e Ford Ka (este, prejudicado por não oferecer quatro portas) também estão na alça de mira do carrinho chinês. A meta (modesta, a nosso ver) é chegar a 8 mil emplacamentos por ano.

Segundo Sérgio Habib, presidente da JAC no Brasil, o J2 passou por extensiva adaptação para nosso mercado, incluindo a substituição do motor 3-cilindros original pelo mesmo 1.4 a gasolina, de 108 cavalos, que anima o J3. A grade frontal foi redesenhada para melhorar o arrefecimento -- e ficou mais interessante que a original. O acabamento interno também foi todo refeito para agradar aos brasileiros.

O J2 EM DETALHES
Veja Álbum de fotos

O design do J2, sobejamente conhecido desde o Salão do Automóvel de São Paulo de 2010, e especialmente pelo leitor de UOL Carros por meio de vários álbuns de fotos e reportagem especial na China, segue a mesmíssima lógica de similares de outros mercados, como Toyota Aygo e os gêmeos franceses Citroën C1 e Peugeot 107 (todos de mesma plataforma): "carinha" simpática (arrematada por conjunto óptico "fofo"), teto ascendente e traseira com extremidade reta -- aqui, com lanternas verticais enormes.

O habitáculo abusa de plásticos e tecidos sem nada de especial, mas ao menos o acabamento é caprichado. O painel central circular é envolvido por peça de plástico liso, por exemplo. Há soluções interessantes, como o cluster de instrumentos (conta-giros, velocímetro e indicador de combustível, os três extra-pequenos) que acompanha o volante na regulagem de altura.

  • Divulgação

    Painel do J2 mostra que o carrinho que ser cool

Há erros bobos. O próprio volante não tem ajuste de profundidade, e o banco do motorista, de altura; o porta-copos à frente do câmbio não segura algo tão banal como garrafas PET de água de 500 ml (na primeira curva elas desabam); o porta-luvas não tem tampa, maçanetas (parecidas com as de Nissan March e Versa) e comando dos retrovisores são malposicionados nas portas (e os dos vidros, no painel frontal). Faz falta também um computador de bordo, já que o tanque de gasolina recebe apenas 35 litros, tornando crítica uma previsão eletrônica de autonomia.

O porta-malas é inexistente, de apenas 120 litros, reforçando a percepção de que o J2 é feito para solteiros e casais sem filhos. O que, aliás, é um desperdício, já que o espaço interno é muito bom: quatro adultos de 1,80 metro podem viajar confortavelmente, com espaço de sobra para pernas e cabeças. Mas aí não podem levar quase nenhuma bagagem.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Bastar rodar alguns minutos com o J2 para decidir que ele é o melhor carro da JAC à venda no Brasil -- claro que em termos relativos, considerando a proposta de cada modelo.

OS TRÊS IRMÃOS

  • Divulgação

    Toyota Aygo, fabricado na República Tcheca

  • Divulgação

    Citroën C1 tem a mesma plataforma

  • Divulgação

    Peugeot 107 é o outro irmão na trinca compacta

O motor de 1,4 litro (na verdade, menos de 1,35 litro, mas tudo bem) agradece pelos meros 915 kg do modelo e proporciona acelerações e retomadas incisivas, além de um 0 a 100 km/h em menos de 10 segundos (9,8 s é o dado oficial). Pedais de curso suave e câmbio de cinco marchas amigável formam um conjunto ideal não só para para motoristas mais jovens (e para meninas), mas também para quem não aguenta mais maltratar perna esquerda e braço direito no trânsito urbano -- só que não tem afinidade com, ou dinheiro para, uma transmissão automática.

Em estrada, a 120 km/h, o J2 trabalha a cerca de 3.000 rpm e com pouco ruído na cabine. As suspensões foram retrabalhadas para as condições típicas dos caminhos brasileiros e, apesar das rodas pequenas e massudas, entregam conforto sem prejuízo na estabilidade. O problema é que o J2 é leve e pequeno, mas os caminhões e ônibus e SUVs não são: além de discreta turbulência devido à resistência do ar já a partir dos citados (e civilizados) 120 km/h, o carrinho é muito suscetível aos deslocamentos laterais de ar provocados por veículos maiores do que ele.

Outro item que precisa ser melhorado é a calibragem do volante, com excesso de folga, além de ser uma peça desconfortável para quem a segura do jeito certo.

Como o J2 não dispõe de computador de bordo, não foi possível medir o consumo médio de combustível em nosso test-drive, feito em duas etapas por rodovias e municípios baianos sob um calor que parecia de 40 graus. A JAC não divulga dados sobre isso. E, após o vexame do J3 no Latin NCAP, diz que o J2 "provavelmente" receberia duas estrelas no mesmo ensaio -- cujos critérios não seriam os mesmo da época de lançamento do modelo, além de diferentes dos que se aplicam na China.

Ao final da convivência com o J2, ficou a certeza de que eventuais compradores de March, Uno e Ka devem experimentar o modelo da JAC antes de fechar negócio. Quem está em busca de um segundo carro, com vocação maiormente urbana, também deve ficar atento. E a garantia total de seis anos (o dobro da garantia do March) é um argumento sedutor.

Viagem a convite da JAC Motors

UOL Cursos Online

Todos os cursos