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Salário multimilionário de Carlos Ghosn também é alvo de polêmica na França

Benoit Tessier/Reuters - 30.04.2015
Face de Carlos Ghosn aparece estampada em imitação de nota de 500 euros, durante protesto na França Imagem: Benoit Tessier/Reuters - 30.04.2015

Daniela Fernandes

De Paris

20/11/2018 16h45

Governo francês, e mesmo outros operadores do mercado, eram críticos históricos de "super-rendimentos" do executivo

Os salários milionários do brasileiro Carlos Ghosn, presidente mundial da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, preso no Japão na segunda sob suspeita de fraude fiscal, suscitam há anos fortes polêmicas na França.

Ghosn é presidente dos conselhos de administração da Nissan e da Mitsubishi, e CEO da Renault. Seus ganhos já tiveram várias vezes destaque na imprensa francesa: são alvo de críticas e embates com o Estado -- principal acionista da montadora francesa, com 15% do capital.

O brasileiro de 64 anos, nascido em Porto Velho, filho de pai libanês e mãe francesa, é considerado um executivo emblemático da indústria automobilística mundial. Ele ganhou no ano passado, segundo a consultoria Proxinvest, 13 milhões de euros (quase R$ 56 milhões). Desse total, 7,4 milhões de euros (R$ 31,7 milhões) se referem aos seus ganhos no grupo Renault, que ele dirige desde 2005.

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Ghosn recebe um fixo e uma parte variável, com bônus e opções de ações, em função do desempenho da companhia. Ele atribui os altos valores à boa performance do grupo.

Nos últimos anos, a remuneração de Ghosn na montadora francesa sempre ultrapassou a faixa dos 7 milhões de euros anuais, segundo a imprensa. Os ganhos totais de 13 milhões de euros em 2017 representam mais que o dobro da renda média dos executivos das principais empresas da bolsa de Paris.

De acordo com os cálculos da revista francesa Capital, Ghosn teria recebido entre 2009 e 2016, incluindo os salários na Nissan, mais de 100 milhões de euros (R$ 428 milhões). Isso sem levar em conta as atuais investigações das autoridades japonesas sobre suspeitas de ocultação de renda no país.

Em abril de 2017, Ghosn deixou o comando operacional da Nissan e permaneceu presidente do conselho de administração da companhia.

Seus ganhos no Japão, criticados pelo governo japonês e questionados atualmente pela Justiça do país, foram reduzidos com o abandono do cargo de CEO da Nissan. Ainda como executivo-chefe da montadora, ele teria recebido 8,8 milhões de euros (quase R$ 38 milhões) no período de abril de 2016 a março de 2017.

Queda de braço

A remuneração de Ghosn provocou várias controvérsias junto ao alto escalão do governo francês. Em 2016, o Estado votou contra sua remuneração referente ao ano anterior na assembleia geral de acionistas. Foi a primeira vez na história das empresas cotadas no índice CAC40 da bolsa de Paris, que reúne os pesos-pesados da economia, que a maioria dos acionistas se opôs ao salário de um CEO.

Mas o conselho de administração do grupo Renault decidiu, mesmo assim, aprovar o salário, desconsiderando o voto dos acionistas, o que provocou a irritação do então ministro da Economia, o atual presidente francês Emmanuel Macron.

Na época, Macron havia ameaçado criar uma regulamentação se o conselho de administração da Renault não reduzisse o salário de Ghosn. Até mesmo o patronato francês, na ocasião, divulgou uma carta pedindo a Ghosn para ser "comedido" com seu salário.

No ano passado, a queda de braço continuou: o Estado francês votou novamente contra a remuneração "excessiva" de Ghosn, que foi aprovada pelos acionistas por pequena margem.

Sob pressão do governo francês, Ghosn acabou aceitando no início de 2018 reduzir em 30% seus ganhos na Renault. Em troca, teve seu mandato no comando do grupo renovado até 2022.

Reviravolta após prisão

Nesta terça-feira, o ministro da Economia, Bruno Le Maire, pediu a "gestão interina" da Renault, já que Ghosn, preso no Japão, "está impedido de dirigir a empresa", disse Le Maire.

Segundo o ministro, o governo não irá pedir a saída de Ghosn da Renault na reunião do conselho de administração que será realizada nesta terça porque "não há provas" de irregularidades na França.

Le Maire afirma que nenhuma fraude fiscal da parte de Ghosn foi detectada na França. Ele vai solicitar ao governo do Japão "todos os elementos" das investigações no país.

"Se os fatos se revelarem verdadeiros, isso será de uma gravidade considerável, ainda mais no caso de um cargo importante e um salário muito elevado", diz Le Maire.

O presidente Macron disse que o Estado francês, como acionista, "vai permanecer extremamente vigilante com a estabilidade da aliança" Renault-Nissan-Mitsubishi.
Ghosn também é supeito de ter utilizado bens da Nissan para proveito pessoal.

De acordo com a mídia japonesa, ele teria desfrutado de residências luxuosas pertencentes a uma filial da Nissan e utilizado recursos da companhia para pagar viagens da família e outras atividades particulares.

Ghosn era reputado por ter salvado a Nissan da bancarrota em 1999, que lhe valeu o apelido de "cortador de custos" e ter recuperado a Mitsubishi, que entrou para a aliança em 2016.

Sob seu comando, a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi se tornou uma gigante mundial do setor, com mais de 10 milhões de veículos vendidos no ano passado. São cerca de 500 mil funcionários. A Renault e a Nissan também foram as primeiras montadoras a investir de forma maciça nos carros elétricos, se tornando líderes nesse setor.

Na quinta-feira, o conselho de administração da Nissan deverá votar o afastamento de Ghosn da companhia. A Mitsubishi também anunciou a intenção de demitir o executivo da conselho de administração da empresa.

A queda de Ghosn provoca incertezas sobre o futuro da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e poderá ter impacto em seu funcionamento, segundo analistas.

"A Nissan analisará uma estrutura de governança que não dependa apenas de uma única pessoa", declarou Hiroto  Saikawa, diretor-geral da Nissan.

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