Topo

Coluna

O Motociclista

"Colchas de retalhos", ruas brasileiras são cheias de armadilhas para motos

Robson Ventura/Folhapress
Moto passa por avenida desnivelada, esburacada e parcialmente asfaltada em São Paulo (SP): e o perigo de cair? Imagem: Robson Ventura/Folhapress
O Motociclista Roberto Agresti

Roberto Agresti, editor da Revista da Moto! desde 1994, volta a escrever para UOL Carros. Sua estreia na imprensa automotiva foi em 1984, com passagens pelas revistas Motoshow (atual Motor Show) e Motor 3. Atualmente, é comentarista da rádio CBN/CBN MOTO e colaborador do site AutoEntusiastas desde 2011.

Roberto Agresti

Colaboração para o UOL

02/01/2018 11h04

Asfalto velho, remendos e insertos desprovidos de padrão de segurança tornam nossas vias um chamariz de acidentes

A prefeitura de São Paulo, cidade com a maior frota de motocicletas do Brasil, está avisando à população por meio de intensa propaganda nos meios de comunicação que iniciará um "grande" programa de recapeamento de suas principais avenidas.

O anúncio vem junto a uma série de números que servem mais para impressionar do que representar algo efetivo à população: 3 milhões de metros quadrados de pavimento em quatro meses, ao custo de R$ 350 milhões. Boa parte desse valor, cerca de R$ 200 milhões, virá de Fundo de Multas.

Apesar de ser uma notícia local, pavimentação é sempre um tema que interessa a motociclistas de todos os cantos do Brasil. Mais que quaisquer outros usuários das vias públicas, pilotos de motos são os mais prejudicados com o asfalto ruim das vias brasileiras.

Não é preciso explicar muito a razão disso: motos usam uma receita que concilia dois ínfimos pontos de contato com o solo, como em uma bicicleta, porém trafegando em velocidade semelhante à dos carros.

Veja mais

+ Mercado de motos repete números de 2016, mas com virtudes
Projeto de Lei quer regulamentar o corredor; veja regras
Vai viajar? Veja qual o melhor modelo para sua aventura
Quer negociar hatches, sedãs e SUVs? Use a Tabela Fipe
Inscreva-se no canal de UOL Carros no Youtube
Instagram oficial de UOL Carros
Siga UOL Carros no Twitter

Buracos, remendos, calombos...

Sem dúvidas o atual estado de degradação das ruas de São Paulo desanima -- e olha que a maior cidade do país nem de longe é a pior nesse aspecto --, exigindo melhorias urgentes. Por isso o tal programa "Asfalto Novo" é uma boa notícia.

Porém, causa perplexidade o discurso aplicado pela prefeitura paulistana. O órgão coloca boa parte da culpa pelo mau estado da conservação das vias no grande número de veículos em circulação na cidade (8,5 milhões), associado à idade da pavimentação e aos muitos anos quase sem planos de recapeamento em grande escala.

Na verdade esta é apenas uma parte do problema.

A grande verdade é que nossas vias são verdadeiras "colchas de retalhos": camadas de asfalto de diferentes épocas justapostas; áreas parcialmente pavimentadas; valetas e lombadas  aplicadas sem qualquer tipo de padrão; remendos mal feitos por concessionários de água, esgoto, gás e energia (estas não demonstram qualquer preocupação em devolver a via a seu antigo estado após realizar algum serviço); faixas demarcadoras que usam tinta escorregadia; tachões de dimensões agressivas; cruzamentos delimitados com alvenaria.

Todos esses elementos constituem uma combinação extremamente "malvada" a pneus, rodas e suspensões de qualquer veículo, mas são ainda mais sentidas pelas motocicletas. Se para um carro uma protuberância na via causa apenas desconforto, para uma moto se torna um potencial causador de acidentes.

No caso de São Paulo, a frota estimada pelo Detran-SP é de 1,2 milhão de motocicletas, todas suscetíveis a essas incontáveis armadilhas. Portanto, qualquer plano de recapeamento é bem-vindo, mas nunca será suficiente enquanto as autoridades não se lembrarem das sensíveis características de equilíbrio de um veículo de duas rodas.

Padronizar é a solução

É preciso estabelecer padrões e fiscalizar a ação de empresas que realizam serviços que geram remendos no asfalto. Sem isso qualquer investimento se tornará inócuo em médio e longo prazo.

Aliás, junto ao dinheiro das infrações de trânsito, por que não fazer as concessionárias de serviços públicos, responsáveis por obras e seus consequentes remendos, colaborarem para pagar a salgada conta deste serviço?