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Fim de relatórios mensais da GM não impede distorção nas vendas

Murilo Góes/UOL
Marca alega que reportes mensais de venda fornecem resultados imprecisos Imagem: Murilo Góes/UOL

Do UOL, em São Paulo (SP)

01/05/2018 16h33

Marca disse que publicará apenas números por trimestre; especialistas acusam empresa de ser 'menos transparente'

Alguns anos atrás, BMW e Nissan descobriram uma maneira prática e rápida de turbinar suas vendas. Elas passaram a vender carros para suas concessionárias, que os deixavam expostos em showrooms ou utilizavam como carros de locação. Assim, estes veículos eram emplacados e inseridos nas listas de vendas mensais.

Este episódio não tem relação direta, mas ajuda a explicar porque a General Motors decidiu abandonar os reportes mensais de vendas, divulgando apenas relatórios trimestrais.

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Na visão da fabricante, a indústria não precisa de relatórios de venda que não sejam trimestrais, alegando que especulações geradas por resultados voláteis (como são os relatórios mensais, na visão da fabricante) não retratam a real situação da indústria automotiva.

Nada muda

Certa vez, o escritor Mark Twain afirmou que “existem mentiras, mentiras gigantescas e as vendas de automóveis”.

Este discurso é endossado pelas atitudes de algumas fabricantes, que ainda veem premiações de carro mais vendido ou marca campeã de vendas como ferramentas para alavancar seus resultados -- e, portanto, fazem de tudo para atingirem este objetivo.

Além disso, basta lembrar que a concessão dos bônus de muitos executivos da indústria ainda depende de bater metas e aí você entenderá porque as empresas ainda incentivam a distorção dos resultados.

“Isso (relatórios trimestrais) não acabará com as falcatruas da indústria. Ainda veremos algumas distorções. A diferença é que isso acontecerá a cada três meses em vez de ocorrer mensalmente. A manipulação será minimizada, mas nunca eliminada”, afirmou Jeff Schuster, vice-presidente sênior da empresa de consultoria automotiva LMC  Automotive.

A Bloomberg  News afirma que todas as grandes montadoras estão projetando resultados negativos em abril. E a ausência da GM só dificulta a análise da real situação da indústria.

“Quando o maior personagem (do setor automotivo) deixa o barco isso significa que o processo será ainda mais complicado. Eles (GM) estão sendo menos transparentes do que antes”, afirmou Michelle Krebs, analista sênior da pesquisadora Autotrader.

Do outro lado, o porta-voz da GM, Jim Cain, assegura que esta mudança tornará a empresa mais transparente do que a maioria das concorrentes. “Resultados trimestrais facilitam a identificação de tendências de mercado porque as vendas mensais são inerentemente voláteis. Se eliminarmos essa variável, nós minimizamos riscos de qualquer confusão”, escreveu Cain.

Vale tudo

BMW e Nissan não foram as primeiras – e nem serão as últimas montadoras a manipularem números de vendas.

Em 2016, a Fiat Chrysler Automobiles revisou anos de resultados de vendas após a Comissão de Comércio dos Estados Unidos ter iniciado uma investigação de que a empresa teria inflacionado seus números. A empresa foi obrigada a admitir algumas farsas, como a divulgação de um crescimento de vendas de seis anos consecutivos que, na realidade, durou apenas três anos e meio.

Nos anos 70, a Chrysler estacionou vários veículos novos em terrenos baldios de Detroit e vendeu-os a alguns concessionários com descontos generosos. A atitude quase levou a empresa à falência, forçando o então CEO, Lee Iacocca, a pedir um empréstimo ao governo.

Quase três décadas depois, a Lincoln fecharia o ano de 1998 na liderança de vendas do segmento de luxo nos Estados Unidos se a Cadillac não tivesse anunciado um improvável crescimento de 38% em suas vendas de dezembro.

Cinco meses depois, a própria GM (dona da Cadillac) admitiu ter manipulado os números, e o diretor da marca se desculpou com o responsável pela Lincoln, que não fechou um ano em primeiro lugar desde então.

Nova tendência?

Agora que a GM desistiu de reportar vendas mensais, alguns analistas acreditam que é questão de tempo para outras fabricantes fazerem o mesmo.

“Analisando pelo ponto de vista de competitividade, ninguém quer ser obrigado a explicar coisas que a GM não precisa explicar. Eles não querem expor suas estratégias para todo mundo ver”, afirmou Schuster.

A GM ainda pretende fornecer números de vendas mensais para as autoridades norte-americanas, que utilizam os números para calcular o PIB dos Estados Unidos. Em contrapartida, a montadora ainda negocia para liberar apenas algumas informações à diversas empresas de pesquisa, que precisam destas para assinar termos de confidencialidade.

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