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Cultura do carro

Ninguém quer arrematar "Super Mercedes" de Hitler nos EUA. Você compraria?

Rodrigo Mora

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/01/2018 16h46

Carro para desfiles do ditador nazista tem história conturbada, mas predicados muito interessantes

"O automóvel mais historicamente significativo já oferecido para venda pública" é um aposto marqueteiro no mínimo duvidoso, mas certamente é curioso saber que um dos principais carros a serviço de Adolf Hitler está sendo leiloado. Só que ninguém se mostrou atraído o bastante: a Worldwide Auctioneers, casa de leilão que fica em Scottsdale (EUA), até atraiu interessados esta semana usando a frase que abre esse texto. Só que pedia pelo menos US$ 10 milhões (R$ 32 milhões) e ninguém quis dar mais do que US$ 7 milhões (R$ 22,5 milhões diretos), segundo a rede local CBS. Assim, o leilão foi suspenso sem negociação.

Ainda de acordo com a casa de leilão, "10% do preço de venda do carro será doado e usado para educar como e por que o Holocausto aconteceu e como efetivamente prevenir tais atrocidades no futuro". Mas nem isso comoveu os presentes. Se é que é possível deixar o passado histórico de lado, porém, vale dizer também que este pode ser considerado um "Super Mercedes-Benz".

Esse Mercedes-Benz 770K Grosser Offener Tourenwagende de 1939 "não escolheu seu dono ou seu uso", como também citou a Worldwide Auctioneers. "Se a origem Hitleriana original deste Mercedes pode ser deixada de lado, apenas momentaneamente, os exemplares sobreviventes da gama 770 Grosser, ou 'Super Mercedes', continuam a ser a maior conquista do mundo em termos de design automotivo, engenharia, e construção. Essas virtudes intrínsecas devem, por necessidade, ser consideradas em qualquer discussão sobre o veículo".

Fazia parte, claro, de uma geração de modelos voltados totalmente à opulência -- carros desse período eram totalmente pautados pelo luxo e usados apenas por ricos empresários ou por pessoas ligadas de alguma forma ao governo nazista. Quando começou a ser fabricado, a Alemanha de Hitler ainda não estava sofrendo financeiramente com os efeitos da Grande Guerra que viria a ser provocada pelo avanço dos planos do regime nazista -- e que teria como efeito automotivo, veja só, o projeto de modelos mais baratos que culminariam com o Volkswagen, o modelo que daria origem ao nosso Fusca.

Voltando ao Super Mercedes, ela era um monstro sobre rodas: 6,70 metros de comprimento (dois carros subcompactos em fila de tamanho), 3,50 m de entre-eixos (ou seja, quase cabe um Fiat Mobi ou um Renault Kwid no espaço destinado às pessoas dentro da cabine). São 2,13 m de largura e no mínimo 3,5 toneladas de peso (praticamente o peso de quatro exemplares do Kwid juntos na balança). Com blindagem extra e adereços do comando nazista, chegava fácil às 5 toneladas.

Mecanicamente, era equipado com um motor de 7,7 litros, oito cilindros em linha, produzia 155 cavalos, ou 230 cv quando dotado de compressor. Abastecer esta máquina era complicado: o tanque de gasolina comportava quase 200 litros (!). Mas a carroceria também incluía hastes para bandeiras, buzinas e sirenes extras, compartimentos secretos e um opcional estranho: a história conturbada. 

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Era mesmo de Hitler?

Fato é que sua exclusividade não se questiona: este é um dos cinco 770K Grosser com carroceria aberta (Offener Tourenwagens) sobreviventes. Teve duas gerações: W107 e W150 -- esta última, da qual fazia parte o carro de Hitler, foi fabricada de 1938 a 1943. Outra unidade também esteve na América, rodou em desfiles, foi alvo de fotos nadas auspiciosas e também ganhou o rótulo de "carro de Hitler". Agora, ao que tudo indica, está exposta no Museu da Guerra de Ontário (Canadá). Pelo que se sabe, porém, atribui aquela unidade ao líder nazista foi um erro, não importa agora se voluntário ou não.

Documentos reunidos pela casa de leilão provam que esta unidade agora em leilão do 770K Grosser Offener Tourenwagens (chassis 189744) foi encomendada por Erich Kempka, um membro do partido nazista que serviu como motorista de Hitler. Além de todos os componentes de luxo, o modelo deveria ser blindado.

Consta que a entrega do carro à garagem do comandante nazista foi em 7 de setembro de 1939. No dia 6 de outubro, a estreia pública ocorreu durante um evento oficial do governo, com presença da mídia local e internacional.

O 770K Grosser era o quarto carro do ditador, sendo usado para receber chefes de Estado em visita à Alemanha. Foi assim em 18 de junho de 1940, quando Hitler levou o ditador italiano Benito Mussolini para um passeio. Em 6 de julho de 1940, aquele Mercedes-Benz conduziu Hitler no "Siegesparade", o desfile da vitória realizado em Berlim, que marcava a invasão da França no início da Segunda Guerra.

Consta que o último desfile do 770K de Hitler foi em 4 de maio de 1941, na celebração da conquista da Iugoslávia e da Grécia. Em 15 de julho de 1943, o conversível volta para Sindelfingen para manutenção -- é seu último registro oficial sob a propriedade do Reich de que sem tem notícia.

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770 K transportou Hitler em desfiles documentados, mas teve nove donos ao todo Imagem: Reprodução

Como um carro de Hitler foi parar nos EUA?

Terminada a Segunda Guerra, em 1945, as Forças Armadas dos EUA tomam o 770K de Hitler para si e o despejam numa garagem na base de Le Havre, na França. Há um vácuo de informações...

... até surgirem notícias de que oficiais da SS (o alto escalão da polícia nazista) tentaram resgatar o carro, mas foram assassinados, enquanto o Mercedes teve toda sua fiação removida e foi jogado em um canal na cidade belga de Antuérpia. Um dos algozes dos nazistas nesse episódio mais tarde viria a trabalhar na fabricante de cigarros Tabacofina, contando a história para o dono da empresa, A. H. Van der Elst Jr., que então manda buscar o carro -- o 770K não estaria mais no canal, mas abandonado em um depósito de lixo a essa altura.

História complicada, não? Mas vai além.

"Dada a escassez e o racionamento da demanda e o valor dos cigarros e produtos de tabaco durante e após a guerra, Van der Elst vendeu o 770K logo após ter adquirido o carro, alegadamente em troca de US$ 1.800 de tabaco para Tom N. Austin, descendente da dinastia Austin do tabaco, de Greeneville, Tennessee", conta a Worldwide Auctioneers.

Por volta de 1948, Austin doa o carro para a associação local dos veteranos de guerra, que basicamente usam o Mercedes que fora de Hitler em desfiles. Até que em agosto de 1976, em desuso e com apenas 33.309 quilômetros rodados, o veículo seguiu para as mãos de caçadores de automóveis clássicos, em Kentucky. É quando passa por sua primeira restauração, perdendo a blindagem dos vidros.

O 700K ainda teve mais dois proprietários distintos -- não perca a conta, são oito donos até aqui --, até que em 2004 foi vendido para um colecionador europeu em "pacote" de 21 modelos da Mercedes-Benz". Este é o último destino conhecido do "Super Mercedes" até voltar aos EUA para este leilão.

* Siga Rodrigo Mora e seus carros no Instagram: @moranoscarros

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Ninguém quis pagar os US$ 10 milhões pedidos pela limusine aberta Imagem: Reprodução

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