Mobilidade

Senador quer Brasil sem carro a gasolina, diesel e até etanol em 2040

Murilo Góes/UOL
Brasil tem condições de replicar esforço por carros híbridos (na foto, o Porsche Cayenne Hybrid) de Europa, Índia e até China? Imagem: Murilo Góes/UOL

Alessandro Reis, Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP) e Frankfurt (Alemanha)

29/09/2017 04h00

Reino Unido (2040), França (2040), Alemanha (2030), Índia (2030), Noruega (2025), Suécia (2019). Estes são alguns países que já definiram datas para banir automóveis com motor a combustão das linhas de produção e das ruas de seus principais centros urbanos -- medida que já faz grandes grupos automotivos se movimentarem em busca de alternativas, como dar exclusividade ao desenvolvimento de híbridos plug-in, elétricos e modelos a célula de energia. Mas e o Brasil?

Apesar do nosso país sequer ter conseguido estabelecer, até hoje, uma política que incentive o uso de automóveis mais eficientes e menos poluentes, já existe proposta no Senado para que motores a diesel e a gasolina também sejam proibidos por aqui. E no mesmo prazo das grandes nações: de 2030 a 2040.

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Diesel e gasolina proibidos em 2030

Tramita na Casa há algumas semanas o Projeto de Lei 304/2017, do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que estabelece datas parecidas para impor um fim aos veículos movidos a combustíveis fósseis -- gasolina, GNV e diesel. Motores a etanol e biodiesel, inicialmente, poderiam seguir em produção, ao lado de opções elétricas.

De acordo com a proposta do parlamentar, a partir de 2030 ficaria proibida a venda de veículos novos com motores a diesel e gasolina.

Mas a proposta vai além: dez anos depois, em 2040, seria vetada a circulação de veículos com estes tipos de motores, inclusive os já existentes. Apenas algumas categorias específicas, como carros de colecionadores, teriam a circulação permitida.

Em conversa com UOL Carros, o Nogueira afirma que o projeto ainda aguarda a designação de um relator e será submetido à análise da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) e da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A expectativa é ver a proposta aprovada nas duas comissões ainda este ano, após a realização de audiências públicas, para então ser encaminhada, em caráter terminativo, para votação do plenário da Câmara dos Deputados. O parlamentar crê que seu projeto será aprovado até o fim de 2018.

"Não vejo dificuldades para a aprovação. É uma tendência mundial, vem acontecendo em diversos países que já criaram ou estão criando uma legislação para que essa proibição aconteça. É uma situação que a gente tem de enfrentar, melhorar a qualidade do nosso meio ambiente. Um sexto das emissões de dióxido de carbono no mundo vem disso", afirma o senador.

Pedro Ladeira-6.abr.2016/Folhapress
O senador Ciro Nogueira, do PP: "tendência mundial" Imagem: Pedro Ladeira-6.abr.2016/Folhapress

Etanol é alternativa temporária

Considerado um projeto genuinamente brasileiro e uma alternativa sustentável aos derivados de petróleo, o etanol escapa da proibição inicial do projeto de lei, mas também sujeito a um limite.

Combustível proveniente de fonte renovável (a cana-de-açúcar) e com emissões bem mais baixas que a da gasolina, o etanol tem duas dificuldades, segundo o senador: primeiro, não tem competitividade para sobreviver no mercado local; e, na comparação global, será ofuscado pelo movimento mundial de eletrificação, ainda que seja alternativa mais limpa, simples e acessível.

"Acho que daqui a cerca de 20 anos o etanol não será mais usado porque as tecnologias no mundo todo estão focando nos elétricos. Não acredito que esse combustível irá seguir em desenvolvimento apenas no Brasil", avalia.

Assim, Nogueira se diz aberto para ajustar seu Projeto de Lei a deliberações extras sobre etanol e eletrificação que possam surgir de movimentos como o programa automotivo "Rota 2030" (projeto de metas para o setor automotivo), cuja discussão junto ao Governo está atrasada e que, ainda assim, prevê poucos avanços para elétricos e híbridos.

Para Nogueira, a possibilidade de ter carros apenas com motores elétricos num segundo momento -- ainda que sem data definida -- faz parte do projeto: 

"Não teria maiores problemas em ajustar e adaptar o texto, mas temos de criar um foco nos veículos elétricos. Isso tem de acontecer no Brasil. Faremos audiências públicas com indústrias envolvidas, seja do petróleo, seja automobilística, e chamar também entidades ligadas ao meio ambiente para definir se a data é correta".

Ceticismo das marcas

Procurados nos últimos dias por UOL Carros, executivos da indústria teceram panorama com maior ou menor grau de ceticismo em relação à adoção de uma realidade baseada em modelos elétricos no Brasil.

Atualmente, toda iniciativa que fuja de motores a combustão depende de importação (e dos sabores do câmbio). Este ano, segundo dados da SAE (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade) e da ABVE, já são 6 mil unidades "verdes" vendidas até setembro (boa parte desse número, de carros híbridos simples). O número é muito superior ao do último ano no Brasil, mas apenas uma fração do que se observa na Europa: computando apenas híbridos, foram 280 mil unidades em 2016, devendo superar as 300 mil unidades este ano.

David Powels, presidente e CEO da Volkswagen, afirmou em entrevista a UOL Carros que o futuro dos automóveis elétricos em nosso país "depende de investimentos em infraestrutura, especialmente no que se refere à disponibilidade de energia, e também de uma política de governo definida, incluindo incentivos fiscais para a aquisição dos carros 'verdes'". Nada disso é sequer discutido pelo governo no momento, restando 13 anos para o momento inicial do projeto do senador Nogueira.

Johannes Roscheck, presidente da Audi do Brasil, também enxerga uma realidade pessimista para a proposta de Nogueira: "Não vejo espaço para um movimento de eletrificação no Brasil em dez, 20, nem nos próximos 30 anos", afirmou em conversa durante o Salão de Frankfurt (Alemanha). Para o executivo, apostar firme em motores flex mais eficientes ou, talvez, em híbridos com etanol (motor elétrico em conjunto com motor movido a álcool) possa ser uma alternativa: "O Brasil tem essa tecnologia na mão, que é limpa e talvez o mais inteligente seja aperfeiçoá-la".

Já o presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico, Ricardo Guggisberg, acredita que adiar o desenvolvimento do projeto de elétricos no Brasil é atitude semelhante a "tapar o sol com peneira", ainda que o cenário pareça distante e até irreal. Tudo por conta do cenário mundial, que poderia deixar o país isolado, situação ainda pior em termos econômicos:  

"Essas regras do comércio internacional [projetos elétricos em passo avançado nos principais países] são inalianávais. Se quiserem barrar, não vão conseguir, indústrias vão vender carros elétricos aqui no país de um jeito ou de outro. Então é preciso termos um pontapé para produção local, também", afirmou Guggisberg durante abertura do Salão do Veículo Elétrico de São Paulo, na última semana.

Para o presidente da associação de elétricos, porém, é preciso haver planejamento e discussão adequados: "Existe uma questão de equilíbrio do parque industrial local. Se mexer nisso de modo rápido ou impensado, gera desequilíbrio e até desemprego, mas governo e indústria vão ter de se mexer e com velocidade, porque mudanças vão acontecer".

Ciro Nogueira afirma que discussão é necessária, mas afirma que um dos principais entraves citados é falacioso: o de que eliminar motores a combustão no Brasil levaria ao apagão.

"Não vai faltar energia. O Brasil já está se encaminhando para a autossuficiência na geração de eletricidade, incluindo as fontes limpas e renováveis como eólica e solar, que têm avançado bastante. Em 2030, parte dos veículos comercializados aqui será elétrica e, em 2040, só haverá esse tipo de automóvel no Brasil", garante o senador.

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