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Venda da Opel afeta o Brasil? PSA comemora, GM desconversa e EUA polemizam

Arnd Wiegmann/Reuters
Opel prepara carros para o Salão de Genebra... ao mesmo tempo em que é vendida à PSA Imagem: Arnd Wiegmann/Reuters

Eugênio Augusto Brito
André Deliberato
Leonardo Felix

Do UOL, em São Paulo (SP)

Analista americano diz que matriz da GM poderia até cortar laços com América do Sul para manter crescimento global; Citroën se diz "alegre"

Após pelo menos quatro anos de especulação e "vai-não-vai" de todos os envolvidos, a alemã Opel acabou vendida para a PSA (Peugeot-Citroën) nesta segunda-feira (6). Mas o que isso muda aqui no Brasil? Voltaremos a ver carros com base Opel por aqui? Os modelos novos de Peugeot e Citroën virão? Algo muda?

UOL Carros apurou que, enquanto a PSA celebra, a General Motors desconversa, mas analistas americanos apontam até uma mudança geral de comando por aqui -- essa possibilidade é, em nossa opinião, a mais bizarra e menos provável, mas deixaria nosso mercado de pernas para o ar caso se concretizasse.

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Um pouco de contexto

Por mais de 20 anos, carros de sucesso da Chevrolet (leia-se General Motors) no Brasil tiveram origem na alemã Opel. Monza, Kadett, Corsa, Vectra, Astra são sempre lembrados. Também houve o caso do monovolume Meriva, desenvolvido no Brasil e que surpreendeu a Opel (atualmente, porém, o modelo só existe na Europa). A única intersecção em ação acontece com o novo Cruze e o Opel Astra atual -- ambos dividem plataforma, mas cada um tem seu próprio desenvolvimento. 

O grosso da sinergia mudou com a crise da GM entre 2004 e 2008: quase falindo, a GM foi obrigada pelo governo de Barack Obama (que salvou as finanças do grupo) a matar algumas marcas (Hummer, Pontiac, Oldsmobile, Pontiac), enxugar outras (Buick, Cadillac e GMC) e criar novos modelos em todo o mundo. A Chevrolet virou a marca global da companhia, seus modelos passaram a ser desenvolvidos na Ásia, EUA e até Brasil, enquanto a Opel/Vauxhaull ficou "jogada para escanteio"... até ser vendida nesta segunda-feira para a PSA.

Já a história da PSA (Peugeot-Citroën) no Brasil começou para valer (tirando o período de importação esporádica) com o movimento industrial do final da década de 1990 e a chegada das "newcomers" (novas marcas) até os primeiros anos da década de 2000. Modelos como Peugeot 206 e Citroën C3 fizeram história por serem bem equipados, bons de rodagem e confortáveis. Acontece que decisões equivocadas localmente e péssimo pós-venda derrubaram a confiança do comprador brasileiro nas duas marcas. Para piorar, a crise europeia em 2008/09 minou finanças da aliança francesa, que acabou tendo seu controle dividido entre a família Peugeot, o governo francês e a chinesa Dongfeng para não fechar.

Plano de reestruturação do grupo francês envolve a criação de novas plataformas, que são mais eficientes, mas ficaram caras demais para serem reproduzidas aqui na América Latina: Peugeot 208 e 2008 locais têm pontos fracos em relação aos europeus e vendem pouco perto dos rivais; Peugeot 308, Citroën C3 e C4 mais atuais não virão da França para o Brasil; a marca de luxo DS deixou de ter seus principais modelos importados, apesar de crescer em todo o mundo.

Murilo Góes/UOL
PSA renasce: no mesmo dia da compra da Opel, Peugeot 3008 foi eleito "carro do ano" na Europa Imagem: Murilo Góes/UOL

Franceses: futuro pode ser bom 

Com a compra da Opel, porém, analistas e a própria PSA esperam avanços nos próximos cinco anos: além do fortalecimento do grupo, espera-se uma redução nos custos e o aumento na qualidade dos modelos feitos pelas três marcas -- a princípio, Peugeot, Citroën (junto com DS) e Opel existirão separadamente, mas tecnologias serão compartilhadas.

Franceses esperam que a PSA tenha relevância e alcance globais, finalmente. De um lado, os franceses sabem como fazer carros avançados, com bom visual e usando tecnologia híbrida, elétrica, mas também com bons motores a combustão. De outro, a Opel sabe como fazer bases versáteis, aceitas em vários mercados.

Justamente isso pode ser bom para nosso mercado -- mas só daqui a um tempo. "A aquisição faz parte de plano de reestruturação e crescimento iniciado há alguns anos, aumenta o tamanho do grupo e prova que a PSA veio para jogar no primeiro escalão das fabricantes globais", afirmou Paulo Solti, diretor da Citroën e DS no Brasil, ao ser questionado por nossa reportagem sobre a compra da Opel.

Para o principal executivo da marca no país, a aquisição da Opel "é uma notícia que deixa a Citroën do Brasil muito alegre".

De fato, o que daria ânimo à Citroën seria o lançamento de novos modelos -- a última novidade foi a atualização do Aircross, no final de 2015, ao passo em que sabemos que C3 e C4 atuais não virão.

Fabrice Coffrini/AFP
Astra, carro do ano de 2016 na Europa: Opel pode fornecer boas soluções à PSA Imagem: Fabrice Coffrini/AFP

GM do Brasil: relação zero  

Procurada por UOL Carros, a GM do Brasil foi hermética e se posicionou com uma única frase, enviada por e-mail, pela divisão de comunicação corporativa. "O anúncio de hoje está relacionado a Opel/Vauxhall, não está associado a outros mercados ou operações".

De fato, a filial brasileira quer focar no bom momento de suas operações: após renovar sua linha com modelos que têm quase zero relação com a Opel (como dissemos, o Cruze é o único com um leve parentesco), é líder de mercado no Brasil por dois anos seguidos.

Além disso, tem o desafio colocado recentemente de se desvincular das operações de Colômbia, Chile e Venezuela, bem como de outros países do Cone Sul, focando no mercado local e com a Argentina. 

Para a imprensa norte-americana, porém, a venda da Opel marca o começo de uma nova reestruturação global da GM, quer pode ter consequências maiores.

EUA: futuro bombástico?

A ideia da GM, segundo analistas da conceituada agência "Automotive News", seria aumentar os lucros e zerar a perda de dinheiro. O que isso quer dizer?

Aumentar a presença da Chevrolet na China (maior mercado para carros no mundo) seria o objetivo máximo. Por outro lado, a Cadillac (marca de luxo da GM) pode perder ainda mais espaço de seu já escasso mercado.

Que Maven (empresa da compartilhamento de frota, aberta pela GM há dois anos) e Lyft (concorrente do Uber criado pela em 2016) vão expandir sua participação.

Por fim, e isso é o mais bombástico, que a operação da América do Sul poderia ser desmembrada da GM americana.

"Não seria surpresa para ninguém se a GM cortasse laços com a América do Sul, onde perde muito dinheiro já há algum tempo", afirmou Keith Crain, em seu artigo sobre a venda da Opel para o Automotive News.

Segundo Crain, os executivos da GM -- incluindo a chefona Mary Barra -- sabem que o mundo mudou muito nos últimos anos e seguirá com alterações aceleradas nos próximos anos e afirmam que "farão o que tiver que ser feito". Neste tipo de cenário, um direcionamento da América Latina à junção com a nova PSA/Opel seria uma solução, já que há o histórico é bom e os produtos seriam viáveis.

Nada disso, porém, é sequer comentado pela GM local.

Blefe ou boa análise feita com base em informações quentes por parte dos americanos? O tempo (e cada um dos mercados) dirá.

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