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Ducati, agora da Audi, mantém paixão italiana pelas duas rodas

Arthur Caldeira

Da Infomoto

18/06/2014 17h49

Federico Fellini, Luciano Pavarotti, queijo parmesão, o vinho Lambrusco e as marcas Ferrari, Maserati e Lamborghini. O que esses ícones italianos têm em comum? "Todos são da região de Emilia-Romagna, do norte da Itália", diz Livio Lodi, curador do Museu Ducati, nascido e criado em Bolonha -- uma das principais províncias da região de onde surgiu a empresa.

Considerado um "arquivo vivo", Lodi dedicou a maior parte dos seus 48 anos à fábrica da marca. Sua carreira na empresa começou em 13 de abril de 1987, juntamente com seu irmão gêmeo Luigi, na linha de montagem. Porém, desde 2001, em função de sua paixão pelas motos vermelhas e pelo seu conhecimento de história contemporânea, ele foi nomeado o curador do museu. Ninguém melhor do que Lodi, portanto, para apresentar as instalações da fábrica, localizada na Via Antonio Cavalieri Ducati, no pequeno distrito de Borgo Panigale, berço da empresa.

NAS ONDAS DO RÁDIO
Corroborando a tese de que a região é de uma grande efervescência cultural, industrial e até mesmo gastronômica, o aeroporto da cidade leva o nome de Guglielmo Marconi, físico nascido em Bolonha e considerado um dos pioneiros na telegrafia sem fio e nas transmissões de rádio. Em resumo, Marconi descobriu uma utilidade prática para o conceito de que as ondas eletromagnéticas podiam se propagar pelo ar.

Isso tem tudo a ver com a empresa que os irmãos Ducati (Bruno, Adriano e Marcello) fundaram em 1926: a Società Radio Brevetti Ducati, que no começou surgiu para produzir os capacitores "Manens", criado e patenteado por Adriano. Dos capacitores, a produção rapidamente expandiu-se para outras peças de rádio e de engenharia, fazendo com que a Ducati encerrasse a década de 1930 como a maior indústria manufatureira de Bolonha. Em função disso, em 1935, deu-se início à construção de outra planta, maior e mais moderna, no mesmo local onde ainda hoje estão a fábrica, o departamento administrativo e... o museu.

Veio então a segunda Guerra. Comandada por outro filho da Emilia-Romagna -- Benito Mussolini nasceu em Predappio --, a Itália ficou ao lado da Alemanha nazista. Como consequência, sofreu ataques dos Aliados. Em 1944, as fábricas foram bombardeadas, justamente por produzirem componentes importantes para a fabricação de rádios e outros artefatos usados pelo exército italiano. Em 12 de outubro de 1944, a planta de Borgo Panigale foi destruída por bombas.

Por sorte, os irmãos Ducati aproveitaram a época da guerra para planejar novos produtos. O primeiro deles foi uma microcâmera fotográfica. O segundo, um motor para ser acoplado a uma bicicleta. Era o famoso Cucciolo, propulsor de 48 cm³ e quatro tempos que ajudou a escrever o nome Ducati na história do motociclismo.

Na Web

  • Reprodução

    Museu pode ser visitado virtualmente

    Pode-se conhecer o museu pessoalmente, mas é preciso agendar a visita pelo site internacional da empresa. Está sem grana e/ou quer matar a curiosidade? Desde fevereiro o local está no Google Maps e é possível conhecê-lo sem sair da frente do computador. Digite "Via Antonio Cavalieri Ducati, 3, Borgo Panigale, Itália" no Google, clicar em "Mapa" e utilizar o "Street View".

RENASCIMENTO
Reconstruída no mesmo local, a fábrica da Ducati atualmente recebe visitantes com um enorme outdoor onde se lê "Bologna, dove corre la passione", ou seja, "Bolonha, onde brota a paixão". A mensagem quer deixar claro que ali são feitas as motos da Ducati, alvo da paixão de milhões de motociclistas em todo o mundo.

No início do tour pela sede da empresa vem a primeira decepção: não é permitido fotografar dentro da fábrica, apenas no museu. A segunda decepção se dá porque a fábrica não é exatamente uma indústria, mas apenas uma linha de montagem, já que ali não são feitos processos como usinagem e fundição, por exemplo.

O museu, embora pequeno (850 m²), guarda relíquias da história da marca, como a prancheta de Fabio Taglioli, inventor do comando de válvulas desmodrômico, patente dos motores Ducati. "Este não é apenas um lugar com um monte de moto antiga", diz Lodi. "Aqui também há objetos que contam nossa trajetória", completa. Propagandas de época, macacões de pilotos e até mesmo rádios e máquinas de escrever fabricadas pela Ducati são exibidos no local. 

Organizado cronologicamente, o museu faz um paralelo entre a trajetória da Ducati e a história contemporânea: há todos os modelos de competição da marca desde a 750 cc de Paul Smart, vencedora da corrida Imola 200, nos anos 1970, até a Desmosedici GP7, de Casey Stoner, com motor de 800 cc, que sagrou-se campeã da MotoGP.

FEITO A MÃO
Já na parte da produção das motos, são quatro linhas de montagem: uma para Monster e Hypermotard; outra para Streetfighter e Diavel; uma terceira para a família Multistrada e outra que se dedica à montagem das superesportivas Panigale (899 e 1199, entre outras versões).

Com cuidado de relojoeiro, os funcionários mais experientes montam o motor Superquadro, que equipa a linha Panigale. O detalhe curioso: há um experiente senhor, responsável por dar a primeira partida no moderno propulsor L2, que funciona por exatos três minutos, antes de seguir para a linha de produção.

Este processo, quase artesanal, só é possível em função da exclusividade das Ducati. Apesar de sua fama mundial, a fábrica bateu o recorde de entrega de motos em 2013: foram 44.287, exatas 185 unidades a mais do que 2012 -- a maioria montada em Bolonha (há uma planta na Tailândia e outra na sede da Dafra em Manaus.
  
Relativamente pequena, a fábrica italiana tem se modernizado nos últimos anos. "Quando cheguei levávamos 70 minutos para montar um motor. Hoje, em 90 minutos, há uma moto pronta", revela Lodi. Ainda não se pode creditar isso à aquisição da Ducati pela Audi (que aconteceu em 2012), mas a empresa passa por um processo de transição. "Não sabemos ao certo o que a paixão italiana e a eficiência alemã serão capazes de fazer, mas esperamos que muito", revela.

FUTURO
No estacionamento da diretoria há um sinal dos tempos. Só há carros da Audi e uma antiga Monster de algum operário corajoso -- e fanático por motos. Roberto Righi, diretor comercial da empresa, ainda eufórico pelos bons resultados da equipe Ducati nos testes da pré-temporada do MotoGP, falou sobre essa nova fase da empresa. "Ainda estamos entendendo ao certo como as coisas funcionam", diz o executivo.

Apesar de afirmar que não há uma interferência direta da Audi nos negócios da firma, o presidente do conselho já é o alemão Rupert Stadler, antigo executivo da marca alemã. O cargo de CEO é ocupado por Claudio Domenicali, engenheiro que fez carreira na Ducati.

Righi também admite que a nova proprietária trará novidades para o comando da empresa, mas faz questão de ressaltar que essa sinergia deverá fazer bem à fabricante italiana. "Inovação contínua em tecnologia são características das duas marcas e isso deverá se fortalecer", afirma. Ele ainda garante, desmentindo boatos, que não haverá motos Ducati em revendedores da Audi.

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