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Vai comprar um blindado usado? Veja dicas e cuidados para a hora do negócio

Lalo de Almeida/Folhapress
Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

04/09/2018 04h00

"Caçador de Carros", consultor Felipe Carvalho dá nove conselhos para quem procura carros usados que foram blindados

Diariamente somos bombardeados com notícias sobre violência em nosso país. Quem tem a sorte de nunca ter passado por uma situação traumática como um assalto, no mínimo, conhece alguém que já tenha sofrido com isso.

A solução que alguns encontram é ficar reclusos em suas casas e sair o mínimo possível, algo um tanto deprimente. Nas vezes em que é preciso sair para "enfrentar o mundo", somente um carro blindado atende a necessidade dessas pessoas, que passam a se sentir mais seguras dentro deles.

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Em grandes cidades, com índices maiores de violência, o número de carros blindados cresce de forma impressionante. Aliás, nossa frota de blindados é a maior do mundo, um dado vergonhoso que retrata a falta de segurança em que vivemos.

Mas olha só: se antes esse tipo de segurança era comum a pessoas bem-sucedidas com carrões de luxo, hoje é algo tradicional blindar carros pequenos e mais baratos, uma prova da popularização da blindagem.

Graças a processos cada vez mais modernos, os materiais balísticos de hoje são mais leves e pouco interferem no peso do carro. Algumas blindadoras estão anunciando peso extra abaixo de 200 kg para blindagens do nível 3A, a mais procurada. Esse é o peso próximo de dois adultos e mostra que, na prática, mesmo os carros menores com motores modestos não sentirão tanta diferença no desempenho e consumo.

Itamar Aguiar/Agencia Freelancer
O nível de blindagem mais vendido e procurado é o 3A, que suporta tiros de um revólver calibre .44 Imagem: Itamar Aguiar/Agencia Freelancer

Blindou? "Desblindar" é difícil

Ainda assim, vale ressaltar que o processo de blindar um carro é uma alteração profunda e praticamente irreversível -- e por mais que esteja cada vez mais acessível, ainda é algo caro. A solução para quem não quer dispor de tanto dinheiro para isso é partir para a compra de um blindado usado, que, vale dizer, desvaloriza de forma expressiva nos primeiros anos.

Ou seja, os primeiros donos são os que mais perdem e o comprador de um blindado usado consegue fazer excelentes negócios, pagando bem mais barato por carros que muitas vezes estão na garantia do fabricante e blindadora.

Porém, como costumo dizer, carro blindado tem vida útil menor que um similar original. Os inevitáveis problemas da blindagem são evidentes, a ponto de um blindado antigo valer até menos do que deveria. Dessa forma, considero interessante blindados com poucos anos de uso, mas descarto aqueles mais antigos, geralmente com mais de 10 anos.

Sendo você um potencial comprador de carro blindado usado, siga essas dicas para fazer um bom negócio.

1. Escolha do modelo

Os materiais mais leves dos novos blindados não são necessariamente os mesmos usados há alguns anos. Procure saber quais os materiais que foram utilizados pela blindadora e dê preferência para o maior uso de manta em vez de placas de aço.

A diferença de peso desses materiais é considerável. Ainda que o peso extra total seja pequeno, opte por modelos que tenham motores mais potentes para que você não se decepcione com falta de desempenho. Recomendo que a relação peso/potência não seja superior a 12 kg/cv, valor bem conservador. Para finalizar, fuja de modelos com fama de fragilidade na suspensão. Se com o peso original eles não suportam nosso piso ruim, imagine com o peso extra.

2. Empresa que blindou

É importante saber a procedência da blindagem. Opte por empresas sólidas e reconhecidas no mercado. Fuja daquelas com pouco tempo de mercado ou com alto índice de reclamações. No momento que você for revender o carro, esse será o principal critério de desempate de um interessado.

3. Nível da blindagem

O nível de blindagem mais vendido e procurado é o 3A, que suporta tiros de um revólver calibre .44. Acima disso, somente com autorização especial do exército. Não recomendo níveis menores, pois são pouco aceitos no mercado de usados.

4. Documentação

Desde o ano passado, o dono de um blindado é obrigado a ter um certificado do exército que autoriza a compra de um blindado. Recomendo que faça isso antes de começar a busca pelo carro, pois esse processo é burocrático e pode atrasar a compra. Quanto ao documento do carro, é indispensável que apareça nas observações que o carro passou por essa mudança.

5. Parte transparente

Os vidros de um carro blindado são compostos por vários materiais diferentes que se unem num processo de autoclavagem. É inevitável que esses materiais se descolem ao longo dos anos, formando bolhas conhecidas como "delaminações". Desde o ano passado, não é mais possível reformar vidros "delaminados" e somente a troca é permitida. Sabendo que o custo dessa troca é alto, descarte a compra de um blindado com essa falha, a não ser que consiga negociar o valor do carro para valer a pena substituir os vidros. Não esqueça de testar bem o funcionamento dos motores dos vidros, que sofrem com o peso extra e apresentam problemas de forma prematura.

Jales Valquer /Fotoarena/Folhapress
Antes comum a pessoas bem-sucedidas com carrões de luxo, hoje é algo tradicional blindar carros pequenos Imagem: Jales Valquer /Fotoarena/Folhapress

6. Parte opaca

Pouco pode ser visto da parte opaca, a não ser em partes de acabamento que podem ser desmontadas de forma simples. Ainda assim, não mostrará nada de importante visualmente. Procure por serviços de funilaria ou pintura que possam ter sido feitos e descarte quando descobrir consertos mais profundos.

7. Acabamento

Para receber a blindagem, o interior do carro é todo desmontado e algumas peças sofrem adaptações. Quanto melhor a blindadora, mais cuidado e capricho ela vai ter com isso. Observe bem todos os pontos de acabamento do carro, procurando por peças quebradas ou mal encaixadas. Levando em conta que peças originais de acabamento costumam ser caras, é melhor descobrir as falhas antes da negociação para não se arrepender no futuro.

8. Test drive

Além das observações comuns de um test drive, se atente a possíveis barulhos vindo de peças mal encaixadas. A suspensão e os freios requerem atenção redobrada por sofrerem mais com o peso extra da blindagem.

9. Idade do carro

Recomendo descartar carros blindados com mais de 10 anos. Diante dos problemas que citei sobre as "delaminações", o maior peso dessas blindagens mais antigas e a falta de informação sobre a validade da blindagem transformam o carro em um verdadeiro mico para se ter na garagem. Você pode ter a falsa sensação de segurança e se dar mal quando realmente precisar dela. Acredito que seja mais interessante procurar por veículos que tenham até 5 anos de uso e não ficar muito tempo com ele para não perder tanto na revenda. Por ser um carro com vida curta, é melhor passar logo para frente para não correr o risco de ficar o resto da vida com ele.