UOL Carros
 
25/05/2009 - 17h33

Tiida ganha motor flex para entrar de verdade na briga dos hatches médios

Eugênio Augusto Brito
Claudio de Souza
Do UOL, em São Paulo (SP)

Sem fazer alarde, a japonesa Nissan colocou no mercado, em abril, a versão com motor bicombustível de seu hatch médio Tiida. A "novidade" era esperada há um bom tempo -- fabricado no México, o Tiida foi lançado por aqui no segundo semestre de 2007. Mas a viabilidade só veio com a fabricação no país do monovolume Livina, que agora empresta o propulsor de 1,8 litro 16V flex, de quatro cilindros em linha, capaz de gerar 125 cavalos ao ser abastecido com gasolina e 126 cv quando alimentado com álcool.

  • Murilo Góes/UOL

    Completo e com boa dinâmica, Tiida SL 1.8 flex (R$ 56.800 com câmbio manual de 6 marchas) mostra que o modelo merecia vender bem mais -- atualmente, é o 8º entre os hatches médios

Bebendo álcool e gasolina e com um providencial bônus de fábrica (além do benefício provisório da redução de IPI), o Tiida flex chega com preços que começam em R$ 51.890 (versão S, com câmbio manual de seis marchas) e avançam por quatro faixas até chegar aos R$ 60.780 pedidos pela versão SL equipada com câmbio automático de quatro marchas, bancos de couro e teto solar automático de série. A versão analisada nesta reportagem, e que pode ser vista nas fotos, é a SL com câmbio mecânico de seis velocidades (R$ 56.880).
 

NISSAN TIIDA 1.8 FLEX
Murilo Góes/UOL
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É com este bloco flex e com os preços listados na tabela desta página que o Tiida espera renascer para o mercado nacional e brigar pelas primeiras posições, se o consumidor não considerar tarde demais. Isso porque o hatch nipo-mexicano, como produto comercial, sofreu do problema de inadequação ao mercado -- o mesmo que ainda afeta, por exemplo, o Ford Focus. Passar tempo demais sem oferecer ao comprador o motor flex, num país que venera esta tecnologia e seu status ecológica e economicamente correto, é pedir para ficar atrás em vendas. Ainda que o preço do combustível vegetal varie muito entre as cinco regiões do país, e que em algumas delas seja alto o suficiente para incentivar o uso apenas da gasolina, o potencial comprador quer ter a opção de escolher o que vai colocar no tanque.
 

PREÇOS E VERSÕES

Tiida S MT - R$ 51.890
AT - R$ 55.790
Tiida SL MT - R$ 56.880
AT - R$ 60.780
(couro/teto
solar de série)
pintura metálica R$ 950
couro
(versão S)
R$ 1.250

O resultado é que o Tiida não emplacou em quase dois anos, e ainda é um carro raro nas ruas brasileiras. Pelos cálculos da Fenabrave, o modelo sempre ocupou entre a 7ª e a 9ª posições no ranking dos hatches médios mais vendidos (veja aqui o relatório mais recente). Em 2008, foram 3.280 unidades comercializadas. De janeiro a abril de 2009, outros 1.884 emplacamentos, o que lhe dá a 8ª colocação no ranking deste ano. A análise dos modelos que compõem a lista complica ainda mais a situação: o Tiida perde, em vendas, para todos os rivais diretos de preço ou motorização; fica à frente apenas de modelos importados (de fora do Mercosul/México, que oferecem tarifa zero), todos mais caros (como BMW Série 1 e Audi A3) ou de nicho (como o retrô Chrysler PT Cruiser e Volkswagen Beetle, Citroën C4 VTR e Volvo C30).

Na ponta do ranking de hatches médios da Fenabrave, vendendo bem e ocupando posições que o Tiida inveja, estão modelos predominantemente flex: o líder (embora discutível, por ser considerado por muitos um compacto premium) é o Fiat Punto, com 7.775 unidades vendidas no ano. Na sequência, aparecem Chevrolet Astra (6.719), VW Golf (6.072), Ford Focus (único da lista movido exclusivamente a gasolina, vendeu 4.671 unidades), Peugeot 307 (4.053), Fiat Stilo (3.620) e Chevrolet Vectra GT/GT-X (2.991).
 

MOTOR DO LIVINA VAI BEM NO TIIDA FLEX

  • Murilo Góes/UOL

    Acima, o 4-cilindros 1,8 litro 16V bicombustível do monovolume Livina, que passou a empurrar também o Tiida a partir de sua linha 2009, lançada em abril, e deve chegar em breve ao sedã Sentra.

    A princípio, os números do propulsor não parecem arrasadores: a potência máxima é de 125/126 cv (gasolina/álcool) a 5.200 rpm, com torque de 17,5 kgfm a 4.800 giros. Mas com a atuação do acelerador eletrônico, do bom gerenciamento do câmbio manual de seis marchas da versão testada (há ainda a opção de câmbio automático de quatro velocidades) e do sistema CVVTCS (Continuosly Variable Valve Timing Control System) -- que controla abertura e fechamento das válvulas de acordo com o ritmo do motor, melhora a queima de combustível e aumenta o rendimento --, o conjunto fala alto e dá boa resposta em acelerações e disposição para retomadas.

    Com este comportamento, o Tiida flex passa segurança na condução do dia-a-dia, com reações ligeiras e precisas, e ainda demonstra ter fôlego e ritmo mais do que suficientes para encarar uma viagem rodoviária sem sustos ou monotonia.

    Segundo a Nissan, o hatch pode chegar à máxima de 195 km/h, com a aceleração de zero a 100 km/h cumprida em 9,6 s com álcool (9,7 s com gasolina).

    O preço da boa pegada, entretanto, é pago no consumo médio do modelo. Bebendo álcool, a média alcançada durante o teste feito por UOL Carros (2/3 na cidade, 1/3 na estrada) foi de 6,2 km/l. Embora não seja animador, este consumo fica dentro da realidade obtida por veículos com características semelhantes. Ainda assim, está aquém dos números citados pela fábrica: 7 km/l na cidade e 9,6 km/l na estrada, com o etanol, subindo para 11,7/16 km/l com gasolina.

BOM CONJUNTO
Com o reforço do motor 1.8 flex, o Tiida passa a representar uma boa opção para o comprador interessado em desembolsar de R$ 50 mil a R$ 60 mil para ter um carro médio na garagem. O Tiida se mostra bastante completo, mesmo em sua versão inicial, a S, que tem apenas o revestimento de couro para os bancos como opcional. As conveniências "básicas" estão todas presentes: há direção com assistência elétrica, ar-condicionado, computador de bordo (completo, mas de uso complicado, por ficar no pequeno mostrador digital ao pé do painel de instrumentos, com acesso feito pelo mesmo controle que zera o hodômetro parcial), trava elétrica indexada à velocidade, banco do motorista com regulagem de altura, banco traseiro com rebatimento 60/40 e controle de inclinação e coluna de direção com regulagem de altura. Entre os itens de segurança, airbag frontal duplo e cintos de segurança dianteiros com pré-tensionador, entre outros.

Já a versão avaliada, a SL mecânica (que só não é a topo da gama por trazer o câmbio manual de seis marchas, e não o automático de quatro), complementa a lista de itens com ar-condicionado digital, freios com ABS (antiblocante), EBD (controle eletrônico) e BAS (assistente de emergência), piloto automático com controle no volante de três raios, deslizamento do banco traseiro (que pode ser movido para frente em até 24 cm), apliques em cromado para painel, volante e câmbio, revestimento de couro e teto solar automático.

O recheio é mais do que suficiente para colocar o Tiida em vantagem frente a figuras carimbadas como Golf (R$ 63 mil pela versão GT 2.0, segundo a Fipe), Vectra (R$ 53 mil para o GT-X Remix 2.0). A briga é franca também com modelos de mais apelo visual e alto nível de opcionais, como o Peugeot 307 (de R$ 52 mil para o 1.6 aos R$ 62 mil do 2.0) ou a dupla Punto Sporting (R$ 56 mil) e Stilo Sporting (R$ 60 mil) com motor 1.8, cores vibrantes e possibilidade de contar com teto Skydome.

IMPRESSÕES AO DIRIGIR
Acelerando com o modelo, a versatilidade e a esperteza do motor 1.8 emprestado do Livina sobressaem (veja quadro nesta página) e garantem que a melhor característica do Tiida seja sua ótima tocada. Aliado à precisão da direção elétrica, firme na medida correta, e à boa calibragem da suspensão (McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, auxiliadas pelo sistema chamado pela Nissan de "ripple-control"), o conjunto permite que o motorista se mantenha o tempo todo no controle da situação -- é como se o Tiida fosse um carro mais curto e justo do que se supõe a partir de suas medidas: 4,29 m de comprimento por 1,69 m de largura e bons 2,60 m de entre-eixos. Como resultado, boas saídas e retomadas, força para arriscar ultrapassagens ou encarar aclives mais íngremes são características notáveis.

  • Murilo Góes/UOL

    Visual do Tiida mescla soluções únicas, como o anguloso capô, a elementos comuns a outros modelos -- caimento do teto é similar ao do Golf; lanternas lembram as do Peugeot 307

O arrojo descrito no parágrafo anterior poderia sugerir uma experiência rude, com motor rugindo alto e todo tipo de ruído e vibração invadindo a cabine. Mas o que se percebe a bordo do Tiida é algo totalmente oposto, e bastante suave: parado no semáforo, o silêncio é tamanho que pode levar o motorista a pensar que deixou o carro morrer. Em aceleração, tudo o que se percebe no habitáculo é um leve silvo, fruto do deslocamento de ar provocado pelo carro e do atrito com o asfalto dos pneus que calçam as rodas de aro 15.

O conforto é complementado pelo desenho ergonômico dos bancos, que abraçam o corpo dos ocupantes e, para o motorista, pela boa disposição dos controles -- exceção feita ao computador de bordo, que poderia ter acionamento mais simples e através de um botão dedicado. Isso se estende ao banco traseiro, que permite regulagem do encosto, além do rebatimento total, e corre para frente por até 24 cm; as modificações proporcionam conforto para quem viaja atrás ou maior espaço para carga, caso os 289 litros do porta-malas (463 litros com rebatimento) não sejam suficientes.

Com tais características, percebe-se que -- tirando o fator estético, que é subjetivo, ainda mais no caso do Tiida, que parece um bichinho oriental (veja comentários sobre isso no álbum) -- o grande senão para esse carro estava mesmo na ausência do motor flex. Resta aguardar a resposta de mercado para saber se a correção de rota foi feita a tempo.

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