UOL Carros
 
25/04/2009 - 08h08

Projetos para 'emergentes' ainda refletem tecnologia atrasada e soluções antigas

Da Auto Press
Em plena era da globalização, países emergentes ainda ficam com as sobras. Com os automóveis, estes abismos entre desenvolvidos e as chamadas nações emergentes parecem ser mais profundos. Tais mercados, atraentes em termos de projeção de crescimento e consumo reprimido, são atendidos com modelos de menor custo e tecnologia. Só que essa "segunda divisão" da indústria não se traduz necessariamente em veículos mais baratos. "A ideia é atender a expectativa do consumidor e não ultrapassá-la, pois não adianta fazer um carrão para quem não pode comprá-lo", defende Juliano Machado, gerente de produto da Peugeot.

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias


Só nos últimos anos foram lançados no Brasil vários produtos criados para esses tais emergentes, que incluem países da América Latina, África, Leste Europeu e Sudeste Asiático. É o caso do Renault Logan, projetado em conjunto com a romena Dacia, subsidiária do grupo francês.

"O Logan é um produto genérico para países sem poder de compra elevado que se adaptou ao Brasil, mas em uma faixa de preço mais elevada que a europeia. Lá, está entre os 5% mais baratos", explica Cássio Pagliarini, diretor de Marketing da Renault.

TECNOLOGIA DE PERIFERIA

  • Clube do Peugeot

    Peugeot 207 europeu

  • Divulgação

    Peugeot 207 brasileiro

  • Divulgação

    Peugeot 206+, o 207 brasileiro levado à Europa

Os preços mais elevados aqui se explicam em grande parte pela pesada carga tributária e pelas margens de lucro praticadas. Detalhes do Logan, contudo, entregam a economia do projeto: laterais sem vincos, vidros planos e retrovisores intercambiáveis. O sedã também cedeu a base para o Sandero, mas não parou por aí. A mesma plataforma ainda serviu para a minivan Nissan Livina. "Nos emergentes, a praticidade está em primeiro lugar, com uma relação forte entre durabilidade e manutenção", enfatiza Arison Souza, diretor de marketing da Nissan.

O compartilhamento de plataformas, trem de força e peças é considerada vital nos mercados emergentes. Como foi com o Chevrolet Celta lançado em 2000 sobre a base do primeiro Corsa nacional, de 94, e que ainda é vendido na versão sedã Classic. Um exemplo mais recente é o Renault Symbol argentino, lançado antes na Europa Oriental como Thalia. O sedã herdou chassi da segunda geração do Clio, de 1999. "O custo do desenvolvimento é mais apertado em um país emergente, o que implica no maior uso de peças comuns", justifica Pedro Manuchakian, vice-presidente de engenharia da General Motors.

Com isso, os carros de emergentes também estão fadados a terem menos tecnologia. Soluções sofisticadas, como suspensão traseira independente, motores eficientes, soldas laser e até itens de segurança são raras nesses projetos. "O que se faz é atender esses mercados da forma mais barata e eficiente possível, sem tecnologias mais caras", admite Fabio Ferreira, diretor do Comitê de Veículos de Passeio da SAE (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade). Os componentes mecânicos também são adaptados às exigências locais, como motores flex e suspensões reforçadas. "As suspensões europeias são mais rígidas, pois não têm necessidade de absorver tantos buracos", aponta Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat. "Os modelos são adaptados a um nível de consumidores locais e de legislação mais branda. Muitos desses países não têm regulamentação", completa José Edison Parros, presidente da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva).

ACELERADAS
A importância dos emergentes é cada vez mais notável, principalmente em tempos de crise, onde as quedas registradas nesses países foram menores. Segundo projeções, ao final de 2009 a China se tornará o maior mercado automotivo do mundo, desbancando os Estados Unidos.
A Peugeot optou por reestilizar o 206 e rebatizá-lo como 207 em vez de lançar o modelo europeu no Brasil. Segundo a marca, o 207 europeu ficaria muito caro para o segmento. O 206 foi lançado por aqui como importado em 1999 e fabricado em Porto Real, Rio de Janeiro, desde 2001. A adaptação foi levada a França, onde foi denominada 206+.
Além dos modelos simplificados, o mercado nacional também conta com veículos que são fabricados há muitos anos, como o Fiat Uno, lançado em 1984, e a cinquentona Volkswagen Kombi, produzida desde 1957 no Brasil.
O sedã Linea foi projetado em conjunto com a Tofas, subsidiária turca da Fiat, para países emergentes. O modelo, fabricado sobre a base do Grande Punto na Europa, foi adaptado à plataforma do Punto nacional, mais simples que a do europeu.
E o Brasil faz escola nos "automóveis da periferia". O Fiat Palio, lançado em 1996, mirou mercados como Turquia, África do Sul e Índia -- Weekend e Strada chegaram a ser exportadas para a Europa. O Volkswagen Fox, de 2003, por sua vez, foi criado a partir da plataforma do Polo, só que simplificada. É exportado como carro de entrada na Europa, só que muito mais equipado que aqui. A GM do Brasil desenvolveu o atual Vectra a partir da velha plataforma do Zafira em conjunto com a Opel para servir também países do Leste Europeu. Isso sem falar em modelos como Gol e Ford Ka -- que usa chassi do antigo Fiesta -- e que são exportados para a América Latina.

O mercado ainda receberá outros lançamentos, como o City, sedã compacto da Honda para os países em desenvolvimento, e a linha Viva da GM no segundo semestre de 2009. Os modelos usarão plataforma do velho Astra nacional e abastecerão os mercados do continente. "O Viva tem um pouco mais de tecnologia pois é um novo projeto para países emergentes, sem deixar de fora equipamentos de segurança", assegura Manuchakian, da GM.

MANIAS LOCAIS
Como são comercializados em países distintos, os modelos emergentes mais globalizados têm de passar por adaptações aos gostos locais. Determinados itens ou detalhes de acabamento podem ser apreciados em mercados como a Malásia, mas nem por isso farão sucesso na Polônia. "Na China, o interior do Livina é bege com apliques de madeira, enquanto por aqui esse tipo de acabamento é rejeitado", exemplifica Arison Souza, da Nissan.

Muitas vezes as predileções locais determinam até mesmo onde serão produzidos determinados modelos. Como ocorreu com a Fiat e a Renault, que decidiram produzir inicialmente o Siena e o Symbol na Argentina, um mercado que tem maior participação de sedãs pequenos. O Brasil tem alguns gostos distintos também. Além de modelos específicos para o mercado nacional, como as versões "aventureiras" de compactos como Palio Adventure, Sandero Stepway, CrossFox e, até mesmo, o EcoSport.

Ou de compactos dotados de motor 1.0, uma preferência determinada pela legislação que enquadra tal cilindrada em uma menor alíquota tarifária. "No Brasil, também há um maior nível de exigências de equipamentos como ar-condicionado e de itens adicionais de segurança, o que não é tema de relevância em outros países emergentes", observa Fabio Ferreira, da SAE. (por Julio Cabral)

Veja também

Carregando...
Fale com UOL Carros

SALOES