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28/03/2009 - 19h51

Consumidor de menor poder aquisitivo engrossa inadimplência e consórcio ganha espaço

Da Auto Press
Cada país tem a inadimplência que merece. Enquanto nos Estados Unidos o calote nas hipotecas imobiliárias tratava de dívidas de centenas de milhares de dólares, no Brasil quem está com problema de manter o financiamentos são os consumidores de menor poder aquisitivo, que têm dívida de pequena monta. De dezembro de 2008 para cá, o índice de inadimplentes acima de 90 dias subiu de 4,3% para 4,7% sobre o total de carteiras de financiamento por CDC (Crédito Direto ao Consumidor). Segundo dados do Banco Central, este é o maior percentual registrado desde 2002. Só que o valor não assusta -- são R$ 3,77 milhões, sobre um total de R$ 80 bilhões movimentados no mercado, menos de 0,005%.

"Quando se financiou com pouca ou nenhuma entrada, sabíamos que isso geraria inadimplência. Provoca euforia. O consumidor compra mais do que está capacitado. Esse tipo de compra pode ter acontecido muito em 2007", explica Luiz Montenegro, presidente da ANEF (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras).

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias


Só que os tempos são outros. No biênio 2007/2008, havia grande facilidade para se financiar carros e motocicletas, com juros baixos e planos de até 84 meses. Atualmente, os planos máximos de financiamento vão a 60 meses -- a média é de 40 meses. Como o valor das parcelas ficou maior, quem tem menor poder aquisitivo perde o acesso. "Hoje, entre 35% e 40% do spread no mercado de veículos é usado para pagar o risco de inadimplência. Se o volume crescer, 'come' parte dos lucros. Por isso os bancos atuam em nichos com menor índice de devedores e evitam, por exemplo, o setor de usados", aponta Adalberto Savioli, presidente da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimentos).

De fato, na comparação com o primeiro bimestre de 2008, o mercado de usados encolheu significativamente. Foram 927.660 unidades negociadas contra 1,15 milhão em janeiro e fevereiro do ano passado -- queda de 19,6%. Pior: nos últimos meses o valor dos usados caiu em mais de 10%. "Isso tem uma influência grande não só na percepção de preço, mas na propensão do atual devedor em continuar pagando. Se o valor da dívida é maior que o do carro, pode surgir a inadimplência", pontua Clécio Dias, consultor senior da A. T. Kearney.

ACELERADAS
- O índice de inadimplência acima dos 90 dias em janeiro de 2008 era de 3,1% sobre o total de financiamentos de veículos zero-quilômetro por CDC - Crédito Direto ao Consumidor. Um volume significativamente menor que a média atual de 4,7%.
- De acordo com a Fenabrave, os 100 mil de carros retomados por inadimplência acima dos 90 dias representam apenas 1% dos 9 milhões de automóveis alienados no Brasil.
- Uma média estipulada pelos bancos brasileiros aponta que, para cada quatro financiamentos, apenas um termina com a retomada do bem -- no caso, o veículo adquirido por meio de CDC. O restante é renegociado.
- Em janeiro, a taxa média mensal de juros praticada pelos bancos nas operações de financiamento de veículos novos foi de 1,75%. Houve uma ligeira elevação em relação a janeiro de 2008, quando a taxa média era de 1,62% ao mês.
- De setembro do ano passado para cá, as vendas de automóveis e motos por meio de consórcio cresceu 12% e 48%, respectivamente. A restrição de crédito nos planos de financiamento, com maiores exigências e menores prazos, foi o principal motivo da migração.
MOTOS NO ALERTA VERMELHO
Mas alarmante mesmo é a situação no mercado de motos. No comparativo entre os meses de fevereiro de 2008 e 2009, o setor registrou uma queda notável de 42,1% nas vendas e de 51,5% na produção de motos zero-quilômetro. "A oferta de crédito ainda existe, porém com critérios elevados de restrição. Um número muito pequeno de propostas de financiamento são aprovadas. E isso tem influência direta nas vendas de motos no país", reforça Moacyr Alberto Paes, diretor da associação que representa os fabricantes do setor.

"O mercado de motos é o mais afetado, pois o valor do bem em 90% das vendas é inferior a R$ 10 mil e o público consumidor, o que tem o menor poder aquisitivo, mais sensível às variações econômicas", completa o consultor Paulo Garbossa, da ADK Automotive.

Já no mercado de automóveis e comerciais leves, a situação ainda não preocupa, pelo menos nas vendas. Os planos de financiamento para carros novos não oferecem mais as "privilegiadas" condições de antes -- até 84 meses para parcelar, juros baixos e zero de entrada. Mas o governo liberou R$ 8 bilhões de crédito para as montadoras no fim de 2008 e isentou temporariamente a cobrança de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). E são ações que reaqueceram as vendas. "À medida que se ampliam os prazos, entram aqueles consumidores com renda mais baixa, que comprometem uma parte maior do orçamento. Mas o nível de inadimplência atual é perfeitamente aceitável para o desenvolvimento da indústria no país", acredita Júlio Gomes de Almeida, professor do Instituto de Economia da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. O risco, porém, está nos negócios já consumados. A inadimplência pode acontecer nas vendas anteriores à crise, alavancadas principalmente pelo aumento do desemprego no país.

CONSÓRCIO EM EVOLUÇÃO
O consórcio iniciou 2009 na contramão do abalo no crédito para financiamento de veículos novos. A modalidade, que não sofria mudanças legais desde 1972, ganhou nova regulamentação do Banco Central. De acordo com a lei nº 11.795, válida desde o início de fevereiro, os planos de consórcio agora passam a ter a devolução mais rápida do dinheiro ao consorciado em casos de desistência. Outra novidade é o uso do consórcio para quitação de financiamentos. Por exemplo, quem compra um carro zero-quilômetro por meio de CDC e percebe que futuramente não poderá arcar com as prestações, pode recorrer a um plano de consórcio e, quando contemplado, quitar a dívida.

Com as mudanças, a expectativa é de que muitos consumidores migrem dos financiamentos por leasing e CDC para os consórcios, principalmente os públicos das classes B e C -- justamente os mais prejudicados pelas restrições e dificuldade de financiamento. Um universo que representa 57% da população brasileira e soma cerca de 97 milhões de pessoas. "A crise não é boa para ninguém. Mas quando há uma dificuldade na realização de financiamentos, o consórcio cresce muito", reforça Luiz Fernando Savian, presidente da regional sudeste da ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios). De acordo com a entidade, 50% das motos comercializadas atualmente no país são adquiridas por meio de consórcio. Entre os carros, o volume é de 17% sobre o total de modelos vendidos. (por Diogo de Oliveira)

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