UOL Carros
 
21/03/2009 - 01h30

SUV a hidrogênio da Volkswagen mostra como andará o futuro

EUGÊNIO AUGUSTO BRITO
Da Redação
O veículo é conhecido e esperado -- trata-se do Tiguan, crossover de linhas arrojadas da Volkswagen, que inspirou o desenho do novo Gol, foi mostrado no último Salão do Automóvel de São Paulo e deve chegar ao país ainda neste semestre. Mas, além do visual do modelo, o que chamou a atenção nesta sexta-feira (20), na pista do kartódromo de Aldeia da Serra (SP), estava sob o capô: este é um dos dois protótipos da marca alemã existentes no mundo movidos por células de combustível hidrogênio combinadas em uma pilha.

Diferente do crossover tradicional, o modelo que a reportagem de UOL Carros pode conhecer, ao lado de outros jornalistas especializados, foi o Tiguan HyMotion (contração da forma inglesa para "movido a hidrogênio"), um conceito de veículo elétrico (e não híbrido, por não possuir motor de combustão acoplado) que está sendo desenvolvido pela fabricante alemã.

Foto: Divulgação

O crossover Tiguan já é conhecido e deve chegar às lojas brasileiras ainda neste semestre, movido a combustível fóssil; já o motor elétrico a hidrogênio HyMotion é só um protótipo e pode levar uma década até tornar-se viável e outros 50 anos antes de se popularizar

A Volkswagen não revelou o custo do projeto, mas ainda o define como "impraticável comercialmente" e calcula que deva levar mais dez anos para que o motor elétrico a hidrogênio vingue. Além do desenvolvimento de componentes elétricos e da própria célula de combustível, há a necessidade de se formar uma rede de distribuição do hidrogênio combustível para abastecer as futuras frotas. Popularização? "Só daqui a uns 50 anos", arrisca um engenheiro alemão envolvido na elaboração do HyMotion.

O CAMINHO DA ELETRICIDADE

  • Eugênio Augusto Brito/UOL

    Foto: Eugênio Augusto Brito/UOL
    Sob o capô do Tiguan HyMotion, geradores e compressores convivem com a pilha de combustível de hidrogênio, que gera energia elétrica para o sistema: são 80kW, cerca de 110 cv

  • Divulgação

    Foto: Divulgação
    Uma bateria de ion de lítio auxiliar, no porta-malas, complementa a força com 20 kW adicionais (cerca de 27 cv) e ainda armazena a energia que retorna dos freios regenerativos

  • Divulgação

    Foto: Divulgação
    Dinâmica do sistema elétrico que coloca o Tiguan em movimento é apresentada em uma tela no centro do painel: carga restante, autonomia,
    fluxo elétrico e energia regenerada

A proposta, porém, é interessante e, o principal nos tempos atuais, ecologicamente correta. O Tiguan HyMotion conta com motor elétrico sob o capô, que obtém sua energia de 420 células a combustível de hidrogênio combinadas em uma pilha. O sistema fornece tensão em corrente alternada de 350 V e gera potência de 80 kW, cerca de 110 cavalos. Sob o porta-malas, uma bateria adicional, de íons de lítio, fornece outros 20 kW (algo entre 26 e 27 cv) e ainda acumula a energia recuperada pelo sistema de freios regenerativos (similares aos que serão utilizados nos carros da Fórmula 1, no campeonato deste ano). No total, o crossover conta com potência total de cerca de 136 cv, com torque de 25,49 kgfm (250 NM) desde o início de sua aceleração.

Para abastecer o sistema, um tanque colocado sob a região dos bancos traseiros comporta hidrogênio a uma pressão de 700 bar, o que corresponde a uma carga de 3,2 kg do gás. Com esta carga, o protótipo tem autonomia de 230 quilômetros, com velocidade máxima de 140 km/h, limitada pelo regime de rotações do motor elétrico, que é controlado por um sistema simples de marchas -- uma à frente e mais a ré. No total, toda a parafernália do sistema adiciona cerca de 250 kg ao peso original de um Tiguan -- ele passa dos 1.622 kg da versão 2,0 l TSi para 1.870 kg na versão-conceito HyMotion.

A emissão de poluentes é zero: no interior das células, o hidrogênio é combinado com oxigênio, gerando água e também energia, que é convertida quimicamente em eletricidade. O rendimento do sistema fica entre 50% e 70% e a sobra, na forma de água, é liberada pelo escapamento, seja como vapor ou em gotículas. E, no futuro, mesmo esta água residual poderá ser armazenada e reaproveitada.

O principal objetivo do desenvolvimento atual é diminuir tamanho e peso dos componentes, melhorar o rendimento e a autonomia proporcionada e, claro, reduzir seu custo.

DIRIGINDO O FUTURO
A parte mais esperada, e mais divertida, da apresentação foi o momento dirigir o Tiguan elétrico a hidrogênio. O estilo do crossover impressiona e sua versão a combustível fóssil deve agradar ao brasileiro. Grade dianteira, faróis e vincos do capô dão a impressão de movimento e seguem o atual padrão da família Volkswagen. O mesmo ocorre com as lanternas, com formas que lembram desde o modelo utilizado na perua SpaceFox, quanto os apresentados nos mais requintados Jetta e Passat. O arco que vai da base do para-brisa ao aerofólio no final da capota lembram o Golf. Mas o modelo tem musculatura própria, conferida pela linha de caráter que se torna mais aparente do meio para o final da carroceria, pelos sobressaltos nas caixas de roda pelo vinco na região das portas.

FICHA TÉCNICA
Tiguan HyMotion
Potência: 100kW (136cv).
Autonomia: 230 km.
Aceleração (0-100 km/h): 14 s.
Velocidade máxima: 140km/h.
Consumo: 1,4 kg H2/100 km.
Transmissão: Câmbio de 1 marcha, mais ré.
Tanque: 700 bar de pressão, equivalente a 3,2 kg de hidrogênio do tipo H5 (99% puro).
Peso: 1.870kg.
Ao se aproximar do Tiguan HyMotion nota-se que o modelo não é silencioso -- uma constante de ruídos constantes se fazem notar, dando a impressão de se estar ao lado de um avião a jato em escala reduzida. Eles são produzidos pela série de geradores, compressões e bombas que controlam não apenas o motor elétrico, mas também o sistema de freios, o ar-condicionado, a caixa de direção, entre outros.

Internamente, o conforto dos bancos envolventes do Tiguan é dividido com três zumbidos em amplitude menor que os externos, mas sempre presentes -- um deles é gerado ao se acelerar, pelo movimento do motor elétrico, enquanto o outro (quase um assovio) entra em ação nas frenagens, quando a bomba elétrica que rege o sistema de freios é acionada. Há ainda o som de rolamento do veículo, que normalmente seria bloqueado pelo barulho de um motor a combustão tradicional, misto do ar se deslocando pela carroceria e do atrito dos pneus com o solo (vale lembrar que o protótipo também conta com pneus "verdes", feitos com materiais alternativos, menos agressivos em sua composição e que geram menor resistência). Impossível deixar de lembrar do ruído feito pelos carros da série de desenho animado dos Jetsons.

Uma tela digital no centro do painel rouba a atenção -- além das funções tradicionais (rádio, telefonia, localização etc), através dela pode-se acompanhar toda a dinâmica do sistema elétrico HyMotion, com indicações que mostram a carga de hidrogênio disponível, a energia da bateria auxiliar, o torque aplicado sobre o eixo de tração e a direção do fluxo de energia, que pode estar indo da bateria e do motor para a tração dianteira ou retornando desta para a bateria auxiliar, com a ação dos freios regenerativos.

No painel de instrumentos tradicional, atrás do volante, temos o velocímetro e a tela do computador de bordo usuais, que ganham a companhia de um indicador de tensão/potência (medido em kW), no lugar do conta-giros, e dos indicadores de carga da bateria auxiliar, no lugar da temperatura do motor, e de carga restante de hidrogênio.

Foto: Divulgação

Deslizando na pista, o Tiguan Hymotion zumbe como um avião a jato nas acelerações; nas frenagens, assovia como se fosse o carro da família dos Jetsons

Ao se colocar o câmbio automático em drive e pisar no acelerador, o torque total se faz presente imediatamente e o Tiguan sai sem engasgos, mas como se uma mão gigante o tivesse empurrado com boa quantidade de força. Nas curvas, mesmo com maior velocidade, o modelo passa segurança, por ser mais baixo (tanto sua altura total, quanto o centro de gravidade) que a maioria dos SUVs. O momento de frear, porém, é tenso: os pedais são duros e tem-se a impressão de que a carroceria não vai estancar. Isso graças ao sistema de bomba que substitui o tradicional servo-freio e requer uma instalação mecânica diferente dos pedais, saindo do assoalho, e maior força das pernas do condutor para seu acionamento.

Ao fim da experiência, fica a sensação agradável de se presenciar o futuro -- algo que sonhamos, ajudamos a construir, sonhamos para as futuras gerações, mas que não sabemos ao certo aonde vai chegar.

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