UOL Carros
 
08/03/2009 - 06h00

Mulheres influenciam desenvolvimento da indústria automotiva

Da Auto Press

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias

Carro também é assunto de mulher. Atualmente, estima-se que 45% dos veículos zero-quilômetro comercializados no Brasil sejam adquiridos diretamente por elas. E, segundo pesquisas das marcas, as mulheres ainda influenciam decisivamente em mais da metade dos 55% restantes das vendas. Quer dizer: o "olhar feminino" é indispensável na criação e produção dos veículos. E vale lembrar disso neste 8 de março, Dia INternacional da Mulher.

ALGUMAS RAINHAS DO CARRO
Fotos: divulgação
Maristela Castanho, diretora de planejamento de produto da Renault
Ana Theresa Borsari, diretora de marketing da Peugeot
Flávia Cattaneo, piloto de testes da General Motors do Brasil
Maria de Lourdes Feitosa di Franco, da equipe de teste de odores da VW
Maria Célia Zikan, engenheira-chefe do grupo PSA Peugeot Citroën
Adília Afonso, coordenadora de cores e acabamentos de veículos da Ford
Só isso já justifica o número cada vez maior de profissionais do sexo feminino nas montadoras, em cargos que vão da engenharia à pilotagem em pistas de testes. "Na indústria, a mulher ainda é minoria, apesar da participação de quase meio a meio nas vendas. Mas essa presença está crescendo em função do próprio mercado, já que cada vez mais mulheres se motorizam", observa Maristela Castanho, diretora de planejamento de produto da Renault.

A executiva participou do projeto de criação dos compactos Logan e Sandero, onde comandou pesquisas para entender os desejos dos clientes. Para Maristela, as mulheres são mais críticas que os homens e, exatamente por isso, fundamentais na discussão de projeto de um novo veículo. A advogada Ana Theresa Borsari, diretora de marketing da Peugeot, compartilha da opinião. "Nas discussões estratégicas, a visão da mulher é mais focada no cliente, tem um caráter mais pessoal e subjetivo que a dos homens", pondera Ana Theresa, que entrou na Peugeot para montar o departamento de atendimento ao cliente, após ter trabalhado por cinco anos no Procon (órgão de defesa do consumidor).

A prova de que o "olhar feminino" é útil à indústria fica evidente no tipo de percepção que as mulheres têm sobre os carros. Flávia Cattaneo é piloto de testes e experimenta dezenas de carros diariamente no campo de provas de Cruz Alta, da General Motors, em Indaiatuba (SP). Todos os dias, após a maratona de sete horas atrás do volante, seu relatório -- e os das quatro companheiras de ofício -- sempre trazem observações bem específicas. "Temos uma sensibilidade maior que os homens para avaliar certos aspectos, como a costura do volante, a textura do tecido dos bancos, a rigidez da direção ou a posição da alavanca do freio de estacionamento", aponta Flávia.

Para a química Maria de Lourdes Feitosa di Franco, existem determinadas funções em que a mulher leva uma "vantagem natural" sobre os homem. A profissional chefia atualmente a equipe de testes de odores da Volkswagen, que faz a análise do cheiro das peças de acabamento interno, como carpetes, revestimento do teto, espumas e plásticos do painel. "As mulheres se dedicavam mais aos filhos, e isso fez com que desenvolvessem certos sentidos. Nossa capacidade olfativa, por exemplo, é entre 20% e 25% maior que a dos homens, que desenvolveram mais a visão com a atividade da caça", teoriza Maria de Lourdes. Daí sua equipe ser majoritariamente feminina, com dez mulheres e seis homens.

ONDE ELAS DOMINAM
No setor de cores e acabamentos da Ford, chamado de Color&Trim, a (des)proporção é praticamente a mesma. São sete mulheres para dois homens. Para a coordenadora Adília Afonso, que soma 22 anos de Ford e foi a primeira mulher designer de interiores da indústria brasileira, a percepção feminina é mais abrangente. "A mulher brasileira, em geral, olha para o carro e pensa: como vou mantê-lo limpo? Isso vem no nosso DNA, a própria experiência como mulher ajuda muito. Somos mais delicadas", diverte-se Adília.

ACELERADAS
- Na Renault foi criado recentemente um grupo de trabalho voluntário feminino, intitulado "Mulheres Renault". Mas nada de feminismo nas atividades. Os homens também participam das reuniões.
- A unidade da Ford em Camaçari, região metropolitana de Salvador, na Bahia, é atualmente uma das que mais tem mulheres entre os funcionários. São 15% de mulheres no setor de pesquisa e desenvolvimento e 30% nas linhas de montagem e produção dos modelos Fiesta e EcoSport.
- O foco no público feminino não é exclusividade das montadoras. Em 2006, a Bradesco Seguro Auto lançou um plano especial chamado de Seguro Auto Mulher. Dois anos depois, a carteira de automóveis de passeio da empresa cresceu 50%.
- O crescimento das mulheres como consumidoras de motocicletas também vem sendo observado com mais atenção pelas montadoras. No meio de 2008, a MVK lançou uma versão da cub Fox 110 pintada na cor rosa, oportunamente chamada de Fox Rosa.
Já na engenharia o quadro se inverte. São muito mais homens que mulheres em atividade, numa proporção média de quatro para uma. A engenheira chefe da PSA Peugeot Citroën, Maria Célia Zikan, conhece bem essa realidade. Ela trabalhou os últimos três anos na equipe de desenvolvimento da linha 207 nacional. "Eu era a 'faladeira'. O pessoal brincava muito: 'Deixa a Maria Célia desabafar'. Existia uma preocupação masculina comigo", recorda a engenheira-chefe da PSA. Maria Célia era a única mulher na equipe. "A vantagem da mulher na engenharia é a criatividade. Não vejo diferença técnica, mas de vez em quando propomos algo diferente do que um homem faria", defende. Mesmo num trabalho com ciências exatas e num ambiente dominado por homens, as mulheres conseguem fazer valer o chamado "toque feminino".

OLHAR TREINADO
Há quem defina "instante" como o tempo necessário para uma mulher analisar uma outra. E é esse olhar crítico e aguçado do sexo feminino que vem interessando à indústria. Daí a quantidade de mulheres no setor, embora pequena, vir crescendo muito nos últimos anos.

Até meados do ano passado, dos 90.063 empregados do setor automobilístico apenas 6.588 funcionários ou 7,3% do total, eram mulheres, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). Só que essa -- ainda pequena -- presença da mulher é estratégica. E se fez notar em diversos aspectos dos carros atuais. São os casos de design, ergonomia, tamanhos de botões, disposição e número de porta-objetos, entre outros. "A mulher repara muito se há lugar para tudo dentro do carro, para a limpeza, se o porta-malas tem ou não compartimentos para as compras não rolarem [dentro dele]. Por conta das tarefas cotidianas, as mulheres tendem a transportar as questões do dia-a-dia para o automóvel", explica Maristela Castanho, da Renault.

Todas essas exigências, na verdade, têm como base uma visão pragmática sobre o veículo e sobre os itens necessários para a comodidade. Já os homens, segundo Ana Theresa Borsari, da Peugeot, é que se preocupam com "perfumarias", como espelhinho no para-sol, apoios de braço ou porta-copos. "A mulher enxerga o carro de forma funcional, como meio de locomoção. Já o homem o vê o como símbolo de status e poder. Por isso se ligam nesses detalhes", salienta.

(por Diogo de Oliveira)

Veja também

Carregando...
Fale com UOL Carros

SALOES