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15/02/2009 - 08h28

Montadoras freiam a produção e provocam filas de espera por alguns modelos

da Auto Press
O cenário é inusitado: depois de quedas vertiginosas em outubro e novembro do ano passado, janeiro registrou um aumento discreto de 3,2% nas vendas em relação a dezembro, segundo dados da Anfavea. Só que depois do chamado setembro negro, quando teve início a crise financeira global, as montadoras frearam a produção antevendo uma retração do mercado. O problema é que a freada foi forte demais. A redução de IPI manteve a demanda e pegou os fabricantes e concessionárias de surpresa. Resultado: o prazo para entrega de alguns modelos pode chegar a mais de 60 dias. Ao ponto de um vendedor de uma concessionária Fiat em Rondônia apelar aos céus para prever a entrega de modelos como Mille ou Palio: "Só em 30 dias, se Deus ajudar".

FILA DE ESPERA
Peugeot 207 Passion: 30 dias no CE.
Chevrolet Classic: sem previsão em SP.
Volkswagen Gol: sem previsão no RJ e em SP.
Volkswagen Voyage: sem previsão no TO e no RJ.
Fiat Mille: 30 dias em RO.
Fiat Palio: mais de 30 dias no RS e no ES.
Ford Ka: 60 dias em SP e CE.
Ford Fiesta: 45 dias em SP.
Reflexo do alarmismo exacerbado das montadoras. Tanto que, depois de férias coletivas e cancelamento de turnos em dezembro, a produção em janeiro quase dobrou. Foram mais de 186 mil unidades, volume 96% superior ao ritmo de dezembro. Uma forma de tentar normalizar a distribuição. Na maioria das revendas consultadas, poucos são os compactos com pronta entrega. Se o consumidor quiser um carro rápido, tem de se adequar ao que a loja tem. Em uma revenda da Peugeot em São Paulo, por exemplo, só há disponível a versão automática do 207 Passion. Em uma outra do Rio de Janeiro o vendedor foi taxativo: "Não tem como pedir à fábrica outras versões". Em várias, a promessa é de entrega em, no mínimo, 30 dias. O mesmo ocorre com o Classic. Em São Paulo, duas lojas Chevrolet não tinham o sedã. "As filas de espera são pontuais, por conta de reprogramação da produção. O estoque estava muito alto", argumenta José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors.

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias


Na Volkswagen, clientes que querem Gol e Voyage também têm dificuldade. Em revendas de São Paulo, Rio de Janeiro e Palmas não há previsão para a entrega. Na Ford, modelos como Ka e Fiesta podem demorar quase dois meses. "Estávamos com estoque de três meses, quando o normal são 30 dias. Isso é custo financeiro. Se a gente imaginasse que o governo agiria tão rápido...", pondera Benedito Lima, presidente da Abradif, entidade que reúne os distribuidores Ford. Na Fiat, revendas de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e de Vila Velha, no Espírito Santo, não tinham Palio. "Para retomar o ritmo não é muito fácil, mas em fevereiro os estoques vão atender a demanda", acredita Luiz Homero, presidente da Abracaf, que reúne as revendedoras Fiat.

Nestas alterações de humor e em meio ao discurso apocalíptico, alguns segmentos se deram muito bem. Como o dos importados, cuja participação no mercado interno saltou de 13,2% em novembro para quase 20% no mês passado. Diversos modelos foram beneficiados por descontos generosos e por encomendas com dólar cotado antes da crise. O Ford Fusion, trazido do México, por exemplo, partiu de 547 unidade em dezembro para 1.015 em janeiro. O compatriota Volkswagen Bora foi de 1.155 para 1.746 e o também mexicano Nissan Sentra partiu de 486 para 944. Até o argentino SpaceFox subiu de 1.662 para 2.792 no período. "Os importados ficaram com preços mais acessíveis e a situação ficou interessante porque está se trabalhando com dólar antigo", ressalta Elias Monteiro, presidente da Assobrav, entidade que reúne os distribuidores Volkswagen.

Os modelos que fogem dos segmentos de entrada também viveram dias melhores em janeiro. Carros como Fox, Corsa, Meriva, Astra, Focus sedã e Palio Weekend registraram aumentos significativos em relação a dezembro. Até porque, na falta de modelos básicos, muitos consumidores partiram para os carros que tinham pronta entrega. "A volta das férias coletivas sempre traz uma série de ajustes. Um modelo ou outro que tem mais demanda pode ser mais difícil de encontrar", minimiza Sergio Reze, presidente da Fenabrave. De qualquer forma, as perspectivas apontam para um fevereiro com normalização dos estoques e adequação da produção. Ainda mais que se trata de um mês tradicionalmente sofrível para o mercado, devido ao reduzido número de dias úteis, fim de férias e Carnaval. "É difícil fazer previsões de vendas e acertar é mais difícil ainda. Ainda mais em um cenário macroeconômico. A grande dúvida é o que vai acontecer depois do fim da redução do IPI", diz Dario Gaspar, consultor da AT Kearney.

ACELERADAS
- A medida que baixou o IPI tem duração até o dia 31 de março de 2009. O imposto para modelos até 1.0 foi zerado, o para carros com motor entre 1.0 e 2.0 a gasolina foi para 6,5% e para veículos com motor flex entre 1.0 e 2.0 ficou em 5,5%.
- As alíquotas normais são: 7% para carros com motor até 1.0; 13% para carros a gasolina entre 1.0 e 2.0; e 11% para os flex entre 1.0 e 2.0.
- Em janeiro, o número de empregos nas montadoras do país registrou a terceira queda consecutiva, com 1,5% e 1.858 postos de trabalhos extintos.
- Em outubro, após o início da crise global, o governo liberou R$ 8 bilhões para os bancos das montadoras ampliarem as linhas de crédito para carros zero quilômetro.
- Pelos números da Anfavea, em janeiro foram comercializadas 197.454 unidades de automóveis de passeio e comerciais leves, 7,6% a menos que as 205.366 unidades de janeiro de 2008 e 3,2% a mais que as 183.854 unidades de dezembro do ano passado.
FUTURO NEBULOSO
Apesar dos dois últimos meses relativamente bons em volumes de vendas, o nível de catastrofismo não cede. Montadoras, revendedores e analistas de mercado preferem manter um tom de apavorada cautela. Até porque, serve de discurso uníssono para pleitear junto ao governo federal a manutenção da redução do IPI sobre modelos com motor até 2.0 litros. Para os executivos do setor, é a única forma de manter as vendas em patamares próximos a 200 mil unidades como em janeiro. "Não acredito que seja possível manter 200 mil unidades sem a redução do IPI. Ficou claro que a redução de impostos aumenta o acesso ao carro zero", defende Luiz Homero, presidente da Abracaf, que reúne os revendedores Fiat.

De qualquer maneira, nos bastidores é dado como certo que o governo vai afagar novamente as montadoras e prorrogar os descontos do IPI por mais três meses. Mesmo assim, ninguém arrisca um palpite com o que vai acontecer com o mercado de automóveis em 2009. Nem mesmo o imposto nos patamares atuais é visto como garantia para dias melhores. "O aumento do preço final vai levar a uma redução do volume. Talvez seja necessário manter a redução do IPI, mas talvez nem isso consiga manter as vendas", reconhece Dario Gaspar, consultor da AT kearney. "Acredito que a partir de março serão tomadas algumas medidas para incentivar o consumo. E 200 mil/mês é um numero aceitável para o mercado brasileiro. Acho que vamos encontrar um novo patamar de vendas ao redor de 200 mil ou 205 mil unidades mensais", acredita Paulo Roberto Garbossa, consultor da ADK Automotive.
(por Fernando Miragaya)

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