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16/01/2009 - 20h20

Ergonomia cresce em importância para que automóveis ganhem conforto e segurança

Da Auto Press
Nunca foi tão grande a corrida das montadoras para construir carros mais confortáveis e seguros. Exatamente por isso, a ergonomia -- a ciência responsável pela interação do homem com a máquina-- é um dos aspectos mais trabalhados atualmente. O interior dos veículos é carregado de conceitos ergonômicos: posição dos bancos, volante, botões, cintos de segurança, alavancas do câmbio e do freio de estacionamento, tons que iluminam o ambiente, grafismos. Tudo é minuciosamente desenhado para fazer do habitáculo um lugar acolhedor, seguro e prático.

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias 


"A ergonomia fica entre o design e a engenharia. Acompanhamos os carros desde a elaboração do protótipo. Temos peso nas decisões, podemos barrar certas idéias, como um simples posicionamento de um rádio", exemplifica Rosane Schonblum, designer de ergonomia da Ford.

De todos os aspectos, porém, a visibilidade é o ponto crucial na relação homem versus veículo. Padrões internacionais indicam que, para ser homologado, um automóvel precisa atender a uma faixa média de estatura que vai de 2,5% da população até 97,5% dela. Tudo a partir do chamado ponto "H", uma posição universal que respeita ângulos recomendados para a junção da articulação do tronco com as pernas. Ou seja, um mesmo carro tem de receber uma mulher com 1,49 metro de altura e um homem de 1,88 m.

ERGONOMIA EM EVOLUÇÃO

  • Best Cars

    Mesmo enfileirados no console central, comandos do Santana tinham lógica difícil e falta de identificação.

  • Murilo Góes/UOL

    Novo Gol já conta com regulagem de altura de banco (motorista) e volante e comandos do som na direção (como opcional); ajuda, no entanto, ainda custa caro para um popular.

  • Murilo Góes/UOL

    No Jetta, mais caro sedã médio da VW à venda por aqui, comandos bem posicionados, câmbio tiptronic e até ajuste lombar no banco (além de altura e distância) dão maior conforto ao ocupante.

"A primeira coisa que fazemos num projeto é verificar o posicionamento dos manequins e analisar suas movimentações no interior do veículo. Só depois partimos para a parte estética", completa Gerson Barone, gerente de design da Volkswagen.

Desta forma, no projeto, tanto a mulher de 1,49 m como o homem de 1,88 m têm de alcançar pedais e volante confortavelmente, com os olhos numa posição que permita enxergar com clareza o quadro de instrumentos, os espelhos retrovisores e os quatro cantos do veículo. "A ergonomia visa dar maior controle à dirigibilidade, principalmente por meio da visão", pontua Arnaldo Marques, engenheiro associado da SAE Brasil (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade).

O sinal de que a ergonomia está realmente em alta surge nos modelos novos. Quase todos, mesmo compactos de entrada como o Volkswagen Gol, oferecem de fábrica algumas regulagens, como as de altura do assento do motorista ou do volante, itens antes restritos a modelos médios.

"O grande problema da ergonomia são essas dimensões. Os carros precisam ser confortáveis para pessoas de diferentes tamanhos e todos têm de achá-los agradáveis. Afinal, precisam vender", aponta Ricardo Bock, professor de engenharia da FEI (Fundação Educacional Inaciana), de São Bernardo do Campo (SP).

Por enquanto, ainda é preciso pagar por fora para ter ajustes de bancos e volante na maioria dos modelos compactos, justamente os mais vendidos. Mas a oferta desses itens é uma tendência forte dentro da indústria.

"Os carros já são projetados para atender a maioria dos consumidores. E com essas regulagens é possível atender a quase 100% das pessoas", ressalta o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat. Outra novidade cada vez mais comum são os painéis com botões e tipografias maiores. A idéia é fazer com que o acesso fique melhor e mais intuitivo, para evitar que o motorista precise desviar o olhar da via para acessá-los ou aperte comandos errados. "As pessoas têm de saber onde estão os comandos, independentemente se conhecem ou não um veículo", observa Rosane Schonblum, da Ford.

ACELERADAS
- O projeto de ergonomia de um novo veículo pode levar entre 12 e 18 meses até ser concluído.
- Atualmente, todos os modelos médios do mercado brasileiro oferecem ajuste de altura para o assento do motorista de série.
- O Citroën C3 é um dos poucos hatchs compactos que oferecem comandos do som no volante, ainda que como opcional. Só que o acesso é complicado, já que os botões ficam na ponta da alavanca de acionamento dos limpadores.
- Embora fosse um sucesso de vendas nos anos 80 e 90, o Volkswagen Santana tinha uma lógica difícil para os botões de acionamento dos vidros elétricos. Os quatro comandos ficavam enfileirados horizontalmente no console central, com bom acesso, mas sem uma identificação clara.
- Na época em que projetou o Fiat Uno, depois Mille, o designer italiano Giorgeto Giugiaro partiu dos ocupantes dentro do habitáculo para elaborar o hatch compacto. E o resultado é que, até hoje, o Mille ainda é um dos modelos mais generosos em espaço interno do segmento.
E, embora os veículos atualmente sigam certos padrões considerados "universais", a ergonomia dos carros ainda carrega tradições, aspectos adquiridos ao longo das décadas. É como cada montadora -- seja de escola norte-americana, francesa, alemã ou italiana -- busca criar sua identidade.

"Nossos veículos são concebidos para ter uma direção mais esportiva. Por isso, os bancos são mais baixos, o curso do câmbio é mais curto e os instrumentos têm mostradores mecânicos", descreve Juliano Rossi Machado, gerente de marketing de produto da Peugeot. "Na Volks, a preocupação maior é com motorista e passageiros. A palavra de ordem é segurança", valoriza Gerson Barone, gerente de design da Volkswagen.

INTEGRAÇÃO
Diversos estudos recentes, exibidos nos salões do automóvel pelo mundo, apontam para uma integração ainda maior entre homem e máquina num futuro próximo. Se hoje ainda faltam ajustes de altura e profundidade no volante para veículos dos segmentos de entrada, a idéia é que seja possível nos próximos anos personalizar os veículos para cada condutor, como já acontece nos modelos de luxo.

"Logo teremos mais regulagens e a instalação de memórias que guardarão as informações de cada usuário em um chip", vislumbra Rosane Schonblum, designer de ergonomia da Ford. Com a presença cada vez maior da eletrônica nos carros, também devem aumentar o número de botões integrados ao volante e o ajuste da altura do facho dos faróis, que melhoram consideravelmente a visibilidade em passeios noturnos.

Outro item que promete ganhar maior espaço entre os modelos considerados "populares" é o câmbio automático. Apesar de ser um componente mecânico com custo elevado, a caixa automática também tem influência na ergonomia e na segurança, já que o condutor não precisa ficar constantemente realizando as trocas manuais. Por conta disso, pode manter as duas mãos no volante. "O câmbio automático é uma opção interessante nos centros urbanos, sobretudo nos veículos compactos. Além do conforto nos congestionamentos, há o controle de cruzeiro para viagens", observa Arnaldo Marques, engenheiro associado da SAE Brasil.
(por Diogo de Oliveira)

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