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13/12/2008 - 01h39

Utilitários esportivos ganham espaço como sonho de consumo

EUGÊNIO AUGUSTO BRITO
Da Redação

Mitsubishi Pajero TR4 é uma das opções de SUV; clique na foto para ver mais

Você sabe o que é um SUV? E um utilitário esportivo? As classificações oficiais podem até soar estranhas para quem não é aficionado por carros, mas provavelmente todo mundo já se imaginou a bordo de um, e basta citar alguns modelos para que a lembrança volte a ganhar corpo. EcoSport, Pajero, Tucson, Hilux SW4, Blazer, Grand Vitara... a lista é grande, é polêmica, e cresce na mesma proporção em que os SUVs ganham espaço nas ruas e nas garagens.

O principal ponto de atrito do segmento começa na própria definição. No Brasil, a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) adota a sigla em inglês SUV (de "sport utility vehicle"), mas é também comum a nomenclatura utilitário esportivo -- mais ou menos a tradução de SUV para o português. Jornalista especializado e colunista do site parceiro Interpress Motor, Fernando Calmon prefere um terceiro termo: utilitários esporte. Cobrindo o setor automotivo desde 1967, ele acrescenta que "as linhas do segmento costumam misturar traços de jipes convencionais com station wagons (peruas), além de uma dose de conforto, tecnologia e características esportivas". Na prática, o segmento se define por conter veículos de uso misto, urbano e off-road, geralmente (mas não necessariamente) com possibilidade de acionamento da tração nas quatro rodas (estima-se que 90% dos compradores jamais utilizem essa opção).

PONTO DE PARTIDA
No país, a categoria de utilitários esportivos ganhou importância real em 2003, graças ao primeiro nome da lista citada no parágrafo inicial dessa reportagem. Fabricado pela Ford desde aquele ano, o EcoSport superou seu próprio projeto (seria uma variante aventureira da família Fiesta) e hoje é o principal nome do segmento, cujo bom momento ele próprio ajudou a construir.

OS 10 MAIS VENDIDOS EM 2008
FORD ECOSPORT - 40.714 unidades
Leia a avaliação e veja as fotos
HYUNDAI TUCSON - 18.556
Veja o comparativo com o Sportage
MITSUBISHI PAJERO - 16.658
Veja fichas do modelo no Compare
CHEVROLET TRACKER - 8.050
Veja avaliação e fichas no Compare
HONDA CR-V - 7.300
Confira avaliação e veja fotos
KIA SPORTAGE - 6.586
Veja o comparativo com o Tucson
TOYOTA HILUX SW-4 - 6.508
Avaliação e fotos do modelo 2009
HYUNDAI SANTA FE - 4.131
Veja a ficha do modelo no Compare
CHEVROLET CAPTIVA - 3.517
Leia avaliação e veja fotos
CHEVROLET BLAZER - 2.505
Impressões e fotos do modelo
RELATÓRIO DA FENABRAVE 11/2008
IMAGENS: A ONDA SUV NO BRASIL
"Derivado do Fiesta, como projeto Amazon, o EcoSport buscou atender à necessidades das pessoas de 'fugir' da cidade nos finais de semana, de procurarem por aventura, mas com preço acessível", afirma a gerente de produto da Ford, Adriana Carradori. "Assim, encontramos um nicho não explorado, e forçamos a uma adaptação da concorrência, que teve de modificar seus produtos. A Mitsubishi trouxe o Pajero TR-4 e a Hyundai, o Tucson. E então tivemos o aquecimento do mercado", analisa.

Pelo ranking de vendas da Fenabrave, o EcoSport é o primeiro colocado, com média de 40 mil unidades anuais. Em 2008, respondendo por mais de 30% do mercado de utilitários, já vendeu 40.714. Repaginado há um ano e com fôlego renovado no final de novembro último, com nova linha de motores 2.0 flex, o EcoSport tem preços e opções para bolsos e almas variados -- começam em R$ 47.151 para a "básica" 1.6 XLS e seguem até a versão 4WD 2.0 flex com bancos em couro a R$ 64.785 (os valores, assim como os demais citados nesta reportagem, podem ter caído depois da redução do IPI). Essa opção com tração integral, porém, responde por apenas 3% das vendas do modelo.

DE SUV A CROSSOVER
Em seguida, com vendas semelhantes, surgem os outros dois competidores mais fortes desse grupo, ambos orientais, citados acima. O coreano Hyundai Tucson, com preços a partir de R$ 79 mil e 18.556 unidades vendidas em 2008, oferece maior conforto em relação ao EcoSport e garantia de cinco anos da fabricante. Já o japonês Mitsubishi Pajero, que vendeu 16.658 unidades, tem preço inicial de R$ 65.490 para sua variação mais compacta, a TR-4, que traz melhor nível de equipamentos que o modelo Ford, e a tradição off-road da marca (tem tração nas quatro rodas e reduzida).

A partir daí, um grande abismo se abre até o quarto colocado, que mantém uma situação curiosa. Fabricado na Argentina e embalado com a gravatinha da Chevrolet, o Tracker é baseado no Suzuki Grand Vitara, e por isso ficou defasado com o lançamento da nova geração do modelo japonês, apresentada por aqui em setembro. Mesmo assim, responde por 6% do mercado nacional de SUVs, com 8.050 unidades vendidas este ano, patamar sustentado em grande parte pelo preço de R$ 62.506 e o pacote de tração 4x4 com reduzida de acionamento manual.

Há espaço para uma veterana, na décima posição: a Chevrolet Blazer, anterior ao EcoSport, mas muito marcada como "carro de polícia", que se mantém firme especialmente por conta do bom preço, na faixa dos R$ 60 mil, do motor 2.4 bicombustível e da imagem de robustez.

E também para novidades de mercado. É o caso dos chamados crossovers, que chegam na trilha do interesse por veículos de maior porte, conforto e tecnologia. Considerados "uma inveção americana inclassificável" pelo especialista Calmon, sua chegada ao Brasil foi marcada por três modelos: os "mexicanos" Chevrolet Captiva Sport, por até R$ 99.900 (e que já aparece na nona colocação em vendas), e Dodge Journey, por R$ 98.900; e o Ford Edge, fabricado no Canadá (por isso sem isenção de taxas de importação), que pode beirar os R$ 160 mil. Há ainda o Honda CR-V, também fabricado no México, com preços na faixa entre R$ 90 mil e R$ 110 mil.

"Você pode ter a mistura dos estilos de um SUV com uma minivan, ou de um SUV com um sedã, como é o caso do Dodge Journey. Ou ainda de um SUV e um cupê. A Ford classifica o Edge como um crossover, enquanto a GM classifica o Captiva como um SUV. Para enxergar a diferença, é preciso ser um expert. Neste caso, há muita questão de imagem, de marketing e da venda de invenções de projetistas", afirma Calmon.

FEBRE SUV
Levando em conta a totalidade dos emplacamentos, o segmento de SUVs subiu 40,74% em um ano, de novembro de 2007 a novembro deste ano. Até o penúltimo mês de 2007, o primeiro ano do que se pode chamar de período da "febre dos utilitários esportivos", 95.267 unidades da categoria haviam sido emplacadas. Já em 2008, com o mercado se mantendo aquecido, o total de utilitários esportivos vendidos e licenciados chegou a 134.083, de janeiro até o final de novembro.

Os mais críticos quanto ao emprego do termo "febre" podem argumentar que em relação ao total de veículos vendidos no Brasil em 2008, 2.716.864 até novembro, a base de referência dos utilitários esportivos ainda é pequena -- cerca de 5%. Mas não há como negar que o segmento foi um dos poucos a resistirem incólumes e seguirem aquecidos após à tempestade provocada pela crise econômica (como um todo, os veículos de luxo com valor acima dos R$ 80 mil mantiveram ou melhoraram os níveis de venda desde o início da restrição de crédito, nos últimos dois meses).

UOL Carros ouviu vendedores de algumas concessionárias na cidade de São Paulo, cujos nomes serão preservados, que comprovaram a manutenção do cenário positivo. Funcionários de duas lojas da Hyundai afirmam que o mercado cresceu muito nos últimos oito meses, e que a diferença sentida nos últimos dois meses está apenas na forma de pagamento, que passou a ser feito predominantemente à vista, e não por financiamento. Assim, as vendas continuam elevadas, sem necessidade de espera, e dentro de seus nichos de gênero: Tucson mais voltado ao público feminino; o luxuoso Santa Fe (R$ 130 mil a R$ 150 mil), para ambos sexos; e o grande Vera Cruz (R$ 160 mil), mais voltado ao público masculino. Em lojas da Chevrolet, há fila de espera e ágio pelo Captiva.

O QUE O CLIENTE PROCURA
Para os especialistas, a atração exercida pelos utilitários esportivos se apóia num tripé mais sensorial do que racional, formado pela "impressão de segurança", a "idéia de desempenho" e o "valor aventureiro", explica Joel Leite, diretor da agência AutoInforme, especializada em notícias e mercado automotivo.

"Os utilitários esportivos, com suas características fora-da-estrada, fornecem a impressão de segurança a quem normalmente se sentiria constrangido no trânsito. Eles servem e são utilizados não para ir ao sítio ao final de semana, mas para enfrentar as dificuldades de terreno do dia-a-dia, dentro da cidade, como aquele enchente em que qualquer carro menor ficaria preso, ou as buraqueiras de ruas e estradas", afirma Leite. Mas todos esses "desejos" de nada valem sem o fator determinante do mercado: "A compra de um SUV se dá por desejo, mas não é só desejo que manda, senão não teríamos carro 1.0 no mercado. O que vale é a condição de mercado e, nos últimos dois anos, essa condição tem estado muito boa", arremata o jornalista.

Pode-se dizer que uma combinação de todos estes fatores levou Ezília Duboc Lopes a comprar, em pouco mais de três anos, dois utilitários esportivos, aposentando de vez o uso de carros de passeio.

"Esse negócio do assoalho do carro bater em lombada ou na guia, na saída da garagem de casa, é muito ruim. Por isso gosto de carro alto, por ter esta sensação maior de conforto", afirma Ezília. Ex-dona de dois Renault Twingo, Ezília diz quase ter comprado um Citroën Xsara Picasso "novinho" em 2005, quando decidiu, já na concessionária, levar um EcoSport 1.6 a gasolina usado. Após isso, experimentou o hatch Peugeot 206 da filha, mas decidiu trocar o primeiro utilitário por outro, uma Hilux SW4 3.0 turbodiesel, também usada.

Moradora de Ribeirão Preto (SP), ela diz não ver na preferência pela maior altura um fator de segurança, embora já tenha se valido disso para escapar de uma enchente. "Foi tranqüilo. Reduzi a velocidade e consegui andar uns dois quilômetros com muita água sem qualquer problema". Apesar dessa aventura a contragosto, Ezília admite manter o uso do carro bem convencional: "Ele nunca viu terra, nem com o dono anterior. A gente não exagera, não carrega peso, e a tração 4x4 só é usada quando o mecânico alerta, para manter o funcionamento do sistema", entrega.

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