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28/11/2008 - 20h32

Etiqueta de consumo pode aumentar rivalidade entre marcas e gerar motores mais econômicos

Da Auto Press
O real consumo de combustível em um automóvel é quase um mistério. Nem todas as montadoras informam tais dados. E as que divulgam, geralmente expõem números tão favoráveis que parecem inverossímeis. O Programa de Etiquetagem Veicular, que vai entrar em vigor em abril de 2009, promete fornecer uma referência padronizada quanto ao assunto. Mas talvez se torne também uma nova trincheira na guerra de marketing entre as fabricantes. E pelo menos dois cenários podem ser concretizar a partir dos testes. No primeiro, a obtenção de dados de consumo pode ficar muito próxima dos que são divulgados atualmente. Em outro, mais favorável ao consumidor e ao meio-ambiente, a busca por números mais atraentes deve fazer com que as montadoras procurem tecnologias capazes de fazer os motores mais eficientes.

"A questão do consumo vai ser ressaltada pelos consumidores, seja por questões econômicas ou ambientais. Algumas montadoras vão explorar isso, o que pode gerar uma nova etapa de desenvolvimento de veículos econômicos", acredita Fábio Ferreira, vice-diretor de Comitê de Veículos de Passeio da SAE Brasil (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade).

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias


Até porque os testes para averiguar o consumo de automóvel vão passar a seguir um padrão. Cada etiqueta vai informar o consumo médio do veículo tanto no ciclo urbano, quanto no ciclo estrada. No caso dos carros flex fuel, serão apresentados na etiqueta cada um dos ciclos com cada combustível -- álcool e gasolina. As marcas associadas à Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) e à Abeiva (Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores) já aderiram.

DETALHES DA ETIQUETAGEM
- Os testes do Programa de Etiquetagem Veicular serão feitos até fevereiro de 2009.

Em março, o Inmetro faz a classificação e em abril divulga os números.

- O programa será atualizado anualmente no mês de outubro e tanto os modelos novos quanto os que já fizeram o teste terão de passar pela avaliação.
- O teste vai utilizar, em média, cinco unidades de cada modelo.
- Já existem sete laboratórios credenciados para os testes do programa. Outros nove estão em processo de habilitação.
- A etiqueta vai seguir um padrão visual parecido com as etiquetas que informam o consumo energético existentes em aparelhos eletrodomésticos.
- O programa é uma parceria do Inmetro com o Conpet (Programa Nacional de Racionalização do Uso dos Derivados do Petróleo e do Gás Natural), da Petrobras.
"A intenção é exatamente trazer a questão do consumo para a realidade, com uma metodologia padrão, nas mesmas condições. Hoje, cada montadora mede de uma forma", explica Gustavo Kuester, gerente da Divisão de Programas de Avaliação da Conformidade do Inmetro, órgão responsável pela aferição dos testes do programa.

A adesão das montadoras não é obrigatória, mas quem integrar o projeto tem de aferir pelo menos a metade dos modelos vendidos no país. Ou seja, se comercializa 20 diferentes, no mínimo dez precisarão passar pelo teste do consumo. As provas, aliás, já começaram. São feitas em laboratórios, em um padrão parecido com o que é utilizado pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis) para medir o nível de emissões e homologar os veículos. O carro fica em cima de dinamômetros em simulações de tráfego, com reduções de marchas, acelerações, freadas, carro cheio, vazio etc.

"É um programa que trata da eficiência energética, onde o principal objetivo é declarar o consumo energético. Como referência, também declara o consumo obtido seguindo padrões e metodologias internacionais", ressalta Alberto Pescumo, gerente Comercial da Honda.

O padrão na avaliação, porém, não é garantia de dados de consumo muito diferentes dos que se têm hoje. "A base do teste é a mesma e os ciclos são muito parecidos com o que se faz na medição de emissão de poluentes", diz o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat. Ao mesmo tempo, todos os especialistas fazem questão de frisar que o consumo que constar na etiqueta não será 100% fiel à realidade. Modo de dirigir do condutor, topografia do trecho, tráfego, condições dos pneus, qualidade do combustível e até condições climáticas podem interferir no resultado. "Esses números não refletem verdadeiramente o que acontece, pois é um teste altamente controlado, feito em laboratório", pondera José Edison Parro, presidente da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva).

Além da padronização, a utilidade do Programa de Etiquetagem Veicular é mercadológica. Como o consumidor terá um modelo para seguir e comparar, a etiqueta pode gerar uma nova guerra de propaganda, com cada marca defendendo sua vertente econômica. "Independentemente dos fatores que interferem no gasto de combustível, qualquer carro que tiver menor valor de consumo vai consumir menos. Para o motorista, vai haver uma referência", valoriza Kuester, do Inmetro. "O programa vai provocar um acirramento no mercado", acredita Parro, da AEA.

PROCESSO CONHECIDO
Os testes com carros em dinamômetros dentro de laboratórios já são uma realidade para montadoras. Essa é a base da avaliação exigida pelo Ibama para avaliar se os automóveis vendidos no país estão dentro dos padrões de emissões de poluentes estabelecidos pelo Proconve (Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores). Todo automóvel, nacional ou importado, precisa passar por este teste para ser homologado.

"Os carros têm de resistir até 80 mil km dentro do padrão de emissões. Geralmente, o carro sai de fábrica emitindo 30% a 35% do máximo que pode emitir de poluentes", explica o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat.

Na avaliação, os veículos são colocados em cima de rolos e simulam situações de trânsito para medições. O ciclo de emissões brasileiro foi estabelecido em 1988 e é baseado no padrão utilizado pelos Estados Unidos. Um motorista "conduz" o carro com um monitor ao lado, que informa qual velocidade deve manter, qual marcha deve engatar, se deve frear ou não. O veículo fica 24 horas em um ambiente de 20º C e "percorre" uma distância de 17,9 km para avaliação do Ciclo Cidade, e de 16 km para o Ciclo Estrada.
(por Fernando Miragaya)

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