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18/10/2008 - 18h30

Montadoras chinesas investem em comerciais leves de baixo custo para crescer no Brasil

Da Auto Press
A temida "invasão chinesa" ainda não aconteceu para valer no mercado brasileiro de automóveis. Mas, no segmento de comerciais leves, a história é outra. Há pelos menos quatro fabricantes chinesas em atividade no país, representadas por três grupos: o Effa Motors, que comercializa modelos da montadora Hafei Auto; o Districar, que traz os carros da Chana Motors, e o CN Auto, que representa as marcas Jinbei Automobile e Hafei Motor, subdivisão da Hafei Auto. Entre as ofertas, um leque de utilitários pequenos muito parecidos e disponíveis em diferentes configurações, todos com motores compactos e, sobretudo, preço baixo. Não à toa, o objetivo desses modelos é o mesmo: seduzir os brasileiros pela relação custo-benefício.

Os preços e listas de itens de série deixam evidente a ofensiva com foco no bolso. Lançados há pouco mais de um ano, os modelos da Chana -- cargo, picape cabine simples, estendida e dupla, o furgão Utility e a van Family para até 7 passageiros -- saem das 16 revendas do grupo Districar por valores entre R$ 26.588 e R$ 33.028. Os preços são atraentes, mas os equipamentos, escassos: apenas rádio com toca-fitas, limpadores de pára-brisas com temporizador, ar quente e obrigatórios cintos de três pontos. Ar-condicionado, CD player, faróis de neblina e calotas são opcionais. E direção hidráulica sequer é oferecida como opção.

ACELERADAS
- Atualmente a China é o segundo maior produtor de veículos do mundo, com capacidade produtiva de aproximadamente 8 milhões de veículos. O país oriental perde apenas para o Estados Unidos, que produz quase 20 milhões de unidades anuais entre automóveis e veículos comerciais.
- A Chana é hoje uma das maiores fabricantes de veículos da China. A montadora produz cerca de 1 milhão de veículos por ano no país, em três linhas de montagem. Os modelos usam mecânica fornecida pela japonesa Suzuki.
- O plano da Effa Motors para vender veículos chineses no Brasil começou há cinco anos. Os executivos da importadora visitaram a China e optaram por importar os carros mandarins a partir do Uruguai. É o caso do monovolume M100, cujas partes são fabricadas na China e montadas no Mercosul.
- Os modelos da Asia Motors, Topic e Towner, chegaram a vender quase 80 mil unidades no Brasil na década de 90. E assim como os homônimos chineses da CN Auto, as duas vans sul-coreanas tinham como principal apelo o preço baixo.
"São produtos voltados para o trabalho e não para o conforto. As pessoas que compram esses carros buscam transporte rápido. O nível de acabamento evidentemente é ruim, mas isso tende a melhorar com o tempo", explica Mohsin Ibraimo, diretor da Districar.

A pequenina Urban Light Commercial Picape, da Effa Motors, é ainda mais barata. O modelo começa em módicos R$ 19.980 e vem equipada com faróis e lanternas de neblina, ar quente, calotas e design assinado pelo renomado estúdio italiano Pininfarina. "Não vamos trazer veículos para competir com os 'best sellers' nacionais. Buscamos segmentos que nos ofereçam oportunidades, como os utilitários pequenos. A idéia é conseguir deslocamentos ágeis de cargas, por exemplo, para fugir do trânsito pesado", explica José Geraldo, diretor da Effa.

De toda forma, o monovolume compacto M100 -- chinês produzido pela Hafei Auto e que custa R$ 22.980, mais em conta que o Fiat Uno Mille Economy 1.0 Flex, vendido a partir de R$ 23.240 -- traz de série ar-condicionado, faróis e lanternas de neblina, rádio/CD com três alto-falantes, travas elétricas nas quatro portas, vidros dianteiros com acionamento elétrico, calotas, entre outros.

RECEITA DE SUCESSO
A busca por oportunidade, por exemplo, explica o recente resgate dos nomes Towner e Topic pela CN Auto. A importadora batizou seus dois recém-lançados modelos chineses com os nomes das vans da extinta Asia Motors, fabricante coreana que pertencia à Kia Motors e fez muito sucesso na década de 90 nos grandes centros urbanos brasileiros. As vanzinhas compactas eram baratas e tinham múltiplas aplicações de uso. A Towner ficou famosa na época como o furgão dos vendedores de cachorro-quente. É vista até hoje nas ruas. "Buscamos com os nomes resgatar os valores que os modelos da Asia Motors ofereciam para o consumidor. Eram veículos com design interessante, bom conteúdo de série e muito versáteis", sintetiza Higino Leonel da Silva, diretor comercial da CN Auto.

Divulgação

Com motor 1.0 a gasolina de 48 cv, a nova Towner chega nas versões para passageiros, furgão e picape
A confiança do grupo CN Auto nesse segmento é tão grande que a empresa encomendou 3 mil unidades dos modelos às fabricantes chinesas Jinbei e Hafei Motor. O primeiro lote, já à venda, tem 1.100 veículos. Os preços da minivan Towner chinesa partem de interessantes R$ 24 mil e os da Topic, que leva até 16 pessoas e pretende fisgar vendas das vans tradicionais, como Mercedes-Benz Sprinter, Renault Master e Fiat Ducato, começa em R$ 55 mil -- cerca de 30% a menos que o preço das concorrentes.

"Os chineses têm uma vantagem de custo muito grande. A mão-de-obra é barata. O salário médio real do chinês é um dos mais baixos do mundo", aponta Edgard Pereira, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). "O mercado está aí para todos. Não importa se o modelo é chinês. Qualquer veículo que vier para o Brasil com preço competitivo, qualidade e rede de assistência técnica vai vender", aposta o consultor Paulo Garbossa, da ADK Automotive.

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias



CREDIBILIDADE
Embora tenham produtos baratos e altamente competitivos, as marcas chinesas já operantes no Brasil sofrem do mesmo problema que comprometeu as montadoras japonesas no início dos anos 90 no Brasil. Sem uma rede de distribuição consistente para sustentar um bom volume de vendas, se ressentem também com a desconfiança do brasileiro em relação à qualidade dos produtos vindos da China.

"Hoje a tecnologia não é mais exclusividade das fabricantes tradicionais e fornecedores. Qualquer montadora tem acesso às inovações tecnológicas mundiais", defende José Geraldo Sampaio Moura, diretor da Effa Motors. "O conceito de pick-up urbana é muito interessante. Esses veículos passam em ruas apertadas, encaram bem os buracos, tem peças baratas e manutenção simples. Nosso objetivo é resgatar esse mercado e trabalhar o pós-vendas", argumenta Mohsin Ibraimo, diretor da Districar.

A questão da manutenção é um ponto vital nesse nicho de comerciais leves. Sem um número consistente de revendas, as importadoras trabalham agora para aumentar o número de concessionárias no país e, assim, ampliar as vendas e a capacidade de atendimento aos clientes. A pioneira Chana conta hoje com 16 concessionárias espalhadas pelas maiores capitais, a Effa já tem 13 lojas no estado de São Paulo e a novata CN Auto possui apenas 4 pontos de venda na capital paulista.

"Como nossa rede de atendimento é menor e tem menos carros circulando, conseguimos atender melhor e com mais agilidade. Além disso, trazemos peças da China a preços baixos, o que nos permite oferecer manutenção mais em conta", gaba-se Higino Leonel da Silva, diretor comercial da CN Auto.
(por Diogo de Oliveira)

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