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11/10/2008 - 10h00

Câmbio oscilante põe em xeque o promissor mercado de importados

Da Auto Press
A indústria automobilística brasileira foi pega de surpresa nos últimos dias. Justamente no melhor momento de vendas de veículos importados no país, a crise financeira internacional atingiu o calcanhar-de-aquiles do segmento. A recente elevação do dólar, que saltou de estáveis R$ 1,70 para oscilantes R$ 2,30, tornou incerta as diversas investidas das montadoras no país, que andavam animadas em trazer novos modelos.

Mais de uma dezena de produtos fabricados lá fora foram lançados desde 2007, encorajados por números surpreendentes. As vendas entre os sedãs médios-grandes e grandes de luxo importados avançaram 59,3% de janeiro a setembro de 2008, enquanto entre os SUVs o crescimento no período foi de impressionantes 121%. "Ainda é cedo para afirmar que o aumento do dólar causará impactos negativos no desenvolvimento da indústria. Temos condições mais favoráveis do que tínhamos em outras crises internacionais", defende Jackson Schneider, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Foto: Divulgação

Crossover Captiva, mexicano: com taxa simbólica, leva vantagem ante os 'forasteiros'

O fato é que a valorização da moeda norte-americana em relação ao real muda tudo. A recente "invasão" de novos carros médios de luxo fez montadoras e distribuidores repensarem suas estratégias de preços. Com gordura para queimar, algumas fabricantes e redes de revenda simplesmente baixaram os preços de determinados veículos, diante do aumento considerável do número de concorrentes e ofertas e também do número expressivo de emplacamentos.

Só que a fase dos "descontões" está com os dias contados. Se o aumento do dólar persistir, os reajustes nos preços chegarão logo. "Buscamos sempre estabelecer preços dentro de uma faixa que suporte oscilações. Mas se o dólar mantiver a elevação nos próximos 15 dias, teremos de mexer nos valores", admite Alberto Pescumo, gerente-geral comercial da Honda.

A verdade é que o aumento da moeda ianque pode levar o segmento de veículos importados a um novo cenário. Com tantos modelos à venda e uma competitividade acirrada, preços e ofertas podem fazer a diferença junto a um público que deve ser afugentado pelos futuros reajustes. "O dólar tem influência até um determinado momento. É aquela história: as marcas aumentam os preços e o povo aceita ou não. Se o consumidor aceita, o preço é aquele que a montadora pedir", explica Sérgio Reze, presidente da Fenabrave (Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos).

"O preço de lista -- sugerido, não obrigatório -- é definido pela montadora. Ele só é definido pelo consumidor quando o modelo não vende e o mercado não aceita o preço pedido", pondera José Luiz Vieira, consultor da Tech Talk.

IMPORTADAS
  • Com o aumento recente do número de concorrentes entre os sedãs médio-grandes, a Toyota resolveu baixar o preço pedido no topo de linha Camry XLE 3.5 V6 Automático. No lugar dos R$ 163.072, a montadora passou a pedir R$ 145 mil.
  • A alta competitividade entre os sedãs médios de luxo fez a sueca Volvo rever os preços do S40. A versão de entrada 2.4i passou de R$ 129 mil para os atuais R$ 119 mil.
  • No lançamento da nova geração da picape Frontier, que passou a ser montada no Brasil em vez de vir importada da Tailândia, a Nissan anunciou preços a partir de R$ 85 mil. Mas justamente esta semana, quando a Frontier chegou às lojas, o preço foi revisto: R$ 82.900.
  • Com a chegada do Volkswagen Jetta e a ascensão do sul-coreano Hyundai Azera, a Ford baixou um pouco o valor pedido na versão "top" do médio-grande Fusion, equipada com teto solar. Em vez dos R$ 87.155, a montadora sugere agora R$ 86.290.
  • A Mitsubishi parou a produção do utilitário-esportivo japonês Airtrek no fim de 2007. Mas o modelo, que ainda tem um lote de unidades à venda no Brasil, segue nas concessionárias empatado. Por isso, seu preço caiu de R$ 99.990 para R$ 89.990.
  • CUSTO/BENEFÍCIO À FRENTE
    Nas próximas semanas, portanto, é a relação custo/benefício dos importados que deve fazer a diferença. O recém-lançado Chevrolet Captiva, por exemplo, mal estreou e já provocou reações nos rivais. Trazido do México pela taxa de importação de simbólicos 0,1%, o SUV médio custa R$ 92.990 e R$ 99.990, nas versões com tração 4x2 e 4x4, respectivamente -- e vem equipado com o motorzão 3.6 V6 de 261 cv. São bem mais que os 175 cv do Hyundai Tucson 2.7 V6 4x4, o best-seller dos SUVs importados, vendido a R$ 104.970.

    A prova de que a diferença pesou contra o modelo sul-coreano é que informes publicitários anunciaram na última semana o Tucson V6 por R$ 83.490 -- consideráveis R$ 21.480 a menos que o valor "oficial". "O preço final de um produto está totalmente ligado ao nível de conteúdo, que envolve equipamentos, acabamento e motor", argumenta Hermann Mahnke, gerente regional de marketing e vendas da General Motors do Brasil.

    Outro modelo que causou impacto nos concorrentes foi o Honda CR-V. Importado do Japão até o fim de 2007, o SUV custava R$ 123 mil. Mas a Honda passou a fabricar o modelo no México. Assim, o CR-V mexicano vem agora em duas versões de acabamento e preços de R$ 94.900 e R$ 110 mil. Com isso, o arqui-rival Toyota RAV4 foi forçado a baratear. Antes vendido a R$ 129 mil, o utilitário teve seu preço reajustado recentemente para R$ 115 mil. E o recém-lançado Nissan X-Trail seguiu a receita. Anunciado por R$ 94.990, o utilitário importado do Japão teve seu preço reduzido para R$ 89.990 dias após estrear.

    Mas a fase de descontos permanece ameaçada. "Se o aumento do dólar persistir, os preços dos importados subirão e, conseqüentemente, haverá uma redução da demanda neste segmento. E há a questão da manutenção desses modelos, cujo custo também ficará maior", aponta Alexandre Andrade, economista da consultoria Tendências. (por Diogo de Oliveira)

    FESTA DOS MEXICANOS MUDOU A LÓGICA DOS PREÇOS
    A abertura do mercado brasileiro para modelos produzidos no México também causou impactos nos preços, sobretudo entre os veículos médios. De um ano e meio para cá, chegaram concorrentes diretos de modelos nacionais, como os Nissan Tiida e Sentra, os Volkswagen Bora e Jetta, além dos estilosos Chrysler PT Cruiser e New Beetle.
    A taxa de importação de simbólicos 0,1% tornou os preços dos novatos convidativos, forçando reajustes nos concorrentes nacionais. "Isso provoca uma reação em cadeia. Todos os veículos atingidos têm de reagir, com preços reposicionados de forma competitiva", aponta Sérgio Reze, presidente da Fenabrave.
    o caso do Renault Mégane. Vendido por R$ 55.490 em meados de 2007, o médio custa atualmente R$ 53.490 na versão de entrada 1.6 16V Expression. Já a Fiat preferiu jogar os preços do recém-lançado Linea para cima. O sedã médio custa a partir de R$ 60.900. "O posicionamento dos produtos é sempre feito de acordo com os concorrentes. E não só em relação aos preços, mas também promoções e conteúdo", explica Lélio Ramos, diretor comercial da Fiat.
    O principal sustentador dos preços dos mexicanos, porém, era o dólar estável e baixo. Uma realidade que pode estar prestes a mudar. Modelos como o PT Cruiser e o New Beetle, por exemplo, podem encarecer. O hatch médio retrô da Chrysler custava R$ 76 mil na versão básica Classic 2.4. Hoje, ainda sai por R$ 62 mil. Já o novo Fusquinha da Volks saía da revenda por quase R$ 100 mil, quando vinha da Alemanha. Atualmente, o New Beetle mexicano custa R$ 58.080.

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