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26/09/2008 - 21h52

Os caminhos da Índia: Mahindra e Tata puxam o país asiático

Da Auto Press, em Mumbai (Índia)

Nas ruas de Mumbai, ônibus, motos, carros e pedestres disputam espaço Foto: AFP (arquivo)

"A indústria automotiva mundial deveria olhar para a Índia e reaprender como desenvolver produtos". Dita no final do ano passado por Carlos Ghosn, o brasileiro que preside a francesa Renault, a frase tinha algo de profética. Várias notícias no setor neste 2008 surgiram na Índia. A mais impactante foi em janeiro, quando a Tata Motors apresentou o protótipo Nano, com preço estimado em US$ 2.500 (cerca de R$ 4.800). Já sua compatriota Mahindra ganhou destaque na mídia econômica ao desenvolver, com a serena obstinação da filosofia hindu, o processo de globalização de seus utilitários.

Em alta na imprensa mundial, até pouco tempo atrás a indústria automotiva indiana era a mais discreta dos chamados "Bric" -- acrônimo de Brasil, Rússia, Índia e China --, considerados por muitos economistas como as futuras potências mundiais. No início da década passada, apenas quatro marcas atuavam no mercado local: Tata, Mahindra, Hindustan e Premier.

ENTREVISTA: PAWAN GOENKA,
PRESIDENTE DA MAHINDRA
O grupo indiano Mahindra & Mahindra foi criado em 1945 para a produção de uma versão indiana do jipe americano Willys. Hoje desenvolve atividades que vão da tecnologia de informação à infra-estrutura, passando por equipamentos agrícolas e serviços financeiros. O setor automotivo, responsável por cerca de 60% dos US$ 6,7 bilhões que a empresa faturou no ano passado, é presidido pelo engenheiro mecânico Pawan Goenka. Ele começou na Mahindra há exatos 15 anos, após 14 anos de carreira na General Motors. Recentemente, elaborou acordos com a Renault -- a Mahindra fabrica na Índia o sedã Logan -- e com a Internacional Navistar, para a produção conjunta de caminhões no mercado local. Goenka é também presidente da SAE (Sociedade de Engenharia Automotiva) da Índia e reconhecido como um dos principais estrategistas do mercado automotivo indiano.
Qual são as prioridades no processo de expansão global da Mahindra?
Pawan Goenka - Inicialmente nosso foco são os novos mercados, como Brasil, Rússia e China, que juntamente com a Índia formam o chamado Bric. Nesses países, nossos utilitários podem ter utilização bastante semelhante à que temos na Índia. Mas acredito que, em sete anos, Índia, Estados Unidos e Brasil sejam os três mercados mais importantes para a Mahindra, nessa ordem. O mercado americano tem um potencial muito grande para nós, pois lá se vende mais da metade das pick-ups e utilitários esportivos comercializados em todo o mundo.
E que importância tem o Brasil dentro da estratégia da Mahindra?
Goenka - Há muita identidade entre o mercado brasileiro e o indiano. O Brasil é um de nossos focos principais, por isso estabelecemos essa parceria com a Bramont. Depois que se estruturar para atender a demanda do mercado local, a nossa idéia é que a Bramont funcione como uma plataforma de exportação e que os veículos Mahindra montados em Manaus abasteçam todo o Mercosul.
Por que a Mahindra se associou à Renault para a produção do sedã Logan, um veículo de passeio que está fora da especialização da Mahindra, que são os utilitários?
Goenka - É uma oportunidade de adquirir habilidades num segmento que não conhecemos tão bem. Uma empresa automotiva não pode descartar a possibilidade de vir a atuar em campos diferentes de sua especialidade. Além disso, a introdução do Logan em nossas linhas otimiza e ajuda a rentabilizar o processo produtivo na fábrica de Nasik, de onde também saem a linha Scorpio e o Bolero.
Quais serão os próximos produtos Mahindra no mercado mundial?
Goenka - Depois que o MPV Ingenio for apresentado na Índia, pretendemos lançá-lo em outros países, inclusive no Brasil, a partir do próximo ano. Em 2010, lançaremos um novo utilitário esportivo, que certamente também chegará ao mercado brasileiro.
Qual a sua avaliação das atuais transformações no mercado automotivo mundial?
Goenka - Em todo o mundo, o consumidor já não aceita qualquer tipo de automóvel. Cada vez mais pessoas tem algum nível de preocupação ambiental, o que vai ocasionar algumas mudanças na produção de automóveis em todo o mundo. Veículos grandes tendem a dar lugar para modelos menores. Combustíveis alternativos, com menores índices de emissões, vão ganhar cada vez mais espaço. Tais mudanças talvez representem uma oportunidade para uma empresa ágil como a Mahindra. Ainda não atingimos 0,5% de participação no mercado automotivo global, mas temos condições de crescer bastante.
Foi a entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC), em janeiro de 1995, que mudou o cenário das ruas. Mudou tanto que muitos analistas já chamam esse mercado emergente de 1,1 bilhão de pessoas, 25% das quais estão abaixo da linha de pobreza, de próximo megamercado mundial, após a China.

Ver as poderosas marcas globais brigando pelo consumidor local -- atualmente o campeão de vendas é o Hyundai I10 -- inspirou as fabricantes indianas. "Nossos engenheiros e projetistas fizeram o melhor que puderam nos últimos quatro anos para que pudéssemos chegar ao Nano", afirma Ratan Tata, dono da Tata Motors. Após o lançamento na Índia, previsto para 2009, o badalado carrinho "ultra low cost" pode chegar à Europa em 2012, em sua segunda geração, que deve ser adequada às normas do continente.

"Talvez o nosso próprio carro de baixo custo para a Europa possa vir a ser produzido na Índia", ponderou o presidente mundial da Fiat, Sergio Marchionne. No último dia 21, ele estava em Nova Déli para tratar da retomada da parceria estratégica com a Tata, com quem a marca italiana já possui uma joint-venture numa fábrica de automóveis e motores na cidade indiana de Ranjagaon.

SABER FAZER BARATO
Atenta ao impacto do Nano, a fabricante indiana de motocicletas Bajaj criou com a Renault/Nissan outra joint para a criação de um modelo no mesmo segmento. A expertise em veículos baratos é explicável pelas características do mercado local. E se torna evidente para quem circula por Mumbai, a cidade mais populosa do mundo, com cerca de 20 milhões de habitantes, antigamente chamada de Bombaim. No caótico trânsito da megalópole, milhares de triciclos motorizados e cobertos (espécie de riquixás com motor) servem de táxi e disputam as esburacadas ruas com muitos carros novos e outros tantos caindo aos pedaços, uma quantidade assustadora de motocicletas, e ainda com as onipresentes multidões de pedestres. Além, é claro, das vacas, que circulam lampeiras pelas ruas do centro, talvez cientes de seu status de animal sagrado da religião hinduísta.

O baixo poder aquisitivo da maioria da população, a restrição de espaços nas grandes cidades e a brutal vendagem de veículos de duas rodas na Índia (são cerca de 7 milhões por ano) justificam o apelo dos automóveis baratos, compactos e que sirvam de primeiro carro para o imenso contingente de motociclistas. A mão-de-obra local, farta e barata, é intensivamente treinada para aliar baixos custos de produção com qualidade.

UTILITÁRIOS
Mas nem só de compactos de baixíssimos custos vive a boa fase da indústria automotiva indiana. Os robustos utilitários da Mahindra, após décadas restritos ao mercado local, nos últimos anos encaram a árdua trilha da globalização. Primeiro foram os mercados do Sudeste Asiático e da África. Depois, desembarcaram em países da antigo bloco soviético e da América Latina, como Chile e Uruguai, e na Austrália. A seguir, foi a vez de vender na Itália, França e Espanha -- o lançamento em Portugal e Turquia está previsto para breve.

No fim do ano passado, a Mahindra começou a montar no Brasil as picapes e o utilitário esportivo da linha Scorpio -- em parceria com a empresa brasileira de montagem Bramont, sediada na Zona Franca de Manaus. Após lançar outra linha no Egito, agora estuda seu desembarque nos Estados Unidos, em 2010, e na China. Ao mesmo tempo, acaba de comprar a marca indiana de motocicletas Kinetic e, em dezembro, lança o Ingenio, um veículo de múltiplo propósito com oito lugares. "Os concorrentes chineses oferecem preço. Nós oferecemos preço, qualidade, a boa reputação de nosso produto e um bom relacionamento com o consumidor", valoriza Anand Mahindra, vice-presidente e diretor executivo do Grupo Mahindra. (por Luiz Humberto Monteiro Pereira)

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