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13/09/2008 - 12h07

Transportadoras decretam fim da era do caminhoneiro 'tosco'

Da Auto Press
Foi-se o tempo em que o caminhoneiro era um mero condutor de veículos de carga. Hoje, para ser motorista de caminhão profissional, é preciso ser um especialista. A razão é simples: os caminhões estão cada vez mais sofisticados e custam verdadeiras fortunas. São bens de capital, que em alguns casos chegam ao preço de R$ 500 mil. Além disso, dependendo da carga, os caminhoneiros atravessam o país com centenas de milhares de reais nas costas. Isso por um salário médio de R$ 3.000 a R$ 4.000.

"A eletrônica embarcada é cada vez maior, e os frotistas ainda colocam um monte de aparelhos de aferição. Só que grande parte dos caminhoneiros não está preparada para operar estes instrumentos", observa Silvio Fedele, gerente de pós-vendas e desenvolvimento da rede de distribuidores da Ford Caminhões.

Henrique Manreza/Folha Imagem

Empresas já limitam horas de vigília do motorista; em alguns casos, mulher pode viajar junto


Daí a falta de motoristas qualificados no mercado. As exigências sobre os caminhoneiros nas transportadoras não param de crescer. Além de muito treinamento, o condutor de caminhão moderno precisa ter um ambiente familiar saudável, conhecer bem a logística das viagens e ter um comportamento prudente ao volante. Tudo é monitorado. Equipamentos eletrônicos, como rastreadores via satélite e telefones celulares, levam informações das estradas para os escritórios em tempo real.

"Nossos motoristas participam de reuniões e são consultados sobre os riscos de cada trajeto a ser percorrido", afirma Iricê Andrade, diretora de operações e logística do grupo paulista Júlio Simões, especializado no transporte de materiais como aço e autopeças.

No recrutamento da transportadora, os candidatos fazem cursos intensos de pilotagem e de controle operacional, testes psicológicos, exames médicos e até entrevistas com familiares para verificar se o seu dia-a-dia com mulher, filhos e parentes é "saudável". A empresa tem uma escola de formação de motoristas, onde há aulas de pilotagem dos caminhões e até de ergonomia.

CARGA PESADA
Nas médias e grandes transportadoras brasileiras são investidos entre 1,5% e 2% do faturamento total por ano em segurança e no treinamento de motoristas. Só o grupo Júlio Simões, que tem 3.500 veículos na frota, arrecadou R$ 1,85 bilhão em 2007.
Como estímulo, a Cargolift passou a permitir que os caminhoneiros da empresa levem suas mulheres nas viagens mais longas, quando ficam muitos dias sem passar em casa. A empresa também investe em mini-hotéis para o repouso dos funcionários.
Os motoristas da Concórdia Transportes Rodoviários que completam 8 milhões de quilômetros rodados sem sofrer acidentes são premiados com um carro popular 0KM. Segundo a empresa, a iniciativa tem reduzido o número de ocorrências.
A idade média da frota brasileira de caminhões ainda é bastante elevada: 18 anos. "O estranho no Brasil é o governo cobrar impostos maiores para os caminhões novos, em vez de elevar as taxas dos veículos mais antigos e estimular a renovação", aponta Umberto de Pretto, vice-presidente da União Internacional de Transportes Rodoviários (IRU).
Cerca de 85,5% dos acidentes nas rodovias européias envolvendo caminhões são causados por erro humano ao volante. Só que aproximadamente 75% dessas ocorrências são causadas pelos veículos de passeio.
Já em outras companhias, como a curitibana Cargolift Logística, até as horas de sono são monitoradas. "Admitimos, no máximo, 18 horas sem dormir. Depois disso, todos os nossos motoristas são obrigados a descansar", garante Markenson Marques, presidente da empresa. A idéia é impedir que os motoristas usem drogas, como os conhecidos "rebites", para ficar acordados durante longas viagens.

ACIDENTE CUSTA MUITO CARO
Se a carga for perigosa -- produtos químicos ou inflamáveis, por exemplo --, o cuidado com o preparo dos condutores é ainda maior. Para cargas dessa classe, é preciso ter habilitação especial, obtida com cursos específicos de direção defensiva e procedimentos de segurança.

Também é obrigatório carregar o kit EPIs (sigla de Equipamentos de Proteção Individual), contendo instrumentos como luvas, óculos, calçados, respiradores, vestimentas protetoras, cremes, rótulos de risco, placas de sinalização, entre outros.

"Um acidente grave com danos materiais não custa menos de R$ 100 mil. Por isso, temos critérios rigorosos de admissão. Apenas um em dez candidatos a motorista é aprovado", afirma Benedito Telles Santos, diretor operacional da Concórdia Transportes Rodoviários, especializada no transporte de cargas perigosas.

Mesmo as montadoras já possuem cursos voltados para caminhoneiros e mecânicos. A Ford, por exemplo, oferece aos transportadores-clientes o programa Treinamento ao Frotista. Nele, técnicos da marca dão aulas de condução econômica e de segurança, além da apresentação dos principais itens do caminhão. "O mercado de caminhões está tão aquecido que já temos cursos agendados até janeiro de 2009", aponta Silvio Fedele, da Ford.

Já a Volvo lançou recentemente o TransFormar, programa de treinamento para motoristas que também busca auxiliar as transportadoras a melhorar o nível técnico dos profissionais. "É um problema sério. Faltam motoristas qualificados no país. Com esse treinamento, ajudamos no ingresso de melhores profissionais no mercado", diz Bento Albuquerque, responsável pela área de treinamento de motoristas da Volvo. (por Diogo de Oliveira)

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