UOL Carros
 
29/07/2008 - 14h36

Na comparação com Gol 1997, novo Gol mostra evolução 'classuda'

EUGÊNIO AUGUSTO BRITO
Da Redação
A proposta era clara: rodar com o novo Gol durante o final de semana, sair para todo canto da cidade de São Paulo, com o modelo (o mesmo 1.6 Trend avaliado por UOL Carros na última semana) e compará-lo com o carro que eu tenho em casa, um Gol Mi 1997, também 1.6, a gasolina. Na prática, eu colocaria lado a lado um representante da segunda geração da linha -- um típico "Gol bola", resultado da primeira grande alteração feita pela Volkswagen --, e aquele que é chamado pela fábrica de quinta geração, mas que de fato marca a segunda grande mudança do carro campeão de vendas. Eu só não sabia se iria encontrar mais desafio ou mais prazer nesta tarefa.

Foto: Eugênio Augusto Brito/UOL

O Gol lá de de casa (esq.), cheio de penduricalhos, ao lado do novo Gol, recheado de opcionais


Antes de qualquer coisa sobre o que encontrei, explicações: o Gol de casa é um carro familiar, no melhor sentido da palavra. Durante a semana, serve minha tia em sua jornada de professora, auxilia minha vó em algumas idas ao mercado e ainda quebra alguns galhos de outro tio. Aos finais de semana, agüenta minhas saídas e algumas viagens. Tem todas as características que marcam o Gol. Já me deixou na mão algumas vezes -- parou duas vezes no meio do caminho com a ventoinha quebrada, outra com pane seca (eu ainda não estava acostumado com o fato do painel não avisar com luzes que você entrou na reserva), e ainda teve as rodas do lado direito roubadas durante um show de rock (o que não é culpa direta da mecânica do carro, mas sim de seu apelo público, digamos). Mas também salvou minha pele em algumas ocasiões e me carregou sem vacilar em diversas viagens. Apesar disso, até está conservado para um carro que chegou aos 11 anos de idade -- tem apenas 57 mil km no marcador (arredondados para cima).

Chega de enrolação. Meu primeiro contato foi com a traseira e o lado direito do novo Gol, o lado do carona. O carro realmente ficou mais bonito, ganhou porte, mas ainda é claramente (na minha opinião)... um Gol. Vidro traseiro de pequenas dimensões e grande inclinação, linhas do porta-malas acabando sobre o pára-choque e internas às lanternas, tamanho dos retrovisores e até a acomodação no banco do passageiro mostram que houve uma evolução e maior refino no padrão de acabamento. Dando a volta, vi que a frente foi o que mais mudou. Para mim, é o que mais agrada no carro.

As coisas parecem ter mudado mais para o motorista. Lembrando sempre da ressalva de que diversos itens são opcionais, me surpreendeu o ajuste de altura do banco, que, junto com a maior altura do carro como um todo, acabou com a sensação que tenho, no Gol lá de casa, de que estou me escondendo dentro de um tanque de guerra ou coisa parecida. A posição elevada ficou muito parecida com a do VW Fox (mesma plataforma) ou do Fiat Idea, o que suspendeu (durante o teste) o complexo de inferioridade que eu sentia ao cruzar com algum destes veículos.

Ao mexer no banco, porém, arrumei outro problema, pois não conseguia enxergar os mostradores do topo do painel. Isto foi corrigido com o ajuste da altura do volante (não mexi na profundidade da coluna de direção), o que me fez lembrar da minha tia, que parece ainda menor ao volante do Gol 1997 e que ficaria mais à vontade, imagino, no modelo atual. O câmbio ficou mais curto e com engates mais precisos, o que me agradou muito -- a luta para posicionar primeira e quinta marchas são freqüentes no carro de casa -- e a iluminação geral do painel, em azul e vermelho, facilitam muito a leitura, em contraste com o cansativo verde-fósforo (como nas telas de computador da década de 80) do Gol antigo.

Mas o principal é que senti ter ganhado mais espaço para as pernas (tenho 1,80 m de altura), fruto das já tão alardeadas nova posição do motor (agora transversal) e da eliminação da 'entortada' na direção. Na prática, dobro menos o joelho, que também esbarra menos na porta e no console central. E também me senti melhor acomodado no banco, que parece abraçar mais o motorista. O fato é que, ao fazer curvas, quase não precisei me segurar -- algo que estou acostumado a fazer no Gol 1997.

Foto: Eugênio Augusto Brito/UOL

Linhas do Novo Gol: evolução com classe do Gol bola
PORTA-OBJETOS CONTROVERSOS
Ainda no quesito conforto, gostei, mas com ressalvas, da disposição e tamanho dos porta-objetos. Na porta, eles estão claramente menores. O banco do carona contava com um que não há na versão lá de casa, mas também não é dos maiores. O porta-luvas tem proporções semelhantes, mas agora se desloca de forma diferente, uma gaveta basculante, enquanto no Gol 1997 era basicamente um cavidade com porta. O ponto realmente negativo está na falta de um compartimento mais bem fechado no console central, como tenho no Gol "bola" (deixo lá a chave do portão de casa, por exemplo). Há uma bandejinha e uma gaveta logo acima, ambas sem tampa. O positivo está no porta-copos -- na verdade, são dois, à frente do câmbio -- que agora realmente comporta copos e pequenas garrafas. Perdi a conta de quantas vezes molhei o piso do meu Gol numa acelerada.

FINALMENTE, RODANDO
Ao engatar o carro e pisar no acelerador, surpresa! Não houve qualquer resistência, o novo Gol deixou a dureza para trás. Os pedais se mostraram macios enquanto o ponteiro da velocidade subia. O problema é que eles estão numa posição mais elevada, e isso me cansou após horas dirigindo.

Foi embora também todo ruído do motor, do ventilador do motor e do ar entrando por algum lugar ou zunindo na carroceria do carro e do escapamento. Isso me dá uma certa "sensação de movimento" no Gol 1997, mas me incomodava muito em viagens ou em momentos em queria voltar no sossego para casa. O novo Gol se mostrou pacífico neste quesito, o que aumenta, e muito, a sensação de conforto e de bom acabamento.

Mas o que mais me surpreendeu -- e que também pode decepcionar alguns motoristas (tem gosto para tudo) -- foi que o novo Gol não "pula" mais nas aceleradas. Pisei de leve no começo e ele apenas avançou. Depois de algum tempo, acelerava com maior disposição e o carro mantinha o nariz na mesma altura, sem empinar como um cavalo enquanto ganhava velocidade. Foi embora também aquilo de ter de meter o pé no assoalho para o carro se mexer. Nesses dois pontos, o novo Gol não ficou nada parecido com o velho Gol.

FICHAS EM CONFRONTO*
Potência:
Novo Gol: 101 cv a 5.250 rpm (motor flex VHT 1.6 com gasolina)
Gol 1997: 90,5 cv a 5.500 rpm (motor AP 1.600 a gasolina)
Torque:
Novo Gol: 15,4 kgfm a 2.500 rpm
Gol 1997: 13,7 kgfm a 3.500 rpm
Preço estimado:
Novo Gol: entre R$ 34.005 e R$ 50.760
Gol 1997: R$ 17.000 (1997); R$ 12.614 (Fipe 2008)
*Válido para os modelos apresentados
FICHA COMPLETA DO NOVO GOL
CADÊ VOCÊ?
Mas aí tomei meu primeiro susto, e por conta da visibilidade. Me habituei a ter de me mexer no banco do Gol lá de casa para superar alguns pontos cegos à frente, no lado esquerdo, devido à enorme coluna. Pois o problema piorou no novo Gol, e também tive de me sacudir para enxergar à direita. Quanto aos retrovisores, então, sufoco constante. O vidro traseiro ficou ainda menor (fiz uma medição às pressas, com fita métrica, e obtive algo em torno de 0,99 m x 0,33 m com diagonal de 0,98 m para o novo Gol, contra 1,03 m x 0,50 m com diagonal de 1,02 m para o Gol 1997). Isso, somado à inclinação maior e à presença dos encostos do banco traseiro, que não existem no Gol de casa, deixou praticamente impossível manobrar com segurança total em marcha à ré. Fiquei sempre com aquela incerteza, aquela sensação de que iria atropelar algo fora do campo de visão. Isso existe, mas em proporção bem menor, no Gol antigo.

Nos espelhos laterais, minha preocupação cresceu. Eles decididamente não dão conta do tamanho do veículo, e tive de apelar: mantive uma regulagem mais aberta para trafegar e outra, mais focada na lataria, para estacionar. Ainda assim, tive de me desculpar com dois motoboys, que quase atropelei na avenida Radial Leste, e com um motorista, em quem quase esbarrei na avenida 23 de Maio. Nunca passei por nada assim com o carro de casa.

O consumo também me incomodou. Se foi positivo contar com o motor flex e poder escolher entre abastecer com álcool ou gasolina, notei que o novo Gol bebe ligeiramente mais que o modelo 1997. Tanto que, mesmo tendo iniciado o fim de semana com o tanque cheio e previsão do computador de bordo para cerca de 340 km (o tanque tem capacidade para 55 litros), tive de passar no posto de combustível na noite de domingo (preferi o menor preço do álcool), tendo rodado pouco menos de 300 km (o que fez com o que o irritante apito que avisa quando se está na reserva não parasse, mas pensei que isso pelo menos evitaria que eu parasse sem combustível, como já ocorreu com o Gol antigo).

BOM DE BURACO, RUIM DE LOMBADA
O carro até que se saiu bem no teste das ruas de São Paulo. No geral, fiquei com a sensação de que o Gol atual é bom de buraco e ruim de lombada. Rodou suave nos trechos em geral, sem passar para a carroceria qualquer incômodo na maioria dos buracos e valetas. Mas pulava muito nos quebra-molas. Comportamento oposto tem o Gol lá de casa, que passa tranqüilo por lombadas -- porém, por ser mais duro, oscila muito e sacode os passageiros nas alterações do piso.

Acabei pegando um pouco de estrada também, rodando cerca de 60 km pela rodovia Ayrton Senna, e gostei do que vi. Ou melhor, do que não ouvi. Pisei fundo, subi até a quinta marcha, o ponteiro da velocidade pulou até os 120 km/h e nada de o motor berrar. O conforto também foi gigante, sem qualquer indício de que o mundo passava mais rápido do lado de fora -- nada de vento pelas frestas, assovio dos outros veículos ou coisa do gênero. Nesse mesmo trajeto, o Gol 1997 estaria roncando como um carro turbinado, e a lataria rangendo como um pipa na ventania -- em uma ocasião, cheguei a 140 km/h com o carro de casa e achei que ele desmontaria. Com o modelo atual, só não acelerei mais por conta do limite de velocidade, mas fiquei com a boa impressão de que o carro estava sobrando.

Foto: Eugênio Augusto Brito/UOL

Novo Gol atraiu olhares e agradou, mas também foi confundido com o Polo em um estacionamento
60 HORAS COMO CELEBRIDADE
No final das contas, ao entregar as chaves na segunda-feira, 60 horas depois do primeiro contato e com quase 300 km rodados, fiquei com a impressão de que o novo Gol é um carro mais confortável e estável que a geração anterior. Mas a visibilidade precisa ser revisada (o consumo elevado talvez seja resultado do motor não amaciado).

O principal foi a sensação de se estar num carro classudo, com posição elevada de dirigir, sem o impacto do exterior dentro da cabine, e com visual atraente. O carro chamou a atenção de muita gente e, inevitável, foi como se todos os olhos estivessem sobre mim.

Com apenas 3 km rodados, na noite de sexta-feira, na descida da rua da Consolação, fui "flagrado" por um ônibus todo -- passageiros e o cobrador se jogaram para o lado direito do veículo, muitos com o rosto colado na janelas. Mais abaixo, no sinal fechado, o motorista de um Fox prata mirou o carro de ponta a ponta com os óculos baixados. No sábado, na avenida Aricanduva, o motorista de um Peugeot 106 fez cara de inconformado. Olhou a porta, olhou o retrovisor, viu um dos faróis, coçou a cabeça e abaixou o vidro. "É o novo Gol?" Com minha resposta positiva, sorriu escancaradamente e fez sinal de "jóia" com a mão esquerda. "Está muito bonito."

Bastava parar nos cruzamentos e ficar de olho nos retrovisores para ver diversos motoristas apontando para os passageiros o que viam e achavam do carro. Na marginal Tietê, temi ao ver o condutor de uma ambulância sair da pista expressa para a local sem olhar para o tráfego -- ele tinha olhos apenas para o novo Gol. Na rua de casa, uma vizinha que nunca falou comigo acenou com a cabeça.

E, num estacionamento, ao registrar o veículo, o responsável pelo local não soube o que digitar, mas não se fez de rogado. Olhou, olhou e, sem perguntar ou dar o braço a torcer, colocou "Polo (placa) GOL4505". O marketing da Volkswagen vai gostar de saber dessa.

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