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25/07/2008 - 22h46

Falta de segurança faz do brasileiro presa fácil para blindadoras de automóveis

Da Auto Press
Quando se trata de violência, o Brasil bate recordes. Tanto nas taxas de criminalidade quanto em sua prevenção. Por conta do número de assaltos de norte a sul do país, o segmento de blindagens ganhou força, especialmente nos últimos anos. A procura pelo serviço aumentou 13% em 2007, e a expectativa para este ano é de 16%. Só para se ter uma idéia, em 1995, a produção anual não chegava a 400 unidades. No último ano, o número ultrapassou 5.300 veículos.

Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Noticias



"O Brasil é o maior mercado do mundo em número de blindados e o crescimento no setor acompanha a economia. Não é um crescimento vertiginoso, mas é significativo. A tendência é que este número aumente nos próximos anos", analisa Alexandre Ret, presidente da Câmara de Blindados da Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin).

Embora a concentração de blindados esteja mais presente nos Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo -- que representam respectivamente 28% e 40% do mercado --, regiões como o Nordeste e o Sul tendem a ser zonas de investimento das blindadoras. A crescente violência em capitais como Recife, Fortaleza e Belém, por exemplo, estimula a procura por veículos seguros. Ou seja, é um mercado nos quais as razões variam de região para região.

"No Ceará existe muito seqüestro. Já em São Paulo, Pernambuco e Bahia, os clientes procuram por conta dos assaltos nos sinais, com o carro parado. No Rio existe um motivo muito exclusivo: a bala perdida", ressalta Paulo Júdice, diretor técnico e engenheiro da Piquet Blindagens.

PROCURA DOBRA EM 2 ANOS NO RJ

O que mudou foi o perfil do público que procurava pelo serviço. É verdade que a blindagem ainda não se popularizou em grandes proporções. Entretanto, não é mais estranho encontrar carros médios nas oficinas de blindagem. O Toyota Corolla é o campeão de blindagem nos últimos dois anos, segundo a Abrablin. A classe média-alta está atenta e procura pela segurança.

"Hoje já temos uma procura de carros que custam R$ 40 mil, por exemplo. Não é mais uma realidade exclusiva dos modelos de luxo", comenta Alfredo Dias Cardoso, diretor técnico e comercial da Oregon Blindados.

Outro motivo que leva a classe média e média-alta ao mercado de blindados é a facilidade na aquisição do serviço. Já é possível financiar o carro blindado ou comprá-lo usado. "A blindagem ainda é um serviço caro, mas acredito que o financiamento pode ser um fator do crescimento da procura", acrescenta Paulo Júdice. Com isso, uma nova tendência começa a surgir no mercado automotivo. Atualmente, os usuários majoritários não são mais as celebridades ou políticos, e sim empresários e executivos em busca de segurança pessoal.

Rodrigo Paiva/Arquivo Folha Imagem 
O tricampeão de Fórmula 1 Nelson Piquet na inauguração de sua empresa de blindagem de automóveis em São Paulo. Clientes vêm do Rio, Pernambuco e Bahia, além de São Paulo
A despeito do constante crescimento, o mercado de carros à prova de bala acompanha inevitavelmente as estatísticas da violência. As pessoas resolvem se proteger e procurar a blindadora principalmente quando acontecem casos próximos ao seu dia-a-dia.

"Temos picos de pedidos com os crimes que têm destaque na mídia. Em fevereiro do ano passado, com o caso do menino João Hélio no Rio, recebemos 40 carros em um único mês. Este mês tivemos novamente muitos pedimos por conta do assassinato do menino João Roberto, na Tijuca, também no Rio", comenta Phillipe Balbi, proprietário da Safe Guard. A procura também aumenta quando novos modelos são lançados ou substituídos pela linha do ano seguinte.

Em busca de segurança total, os consumidores que blindam seus veículos utilizam geralmente o nível III-A -- o mais procurado em território nacional -- que suporta ataques com pedras e ferro, além balas com calibres 22 e 38, e de armas como Magnum 357, pistolas 9 mm, Magnum 44 e submetralhadoras Uzi, que, segundo pesquisas, são mais utilizadas.

ACELERADAS
O Toyota Corolla, o Land Rover Freelander e o Toyota Hilux SW são os atuais campeões de blindagem. No segundo semestre de 2007, os veículos foram os primeiros colocados da lista dos mais blindados do país.
Homens entre 40 e 49 anos são 65% dos usuários de carros blindados.
Para blindagens acima do nível III-A, o motorista deve pedir uma autorização ao Exército Brasileiro e provar que tem necessidade de ter o veículo tão protegido.
Ao todo, 22 blindadoras são filiadas à Abrablin e estas associadas correspondem a 70% da participação do mercado.
Em tese, qualquer veículo pode ser blindado, mas as blindadoras aconselham que a potência mínima do veículo seja de 130 cv.
Na região Sul, no Paraná e Rio Grande do Sul, o mercado de blindados cresce aos poucos e chega, respectivamente, a 7% e 6% do total brasileiro.
Empresários e executivos somam 35% do público que blinda veículos.
O valor médio da blindagem no Brasil é de R$ 55 mil. Normalmente, o veículo fica pronto em 35 dias.
"Não existe meio tiro. Ou você está seguro ou não está. Por isso, pelo histórico de violência nas cidades, usamos este nível na maioria das blindagens", explica Cláudia Candido, diretora de marketing do Grupo Inbrablindados.

A manutenção é outra etapa bastante importante para os encouraçados sobre rodas. É imprescindível fazer a revisão de diferentes itens da carroceria do veículo e verificar possíveis delaminações nos vidros, quando as camadas de um vidro resistente a impactos se descolam. "As revisões periódicas fazem com que a qualidade dos serviços prestados sejam permanentes garantindo a segurança dos ocupantes do veículo", diz Dinah Setton, diretora de marketing da Master Blindagens.

Em termos de tecnologia, as blindadoras têm procurado materiais mais leves, que diminuam o peso do carro, para que ele não perca tanto em desempenho. A fibra sintética aramida, por exemplo, vai ocupando o lugar da chapa de aço. E os vidros tendem a ficar mais finos e menos pesados. De qualquer forma, a blindagem acarreta na perda da originalidade do veículo. "As desvantagens são as transformações que implicam em peso maior e perda de desempenho. Mas o cliente que busca o serviço sabe disso, e é algo que acaba compensado com a segurança", valoriza Alexandre Ret, presidente da Câmara de Blindados da Abrablin.

PELO MUNDO
Enquanto no mercado brasileiro o nível III-A é o mais utilizado, o mesmo não acontece no exterior. Nos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, por exemplo, o perfil dos usuários de veículos blindados fica praticamente restrito a políticos ou milionários famosos. Como as armas utilizadas também são um pouco diferentes, os carros são protegidos no nível III, que suporta fuzis M16, 7.62, AK 47, AR 15 e FAL (Fuzil de Assalto Leve). Os Estados Unidos, aliás, exportam serviço para o Oriente Médio, onde são comuns bombas e arsenais pesados de guerra.

A África é outro mercado em crescimento. Lá acontecem casos semelhantes aos do Brasil. A riqueza concentrada de uns e a pobreza da maioria gera violência urbana, e a procura pela blindagem acompanha esse ritmo.
(por Karina Craveiro)

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