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20/05/2008 - 14h19

Montadoras se viram para produzir mais carros

Da Auto Press
As notícias que pipocam no universo automotivo parecem a reprise de um filme. Abertura de novos turnos, expansão de fábricas, transferência de linhas de montagem, anúncio de investimentos. Soluções a que a indústria recorre cada vez mais para tentar se adequar ao ritmo frenético do mercado interno brasileiro. Com as vendas quebrando recordes a cada mês e sem a construção de novas fábricas, o jeito é otimizar a produção ao máximo. Até porque o setor ainda tem algumas gordurinhas localizadas.

A capacidade instalada da indústria automobilística hoje é de 3,8 milhões de unidades/ano, e as previsões mais otimistas para 2008 apontam produção de 3,3 milhões. Mas o sinal está no amarelo. As filas de espera confirmam os temores. Em alguns casos, é preciso aguardar 180 dias para ter o carro zero na garagem. Os economistas e estudiosos comentam que a hora de fazer investimentos maciços -- leia-se, novas plantas e expansão de fábricas -- é quando o grau da capacidade fica comprometido em cerca de 90%.

"Estamos perto desse momento. Será necessário fazer investimento alto para aumentar a capacidade de produzir", diz o economista Julio Gomes de Almeida, consultor do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

Executivos de montadoras, porém, garantem as aplicações. As estimativas do setor apontam para investimentos no Brasil de cerca de US$ 5 bilhões em 2008; no ano passado foram US$ 2,1 bilhões. "É preciso desmistificar a questão da capacidade. Estamos em crescimento forte, mas os investimentos também estão crescendo", garante Rogélio Golfarb, diretor de assuntos corporativos da Ford e ex-presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

De qualquer forma, as montadoras tratam de se antecipar. Nos últimos tempos elas têm adotado um terceiro turno nas unidades. A General Motors fez isso em São Caetano do Sul (SP), assim como a PSA Peugeot Citroën, em Porto Real (RJ), e a Honda, em Sumaré (SP). A decisão não depende só das marcas, já que os fabricantes de autopeças precisam ampliar o fornecimento. "Aumentar a produção de um modelo exclusivamente brasileiro é mais complicado. Com os carros 'globais' é possível importar peças", aponta o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive.

RÁPIDAS
Além de aumentar a capacidade da fábrica de motores em Taubaté, a Ford vai desenvolver uma nova linha de propulsores na planta.
A Renault é uma das poucas fabricantes com sobras na linha. Na planta de São José dos Pinhais (PR), a capacidade total é de 250 mil unidades, mas atualmente são fabricados 120 mil carros por ano.
O plano de investimento da Fiat para o Mercosul, que reúne investimentos de R$ 5 bilhões, prevê a expansão da capacidade instalada da montadora para 1 milhão de unidades por ano, até 2010. A planta de Betim, ainda este ano, deve passar dos 700 mil veículos anuais para 800 mil.
A Nissan tem um plano de negócios chamado SHIFT Mercosul, que prevê o lançamento de seis novos modelos até 2009, além da duplicação da rede de concessionárias no Brasil e de investimentos na ordem de US$ 150 milhões.
Um Product Plan - ou plano de produto - de um automóvel toma dez anos e inclui reestilizações, novos motores, versões de acabamento para depois que o modelo for lançado no mercado.
O "novo" Ford Ka tem tempo de produção 26% mais curto que o modelo anterior.
Aumenta onde dá
As próprias fabricantes de automóveis expandem outros ramos. A Ford, por exemplo, anunciou investimento de R$ 600 milhões para ampliar a produção de motores em Taubaté (SP), de 280 mil/ano para 500 mil/ano. A Volkswagen também vai desembolsar R$ 123 milhões para ampliação da unidade de propulsores em São Carlos (SP), de 1.800 para 2.700 unidades por dia. E a Fiat adquiriu a fábrica de motores da Tritec no Paraná, e a GM vai erguer uma planta também só para propulsores em Joinville (SC).

Mas vale tudo para abrir espaço na linha de produção. A Ford traz parte dos motores Rocam 1.0 e 1.6 da África do Sul. A Fiat transferiu a pintura da Fiorino de Betim para Sete Lagoas e já prepara a ida do Siena para sua unidade em Córdoba, na Argentina. Para o país vizinho a Renault também tratou de mandar a linha Clio, à planta de Santa Isabel. Outros processos, como montagens de painel, por exemplo, também são deslocados para outras fábricas ou para as plantas dos próprios fornecedores.

Turnos e transferências de linhas, porém, acabam tendo resultados, por vezes, paliativos. O aumento da produção não é tão significativo, e as montadoras acabam apenas minimizando as filas. Afinal, 50 mil unidades a mais no ano num setor em ebulição como o brasileiro não vai, realmente, fazer ninguém ganhar mercado. Para isso, só mesmo expansão e criação de novas fábricas.

A Toyota sinaliza uma nova unidade para 2010, a Honda quer aumentar Sumaré para fazer o Fit sedã, a Fiat vai ampliar Betim para a produção do Bravo no ano que vem, e a GM deve fazer o mesmo em Gravataí. "É fundamental que o mercado interno continue fortalecido, pois a manutenção da escala de produção em níveis elevados é o que garante a atração dos investimentos necessários", avisa Cledorvino Belini, presidente da Fiat América Latina.

Passado teve tropeços
A cautela excessiva das montadoras com relação a investimentos pesados encontra razões num passado nem tão distante. Em 1997, o mercado brasileiro bateu recordes e fez muito fabricante crescer o olho no país. Tanto que montadoras como Renault, PSA, Honda e Toyota ergueram fábricas por aqui, ávidas por um mercado interno de autos que atingiu 1,94 milhão de unidades. Mas o setor desaqueceu na seqüência. Para se ter uma idéia, só no ano passado o recorde de 1997 foi quebrado.

A inconstância do crescimento é chamado pelos especialistas como "stop and go". Ou seja, em um ano o setor avança, no outro recua, sem manter o ritmo de evolução. Isso inibe os investidores. "Não vamos esquecer que a indústria investiu muito em meados dos anos 90 e amargou uma capacidade ociosa durante muito tempo. Mas acho que nosso mercado interno consumidor vai se estabelecer", avalia Julio Gomes de Almeida, consultor do Iedi.

"A estabilidade, combinada com crescimento econômico, aumento da renda e confiança do consumidor tem contribuído para fortalecer a perspectiva de consolidar uma produção total de 5 milhões de veículos nos próximos três anos", encerra Belini.

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