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30/04/2008 - 17h28

Compactos supercompletos passam médios no preço

Da Auto Press
A lógica do mercado normalmente é direta. Quanto maior o produto, mais caro ele é. Mas, na cartilha dos negócios automotivos brasileiros, esta premissa nem sempre funciona. Basta equipar alguns modelos compactos com diversos opcionais. Em muitos casos, os automóveis pequenos passam a ter um preço próximo, ou até mais alto, que o de automóveis superiores. Ou seja: paga-se menos por um médio com mais espaço, requinte e itens de conforto.

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Fotos: Divulgação


Volkswagen Polo Comfortline (sedã), compacto, sai por R$ 61.910


Volkswagen Bora, médio e mais completo, custa R$ 60.390
Compactos desse tipo, bem recheados e com preços salgados, existem por dois motivos. O primeiro, claro, é porque há quem os compre -- poucos, diga-se de passagem. O outro é que, para as montadoras, esses compactos recheados desempenham uma importante função de vitrine de mercado. "O maior volume de vendas não está concentrado nesses veículos, mas a montadora mostra que tem tecnologia e oferece escolha ao consumidor", explica o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive.

Exemplos não faltam. Um Volkswagen Polo Comfortline 2.0 (sedã) custa R$ 61.910, com ABS opcional. É mais que um Volkswagen Bora, que sai a R$ 60.390 com tudo que o Polo tem e, ainda mais rádio CD player, apoio de braços dianteiro e retrovisor eletrocrômico. Um Ford Fiesta 1.6 com o pacote mais completo chega a R$ 44.945. Preço bem próximo dos R$ 45.855 pedidos pelo Focus GL com o mesmo motor e a mesma relação de equipamentos -- como airbag, rádio com MP3, entre outros.

"O mercado cresceu e aumentou muito a oferta de conteúdo de opcionais. É uma obrigação oferecer itens, principalmente de segurança", argumenta o engenheiro Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat. Há cada vez um número maior de modelos e de versões. "Em qualquer segmento do mercado existem pessoas que dão valor à inovação e à tecnologia", enaltece Samuel Russell, diretor de marketing da Chevrolet.

Cabe aos departamentos de marketing e de vendas desvendar e conhecer o público-alvo que opta por pagar R$ 54.983 por um monovolume compacto Chevrolet Meriva Premium 1.8 Easytronic, com câmbio robotizado, em vez de optar pelo hatch médio Astra Advantage 2.0, a R$ 53.579, que além de câmbio automático de verdade oferece airbag duplo e motor mais potente.

Outro mistério é saber por que alguém compra um Fiat Punto HLX 1.8 completo, que custa R$ 57.236, mais que um Stilo 1.8, que sai a R$ 56.743 e ainda tem direção elétrica de rigidez regulável, controle de cruzeiro, porta-luvas refrigerado e controle de tração.

RÁPIDAS
Atualmente, a encomenda de um compacto completo pelo revendedor pode levar de quatro a seis semanas para ser atendida pela montadora.
Na linha Gol, da Volkswagen, de 2% a 3% dos modelos vendidos são equipados com airbag e ABS. Desses, nove em cada 10 são por encomenda de frotistas.
Em 1994, o Fiat Uno Mille On Line foi um dos primeiros a oferecer equipamentos opcionais em separado, em vez dos tradicionais pacotes.
Volkswagen e Fiat oferecem itens de segurança em pacotes separados e específicos.
No ano 2000, a Volkswagen lançou a Parati 1.0 16V Turbo, que custava mais que as versões 1.6 e 1.8 da station wagon, por conta do motor mais caro.
Poucos, mas cruciais
Na verdade, compactos completíssimos como esses representam menos de 2% das vendas. E geralmente são comprados por frotistas, que obedecem a normas de segurança das empresas. "É mais comum em frotista, que tem verba específica e limitada. Além disso, muitas multinacionais pedem itens para respeitar um alinhamento mundial de segurança", explica Fabricio Biondo, gerente de marketing da Volkswagen.

A minoria "pessoa física", porém, pode ser uma boa arma mercadológica. "Para um vendedor hábil, é sempre fácil pegar um veículo que ele negociou com financiamento de 48 meses e mostrar que, se ele colocar um equipamento, pode ter um veículo completo que vai acrescentar pouco na prestação", explica Arnaldo Pelizzaro, da ABI Consult.

O dinheiro gasto num compacto completo, com airbag e ABS, por exemplo, não é recuperado na revenda, mas estes itens facilitam passar o carro adiante. "Alguns itens opcionais são muito valorizados na revenda, como ar, direção, trio, mas outros nem tanto, como rádio, airbag, ABS. O custo/benefício passa a ser melhor para quem compra", avalia Garbossa. E, mesmo com o mercado tímido e a perda na revenda para compactos completos, as marcas acham importante manter esses modelos. "Agrega imagem de tecnologia. O ganho para a marca é imensurável", encerra Biondo, da Volks. (por Fernando Miragaya)

CARROS MAIS COMPLETOS GERAM COMPLEXIDADE NA LINHA DE PRODUÇÃO
O sistema industrial automotivo conhecido como "just-in-time" caiu como uma luva para as montadoras atenderem a pedidos específicos de compactos completos. Como os fornecedores possuem plantas próximas às fábricas, o pedido de um modelo de entrada recheado com equipamentos pouco aplicados na linha é atendido quase prontamente.
Assim que a encomenda chega à fábrica, os sistemistas são acionados para desenvolver uma peça específica ou preparada para receber algum equipamento. "A logística de produção é que viabiliza isso", diz Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat.
Mesmo assim, essas encomendas "diferentes" tornam, de alguma forma, as linhas de montagem ainda mais complexas. "A linha tem de ter uma seqüência muito bem elaborada na manufatura. É importante manter alguns itens em estoque", ressalta Fabrício Biondo, da Volkswagen.
Principalmente no que diz respeito a itens eletroeletrônicos. Quanto maior a quantidade de dispositivos elétricos, maior o número de chicotes na fiação. "Gera complexidade logística de estoque, no treinamento de serviços, disponibilidade de peças. É o custo de cobrir um mercado e de ser competitivo", aponta o consultor Arnaldo Pelizzaro, da ABI Consult.

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