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25/04/2008 - 15h57

Imagem de 'importado' atrapalha e ajuda montadoras

Da Auto Press
Ter um importado no Brasil é um luxo. Mas junto com o prestígio que um carro vindo de fora empresta ao proprietário, há evidentes desvantagens: o alto preço de peças de reposição (também difíceis de achar) e dos serviços. Quem não quer arcar com este custo do status, foge das marcas estrangeiras.

O problema é que essa fuga acaba vitimando as montadoras que têm menos tempo de Brasil, as chamadas newcomers (recém-chegadas, mas com sentido de "novatas"). As francesas Citroën, Peugeot e Renault e as japonesas Honda, Nissan e Toyota mantêm até hoje uma certa imagem de marca importada. E não dá para dizer que esta situação é descolada da realidade.

Na prática, é possível encontrar peças genéricas -- e mais baratas -0 em qualquer loja de autopeças para os modelos de marcas mais tradicionais. Já para as novatas, os componentes e serviços só são encontrados na rede autorizada, exatamente onde são mais caros.

Não à toa, as newcomers investem pesado para se livrar dessa onerosa fama. Até porque isso se torna uma enorme desvantagem na briga com as marcas mais antigas, que dominam o mercado: Volkswagen, Fiat, Chevrolet e Ford. "Queremos mudar essa imagem. É um trabalho de anos. Temos de mostrar aos brasileiros que nossos modelos são nacionais, que temos peças e uma rede autorizada em crescimento", diz Silvino Arnoni, gerente de peças e serviços da Peugeot.

Das marcas francesas, Peugeot e Renault são hoje as que mais buscam serem vistas como "marcas nacionais". Às vésperas de promover um face-lift no hatch compacto 206, que vai ficar visualmente similar ao 207 europeu, a Peugeot passou a oferecer recentemente três anos de garantia no modelo.

Já a Renault aposta desde o ano passado na plataforma B0, do sedã Logan e do hatch Sandero. Com 90% das peças nacionalizadas, ambos têm preços competitivos e espaço interno de carro médio -- além de três anos de garantia. "Muitos brasileiros ainda vêem a Renault como marca importada. Mas, ao oferecermos essa garantia, quebramos antigas barreiras", garante Bruno Hohmann, gerente de marketing de produto da Renault.

A garantia funciona como um atrativo. Ela "fideliza" o consumidor aos concessionários -- caso este recorra a peças e serviços fora da rede, a garantia é perdida. Isso explica também a preferência pela atuação em nichos mais refinados mostrada ´pr Citroën, Honda, Toyota e Nissan.

RÁPIDAS
A Renault completou nove anos de produção local em março, mas sofre até hoje com a fama herdada de modelos como o hatch médio R19 e o sedã médio-grande R21 - antecessores de Mégane e Laguna. Eles eram importados da França nos anos 90 e tinham manutenção caríssima.
O hatch compacto Peugeot 206 passou a ser fabricado no Brasil em junho de 2001. Mas até hoje há usuários que reclamam do alto preço cobrado por consertos nas concessionárias, principalmente da suspensão.
O monovolume Citroën Xsara Picasso também é produzido no país desde 2001, mas ainda tem manutenção tida como cara, também na suspensão.
A japonesa Honda produz carros no Brasil desde 1997. E desde então tem fama de cobrar caro por peças, manutenção e reparos. Mas seus carros dão poucos problemas, e a montadora hoje não consegue produzir o suficiente para atender à demanda para seus dois produtos: o sedã médio Civic e o hatch compacto Fit.
Apesar de querer manter a fama de japonesa, os modelos da Nissan produzidos no Brasil - a SUV XTerra e a picape Frontier - são construídos na fábrica da francesa Renault, em São José dos Pinhais.
No caso das japonesas, a fama de construírem "carros que não quebram" ajuda a deixar o consumidor mais tranqüilo. Já para a Citroën, o estigma de careira espanta a freguesia. Por isso, desde o fim de 2007, a marca passou a oferecer pacotes de revisões com preços fechados. Além disso, também ampliou a rede e nacionalizou parte dos componentes de seus veículos.

"Antes sofríamos com a distribuição de peças. Mas hoje os componentes têm produção local, e podemos disponibilizá-los a preços competitivos", argumenta Sérgio Rodrigues, diretor de pós-vendas da Citroën.

Passaporte
Como têm boa fama, as japonesas valorizam ao máximo o vínculo com seu país de origem. Afinal, a imagem confiável tem sido amparada na qualidade e durabilidade de seus carros. "A Nissan não quer ser vista como brasileira. Somos uma montadora japonesa que fabrica no Brasil. Vamos reforçar que temos as qualidades comuns às marcas japonesas", afirma Arison Souza, diretor de marketing da Nissan.

Uma compatriota da Nissan, a Mitsubishi produz no Brasil há dez anos, mas faz questão de manter a imagem de marca japonesa e "importada" por atuar no segmento de SUVs mais refinados, o qual que pede confiança.

Mas, para crescer de forma ainda mais sólida no Brasil, há uma barreira comum a japoneses e franceses: a quantidade de concessionárias. Independentemente do índice de nacionalização de peças, dos prazos de garantia ou dos preços de revisões, é fundamental ter uma rede autorizada ampla para disponibilizar serviços especializados e boa distribuição de componentes.

"Não há dúvidas de que a nacionalização de peças é fundamental, assim como o trabalho constante de posicionamento de preços. Mas é necessário também um vasto número de revendas", avalia Guilherme Barbosa, gerente de planejamento estratégico de peças e acessórios da General Motors do Brasil. (por Diogo de Oliveira)

NACIONALIZAR É A SOLUÇÃO
Importado no Brasil não é necessariamente sinônimo de manutenção cara e peças difíceis. Os mexicanos, que desembarcam por aqui abençoados pelo acordo de livre comércio entre Brasil e México, têm caprichado na logística de disponibilidade de peças e mecânicos especializados.
Há, inclusive, modelos feitos lá com peças de reposição produzidas aqui. São os casos, por exemplo, dos Nissan Sentra e Tiida. Os componentes a serem encomendados foram apontados por um estudo da marca, e são Os que têm trocas mais freqüentes.
Mas há também uma estratégia embutida no projeto. "Vamos lançar em breve um plano de revisões a preços competitivos. Nossas prioridades são aumentar o contato com consumidores e ampliar o número de revendas", avisa Arison Souza, diretor de marketing da Nissan.
A lógica é a mesma aplicada por Volkswagen e Ford em seus modelos trazidos do México. Para facilitar o suporte aos compradores dos sedãs médios Volkswagen Bora e Jetta ou do médio-grande Ford Fusion, as montadoras buscam parcerias com fornecedores locais para produzir componentes de maior desgaste no país.
"O que barateia os custos de manutenção e reparo em um modelo é a nacionalização do máximo de componentes para um fornecedor local", diz Antônio Taranto, diretor de pós-venda da Ford.

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