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11/04/2008 - 20h03

Frota de veículos cresce, mas renovação é muito lenta

Da Auto Press
O mercado de automóveis no Brasil está efervescente, mas a infra-estrutura das cidades brasileiras está sem gás. Milhares de carros são licenciados em todo o país diariamente. E enquanto modelos tinindo de novos ganham as ruas e estradas brasileiras aos borbotões, problemas crônicos e estruturais ameaçam atravancar cada vez mais o trânsito.

Frota com idade avançada, transporte público deficiente, fiscalização ineficaz e falta de planejamento configuram um cenário caótico para o tráfego. Isso num país cuja frota total evoluiu 27,3% nos últimos sete anos, e hoje já soma mais de 25 milhões de veículos. No caso dos automóveis, a idade média da frota nacional está em torno de nove anos e a renovação, apesar das vendas em alta, ainda caminha a passos lentos.

As sugestões são muitas, mas poucas saem do papel. Uma delas é a vistoria anual. Prevista no Código Brasileiro de Trânsito desde sua publicação, em 1998, visa fiscalizar as condições técnicas dos carros. "A vistoria é uma ferramenta eficaz para, indiretamente, renovar a frota e tirar de circulação veículos sem condições que acabam enguiçando e atrapalhando o trânsito", diz Orlando Moreira, coordenador geral de infra-estrutura de trânsito do Denatran, o Departamento Nacional de Trânsito.

Uma década depois, porém, só o Detran do Rio de Janeiro faz as vistorias. "Hoje, em todo o país, os veículos são licenciados analisando-se a documentação e não sua saúde mecânica. O carro sofre de uma negligência do dono e da omissão do governo, que não implantou a inspeção veicular", critica Roberto Scaringella, especialista em tráfego e ex-presidente da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de São Paulo.

Há até a previsão de a vistoria obrigatória passar a ser aplicada em todos os Estados, e a promessa de não permitir a renovação do licenciamento anual de veículos sem manutenção adequada. Tudo depende de um projeto de lei que aguarda aprovação no Congresso Nacional. Mas, para muitos especialistas, a vistoria, por si só, não basta. É preciso fiscalização.

A própria obrigatoriedade da inspeção no Rio, por exemplo, criou num mercado paralelo. É comum, ao lado dos postos de vistoria do Detran, encontrar sujeitos se oferecendo para "emprestar" (em troca de quantias nem sempre módicas) toda sorte de itens automotivos: extintores de incêndio dentro da validade, lentes para faróis e lanternas -- e até pneus novos.

RÁPIDAS (OU LENTAS...)
Dados informais dizem que a frota de veículos no Brasil -- incluindo automóveis, veículos comerciais e caminhões -- tem entre 18 e 25 anos.
A frota da Grande São Paulo já atingiu 6 milhões de veículos, enquanto a do Grande Rio de Janeiro é estimada em 1,9 milhão.
Na Europa, todo carro é obrigado a ter seguro contra terceiros. Quanto mais velho o carro, maior o custo da apólice.
A chamada frota pirata, composta por veículos irregulares e sem condições de uso, representa entre 25% e 30% do total de veículos em uso no Brasil.
Há 30 anos, um estudo mostrou que 22% dos deslocamentos no Rio de janeiro eram feitos em automóveis. Hoje, esse índice é de 26%. Já em São Paulo, a participação de carros circulantes aumentou consideravelmente. Em 1978, 25% dos deslocamentos eram feitos com carros, enquanto atualmente o número chega a 50%.
Segundo especialistas em trânsito, corredores viários apenas para ônibus nos grandes centros urbanos podem aumentar a velocidade média dos coletivos de 10 km/h a 15 km/h para de 25 km/h a 30 km/h.
Aprovado na vistoria, o proprietário do veículo devolve os equipamentos alugados e continua a rodar com o carro irregular. "A vistoria não garante que o automóvel não vai enguiçar e provocar um engarrafamento. O que importa é a qualidade da manutenção", analisa o consultor de trânsito Sergio Balousier.

Maior e pior
Apesar de os problemas resultantes do aumento da frota também afetarem o trânsito de cidades médias e até das pequenas, é nas grandes metrópoles que os investimentos em infra-estrutura e em transporte público são considerados mais urgentes.

Corredores viários exclusivos para ônibus são uma das alternativas apontadas para os maiores centros urbanos nacionais. Meios de locomoção como o metrô são os favoritos de engenheiros de tráfego e consultores de trânsito. Mas os sistemas metroviários e de ônibus em regiões metropolitanas como São Paulo e Rio de Janeiro ainda se mostram insuficientes.

Nos metrôs das duas maiores cidades brasileiras, por exemplo, o tempo de espera entre uma composição e outra fica entre três e quatro minutos, acima do recomendável, que é de 90 segundos. Além disso, o número de passageiros por m² chega a seis, quando o máximo seria de quatro. "A pessoa que tem carro não vai se juntar a seis pessoas por metro quadrado. Prefere ficar no engarrafamento, no ar-condicionado, ouvindo rádio", finaliza o engenheiro de tráfego Fernando McDowell.

Câmeras 'dedo-duro' podem agir contra carros irregulares

Um equipamento promete auxiliar a retirada dos carros em mau estado de conservação ou com documentação irregular. O Denatran aposta que essa tecnologia pode ser uma ótima aliada para fazer valer a inspeção veicular obrigatória, prevista no Código Brasileiro de Trânsito, e sua obrigatoriedade depende apenas da aprovação do Congresso.

Se o proprietário insistir em continuar trafegando com o automóvel, mesmo sem o documento -- que ficará retido caso o carro não passe na vistoria --, pode ser flagrado pelo Siniave, ou Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos.

São câmeras que funcionam como radares e detectam se um carro está irregular. Elas registram as placas dos veículos que trafegam numa determinada via em tempo real. Com isso, órgãos de fiscalização podem ser acionados para reter o veículo nas proximidades quase que imediatamente. O sistema já começou a ser aplicado em algumas cidades. "É uma ferramenta importante, mas precisamos que a inspeção seja estabelecida", diz Moreira, do Denatran. (por Fernando Miragaya)

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