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21/03/2008 - 18h07

Garantias podem ser longas, mas nem sempre são vantajosas

Da Auto Press
Viraram rotina as publicidades de carros que estampam em letras garrafais dois, três e até cinco anos de garantia de fábrica. Trata-se de uma forma encontrada pela indústria automobilística de transmitir solidez e confiabilidade à imagem de seus modelos.

O que pouco se fala, porém, é que todas as garantias de veículos no Brasil variam de fábrica para fábrica e podem deixar de fora da cobertura diversos equipamentos. Legalmente, pelo Código de Defesa do Consumidor, os fabricantes são obrigados a dar 90 dias de cobertura total para os veículos zero quilômetro.

Após esse período, porém, a garantia passa a ser contratual. "Depois dos três meses obrigatórios, as fabricantes de veículos podem limitar a garantia cobrindo somente itens relacionados no certificado emitido por elas na hora da venda", avisa Raul Dalaneze, técnico de defesa do consumidor da Fundação Procon de São Paulo.

Nos contratos em geral, as coberturas contra defeitos incluem apenas itens de fabricação das próprias montadoras. Entre eles, motor, caixa de transmissão, carroceria, além de algumas peças dos eixos dianteiro e traseiro e de acabamento interno. Já as chamadas peças de "desgaste natural", como filtros de óleo, ar e combustível, pastilhas de freios, disco de embreagem e paletas dos limpadores de vidros, ficam de fora do "pacotão" garantido.

"A garantia funciona como um acordo entre o proprietário e a fabricante. O cliente tem direito à cobertura, mas tem o dever de usar o veículo adequadamente e fazer as revisões no período indicado no manual", afirma Paulo Pereira, gerente de serviços ao cliente da General Motors do Brasil.

Obrigatoriedade
Essas revisões geralmente são estipuladas para a cada 10 mil km, com mão-de-obra habitualmente gratuita nas duas primeiras visitas, e troca dos componentes perecíveis. Aqui, no entanto, entra outra questão crucial das garantias: a obrigatoriedade de se fazer a revisão na rede autorizada.

"Isso é comum na indústria automotiva. É a maneira pela qual podemos garantir a durabilidade dos nossos produtos", justifica Joaquim Arruda, gerente de engenharia de serviços da Ford. A montadora norte-americana, por exemplo, dá três anos de garantia no sedã médio-grande Fusion -- mas exige que as revisões do modelo sejam feitas na sua rede a cada seis meses, com o devido registro no manual do carro. Só que, a partir da terceira revisão, o motorista passa a pagar pela mão-de-obra.

RÁPIDAS
  • Na maioria dos modelos compactos a garantia total de fábrica é de apenas um ano, em média. Dentro desse período, só as primeiras duas revisões têm mão-de-obra gratuita nas concessionárias. Já as peças de desgaste natural são pagas pelo proprietário desde a primeira visita à revenda.
  • Independentemente do prazo ou da quilometragem, nos contratos de garantia vale sempre a condição que mais favorecer o proprietário do veículo. Ou seja, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, se uma montadora oferecer cobertura de três anos ou 100 mil km percorridos, não vale o que ocorrer primeiro, mas sim o que melhor atender às necessidades do consumidor.
  • As marcas coreanas Hyundai e Kia e a japonesa Subaru são as únicas que oferecem cinco anos de garantia em seus veículos no Brasil. Em seguida vêm as japonesas Honda, Toyota e Nissan, a Volkswagen e a Renault, com coberturas que vão de dois a três anos. Já Ford, Fiat, GM, Peugeot e Citroën dão um ano de garantia nos veículos abaixo de R$ 50 mil e até 3 anos nos tops.
  • Recentemente a Citroën liberou uma tabela de preços fixos para revisões dos veículos da marca na rede autorizada. É a primeira vez que a marca expõe o custo de suas revisões, numa clara tentativa de reverter a imagem negativa de ser uma montadora com revisões caras.
  • A mesma regra se aplica aos sedãs médios Nissan Sentra e Honda Civic. Ambos oferecem três anos de garantia, que só valem se os proprietários comparecerem às revendas autorizadas das respectivas montadoras a cada 10 mil km percorridos ou seis meses, no caso da Nissan, e um ano, com a Honda.

    "A periodicidade da manutenção é definida pela engenharia quando o produto é desenvolvido. E o período de revisão varia de acordo com as condições de tráfego de uma região", explica Tai Kawasaki, diretor de pós-vendas da Nissan. "Há um custo, sim, mas é preciso entender que essas revisões são preventivas, o que significa que o preço pago por elas é sempre menor do que o custo de eventuais reparos", sustenta Alexandre Cury, gerente de pós-vendas da Honda.

    Uma revisão de 30 mil km do compacto Fit, por exemplo, custa R$ 242,75 na rede autorizada. Mas, se os mecânicos perceberam a necessidade de trocar peças ou fazer qualquer serviço, aí o valor sobe, e muito, ficando próximo de R$ 1.000.

    Corpo estranho
    Outros dois fatores impositivos e normalmente pouco destacados nos contratos de garantia são a instalação de componentes não originais e a maneira como o proprietário conduz o veículo. No primeiro caso, as montadoras justificam que um equipamento ou peça não original pode danificar um sistema ou mesmo a estrutura do carro.

    Já em relação ao uso, as fábricas são ainda mais "criteriosas": se o dono de um hatch compacto inventar de fazer um circuito off-road com o carro e colocá-lo para rodar numa pista de terra cheia de buracos, a concessionária pode recusar-se a fazer o reparo. "Se um proprietário fizer uso indevido do veículo, perde a garantia da fábrica", avisa Paulo Solti, diretor de pós-vendas da Renault. Ou seja, são tantas as condições que, no fim das contas, ter a garantia de fábrica é uma verdadeira faca de dois gumes.

    (por Diogo de Oliveira)

    CARROS USADOS TAMBÉM DEVEM TER GARANTIA
    Veículos usados também gozam de garantia em caso de defeito. É o que diz o Código de Defesa do Consumidor, que prevê idênticos 90 dias para quaisquer veículos, sejam novos ou usados.
    O grande problema no comércio de usados, no entanto, é a falta de informação. Como nem todos os consumidores sabem dos direitos que têm, são as revendedoras que definem como funcionará a cobertura no momento em que os futuros proprietários assinam os contratos de compra do carro usado.
    "É bastante comum que os consumidores não consigam a garantia total porque os revendedores sempre relutam em dar a cobertura", diz Raul Dalaneze, técnico de defesa do consumidor do Procon-SP.
    O mais corriqueiro é a "famosa" oferta da garantia de três meses para motor e caixa de transmissão. "Essa cláusula geralmente consta no certificado de garantia entregue na compra do veículo, mas é ilegal", alerta Dalaneze.
    No caso dos veículos usados, as orientações são para que o consumidor entregue o veículo com defeito na concessionária onde o comprou e exija uma ordem de serviço com registro da data de entrada do carro no estabelecimento -- o que deve ser feito dentro do prazo legal de 90 dias.

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