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04/12/2007 - 10h33

Segurança continua sendo 'supérflua' e cara em carro nacional

Da Auto Press
Costuma-se dizer que brasileiro dá pouca importância à segurança dos automóveis. Há um discurso padrão afirmando que, principalmente no segmento de carros compactos (70% do mercado geral), o cliente não está disposto a desembolsar mais para ter itens como airbags e ABS.

Mas, do outro lado do balcão, a oferta também não favorece uma maior demanda por esses equipamentos. Enquanto na Europa as estratégias de comunicação e de marketing das fabricantes enaltecem a segurança, no mercado brasileiro o conforto e o desempenho são as prioridades.

Divulgação


Teste de impacto com uso de airbag frontal na DaimlerChrysler

"Aqui se comunica pela velocidade, pela conquista, pela inveja do vizinho, pelo erotismo. Como somos consumidores que aceitam a morte no trânsito, ainda estamos nesse estágio", lamenta o médico José Montal, diretor Científico da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego).

Os números refletem esse disparate. No Brasil, menos de 10% dos veículos possuem ABS (sistema que impede o travamento da roda nas frenagens) ou airbag (bolsa inflável dianteira ou lateral que infla após impactos).

ACIDENTAIS
Segundo a Volkswagen, no Gol o índice de aplicação de airbag e ABS é de 4% e grande parte em razão de exigência de frotistas clientes. No Polo, a procura pelos equipamentos é de 15%.
Pesquisas nos Estados Unidos apontam que os airbags evitaram a morte de 2.000 pessoas só no ano passado.
Em 1997, apenas 28% de unidades do Vectra eram vendidas com airbag. Em 2002, esse índice passou para 75%. Hoje é de 90%.
Um estudo do Cesvi Brasil mostrou que 70% dos entrevistados que tinham carros com ABS não receberam qualquer orientação sobre como funciona o sistema anti-travamento dos freios.
Dados do Ministério da Saúde dizem que no Brasil 35 mil pessoas morrem por ano vítimas de acidentes de trânsito. Um estudo da PUC-RS, porém, garante que o número chega a 80 mil/ano.
Estudo do Ipea revela que o Brasil gasta de US$ 25 bilhões anuais com vítimas de acidentes de trânsito.
Nos Estados Unidos, o índice supera os 90%, e na Europa beira os 95%. Para alguns, parte da culpa é dos fabricantes de automóveis. No caso do ABS, por exemplo, apenas 40% dos veículos vendidos no país oferecem o item. "Cerca de 60% não oferecem o ABS nem como opcional. Mesmo que o consumidor queira, não encontra", reclama José Antônio Oka, coordenador de Segurança Viária do Cesvi Brasil.

"Numa revenda, certamente se encontra compactos com ar-condicionado, direção e trio elétrico para pronta-entrega. Quem quer carros com ABS e airbag, na maioria das vezes, é obrigado a esperar. Aqui, itens de conforto se pedem, itens de segurança se ofertam", diz Carlo Gibran, gerente de Marketing da Bosch, empresa que inaugurou uma fábrica de ABS no Brasil há dois meses.

Em muitos modelos de entrada (os mais baratos de cada marca), esses itens realmente passam longe. Versões 1.0 de Chevrolet Celta, Classic e Corsa, Volkswagen Gol, Fiat Uno e Ford Ka e Fiesta, por exemplo, não oferecem airbag e ABS nem como opcionais. Até mesmo a Renault, que até bem pouco tempo atrás era a única a oferecer airbag de série em toda a linha no Brasil, não seguiu a regra no Logan.

O sedã compacto também não oferece nenhum dos dois itens nas versões com motor de 1.000 cm³. "Esse consumidor tem o dinheiro mais curto e prefere ter o conforto em vez de ter airbag ou ABS. Ou ele tem um, ou tem outro", alega Fabrício Biondo, gerente-executivo de planejamento de marketing da Volkswagen.

Acidente no bolso
Mesmo em segmentos ou motorizações superiores, o acesso aos itens de segurança não é tão simples. Num Ford Focus GLX 1.6, por exemplo, para se ter airbag é preciso comprar um conjunto de opcionais. O pacote que inclui a bolsa de segurança tem rodas de liga leve e alarme, e custa R$ 4.140 a mais.

Para se ter airbag num Corsa sedã Maxx 1.4 é preciso ainda mais. Só o kit mais caro traz o item, e faz o preço do modelo saltar de iniciais R$ 33.515 para R$ 40.415. Na Volkswagen, porém, é possível adquirir módulos de airbag e ABS separados de outros itens para o Polo. A Fiat fez o mesmo com o recém-lançado Punto, no pacote chamado High Safety Drive. As montadoras, por sua vez, usam o discurso que pode ser descrito como "o que o cliente quer".

"Procuramos agrupar os desejos dos clientes em diferentes configurações de opcionais. Em itens independentes, o consumidor pode configurar de forma equivocada e não ficar satisfeito", justifica Hermann Mahnke, gerente de marca da General Motors.

Setores da indústria, por sua vez, acham que a postura das montadoras poderia ser mais eficiente e incisiva no quesito segurança. "No passado também ouvia que direção hidráulica e ar não eram para carros compactos. A indústria acha que o consumidor não quer. Essa demanda, por si só, não se mexe", pondera Gibran, da Bosch.

"Por mais que as montadoras façam campanha com foco na segurança, enquanto houver mercado voltado para carro 1.0 esses itens não vão se popularizar rapidamente", encerra Biondo, da Volks. (por Fernando Miragaya)
PROJETO QUE OBRIGA ABS EM CARROS DEVE SER VOTADO EM 2008
O debate em torno da aplicação mais democrática do airbag pode ter um fim por imposição legal. O Projeto de Lei 00115/2004, do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que obriga a instalação de airbags frontais em todos os modelos vendidos no país, foi aprovado no Senado e encaminhado para a Câmara dos Deputados.
Como a pauta no Congresso está trancada em decorrência de outras votações polêmicas, em especial a que prorroga a CPMF, a expectativa do parlamentar é que o texto seja aprovado no primeiro semestre do ano que vem.
Pelo PL, todos os novos modelos fabricados e vendidos no Brasil terão de ter airbag de fábrica a partir da data de promulgação. Os modelos já existentes em linha terão quatro anos para se adequar à legislação e passar a oferecer o equipamento. O autor diz que houve um lobby forte das fabricantes contra o projeto, e que as principais queixas eram com relação à obrigatoriedade e ao custo do produto.
"No Senado houve uma tentativa clara de derrubar o projeto. Depois, representantes das montadoras participaram do debate. Quanto ao argumento do preço do airbag, a produção em escala maior e a isenção de impostos para o item disposta pelo próprio governo acarretaria numa gradual queda no preço", afirma Azeredo.

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