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09/11/2007 - 19h28

Ano foi de festa para montadoras, mas futuro é incerto

Da Auto Press
Fim de ano no Brasil é sempre uma festa para as montadoras de veículos. É tradicionalmente o período em que mais se vende automóveis no país, seja por conta do 13º salário­, seja por outras questões, como promoções e chegada dos modelos do ano seguinte. Mas 2007 promete algo extraordinário. A expectativa de empresas e entidades do setor é de que as vendas no ano ultrapassem a marca de 2,20 milhões de unidades, volume jamais atingido pelo setor.

Mas há quem vislumbre uma nuvem de incertezas para 2008. "As montadoras estão extraindo o máximo de suas fábricas, porque o momento é favorável. Ninguém quer perder vendas. Mas o Brasil ainda corre risco de oscilação econômica", pondera Dario Gaspar, consultor da AT Kearney.
Arionauro/Carta Z Notícias

Mas, previsões menos otimistas à parte, o momento atual é completamente a favor da indústria. De acordo com dados do Renavam, 1.884.739 carros e comerciais leves foram emplacados de janeiro a outubro deste ano, total que já supera em aproximadamente 23 mil unidades o recorde de vendas do setor em um mesmo ano: as 1.861.363 unidades comercializadas nos 12 meses de 1997, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).

Em comparação com o mesmo período de 2006, o crescimento foi de expressivos 28,86% (1.462.596 unidades vendidas de janeiro a outubro do ano passado). "Esse resultado é fundamental para que o setor continue a investir maciçamente em novos veículos e no aprimoramento dos atuais", afirma José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors do Brasil.

RÁPIDAS
Outubro estabeleceu o novo recorde nacional de unidades vendidas num único mês. Foram 232.557 carros emplacados no período.
Aproximadamente 86% dos automóveis e comerciais leves vendidos de janeiro a outubro deste ano são flexfuel, movidos por álcool e gasolina.
Os dados do fechamento de outubro da Fenabrave impulsionam o otimismo neste fim de ano: foram emplacados 232.557 unidades no mês passado, volume 19,81% maior que os 194.102 carros de setembro e 39,42% superior às 166.882 unidades vendidas em outubro de 2006.
As promoções das montadoras para atrair clientes neste fim de ano já começaram: a Toyota "presenteia" os compradores das versões XEi e SE-G do sedã Corolla e da perua Fielder com uma TV LCD de 42 polegadas; e a Fiat oferece duplo airbag frontal e freios ABS por R$ 2.900 (preço oferecido somente no hatch Punto). O mesmo pacote nos outros modelos (exceto o Mille) antes custava bem mais salgados R$ 5.100.
Nesse cenário, a economia brasileira, sem dúvida, é o principal agente do crescimento. Descolada da política de Brasília, que vive de altos e baixos, o panorama econômico estável e forte possibilitou em 2007 a disponibilidade de volumes de crédito até então impensados para o consumidor local.

Os financiamentos, modalidade mais utilizada e geralmente limitada a 60 meses, chegam agora a 72 parcelas (com o extremo sendo a Ford oferecer financiamento de até 84 meses), com prestações cada vez menores, sem entrada e com juros reduzidos, abaixo de 1% ao mês para carros 0 km, em média. "O crescimento econômico gerou melhoria dos salários e estabilidade no emprego. O brasileiro hoje confia que vai permanecer empregado e alguns crêem até que vão conseguir empregos melhores", diz Gaspar, da AT Kearney.

Modelos mais caros
Essa evolução do poder de compra fica mais evidente no segmento de sedãs médios, onde os modelos tem preço inicial em torno de R$ 60 mil. O Honda Civic foi o nono mais vendido no país em outubro (10º, se incluídos os comerciais leves), com 6.006 unidades emplacadas, quando vinha com média em torno de 4.000. A explicação são os R$ 175,5 milhões investidos pela marca na planta de Sumaré, em São Paulo, após o lançamento do nova geração do sedã, no ano passado.

Esse capital foi injetado em sua maior parte no aprimoramento da linha de montagem do Civic. "Creio que seguiremos crescendo, até porque o mercado de veículos premium não depende diretamente do crédito dos bancos", afirma Alberto Pescumo, gerente-geral comercial da Honda.

Divulgação

Gol segue sendo o líder de vendas
Mas é justamente o volume de crédito que pode abalar o ímpeto do setor automobilístco no futuro. Os brasileiros estão financiando carros 0 km em 60 ou mais meses, e há risco de as vendas caírem até que esses consumidores decidam trocar de carro novamente.

"Em 1997 vendemos o que nunca tínhamos vendido, mas depois estagnamos. Houve um represamento de veículos, ninguém trocou de automóvel durante anos", recorda o especialista Paulo Garbossa, da ADK Automotive. "A explosão do mercado se deve justamente a esses anos de demanda reprimida. Crescimento do PIB, valorização do real, disponibilidade de crédito barato... é um mundo de novidades para o brasileiro", completa Ricardo Fisher, supervisor de planejamento e coordenação de marketing da Renault. Esse ano, as vendas da marca francesa cresceram 39% em relação a 2006.

Outra questão tem a ver com a perda da estabilidade econômica, que poderia causar um aumento significativo do índice de inadimplência nas financeiras. "O brasileiro continua sistematicamente a viver sem planejamento financeiro familiar", lamenta Luiz Carlos Monteiro, economista da FGV (Fundação Getúlio Vargas) do Rio de Janeiro. (por Diogo de Oliveira)

CARNÊS VIRAM INCÔMODO A PERDER DE VISTA
No Brasil, o financiamento é a operação financeira mais utilizada na compra de automóveis. Atualmente, corresponde a cerca de 72% de todas as vendas de veículos e é o principal fomentador do crescimento recorde do setor em 2007. Mas, ao mesmo tempo que "facilita" a compra de um carro, distribuindo o valor total em parcelas mensais suaves, o financiamento também é agressivo para o consumidor.
Nele incorrem juros oscilantes e tarifas, como o IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras). Além disso, a operação pode ser dividida hoje em até 84 meses, ou sete anos, o que pode comprometer nos próximos anos o desempenho das vendas de carros no país.
Nos países ricos, sobretudo nos Estados Unidos, o leasing é uma das formas mais populares de aquisição de um carro 0 km. O plano funciona como um aluguel: o cidadão aprova um determinado crédito no banco e adquire seu automóvel, como no financiamento. Só que o veículo fica alienado à empresa bancária como garantia de liqüidez até a quitação total da dívida. No fim do contrato, a pessoa escolhe se fica com o carro pagando um residual ou se devolve o bem.
Uma das idéias para o Brasil é aproximar o financiamento do leasing. "A perspectiva é de que os consumidores troquem seus veículos após três anos, quitando o financiamento com o valor do auto usado e utilizando o residual para dar entrada em outro carro novo, também financiado", argumenta Oswaldo Ramos, gerente nacional de vendas da Ford. "Seria uma espécie de leasing à brasileira: o cidadão paga dois anos de financiamento, troca o carro usado por um 0 km e transfere a dívida para o modelo novo", sintetiza Paulo Roberto Garbossa, consultor da ADK Automotive.

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