UOL Carros

08/11/2007 - 16h30

Com roupa esporte, o ainda raro Tiida se destaca

CLÁUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros
Há três meses circula pelas ruas do Brasil um ilustre desconhecido: o Nissan Tiida. O hatch médio conseguiu em outubro a 7ª posição em vendas na sua categoria, até mesmo superando as expectativas da marca japonesa: foram 333 unidades emplacadas, contra a previsão de 260 da Nissan. Só que, em números totais, isso é bem pouco: outubro acabou com 822 Tiidas rodando em todo o Brasil. Conseqüentemente, trata-se de um carro que quase ninguém viu.

A própria Nissan optou por priorizar o sedã médio-grande Sentra, que disputa num segmento com modelos consagrados, como Honda Civic, Toyota Corolla e Chevrolet Vectra. Se a campanha publicitária cantando que o sedã "não tem cara de tiozão" já pode ser considerada antológica, a do Tiida tem um perfil bem mais discreto, e hoje concentra-se na TV a cabo.
Flávio Florido/UOL
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Outro ponto que pode segurar o Tiida nas revendas é a motorização. A Anfavea divulgou que, em outubro, 86,5% dos carros novos vendidos no Brasil tinham motor bicombustível. Mas o Tiida (assim como o Sentra) só aceita gasolina em seu propulsor 1.8. O problema não é tanto o custo para abastecer (o carro não é "bebedor"), mas a sensação de colocar-se fora da "marcha para o etanol" prometida pelo atual governo federal -- além do desconforto ecologicamente correto de não poder usar um combustível renovável e que polui (um pouco) menos.

Quanto a isso, a fábrica informou que Brasil está incluído no Nissan Green Program 2010, e que a idéia é lançar no mercado brasileiro veículos aptos a rodar com gasolina e álcool até 2009.

IMPRESSÕES AO DIRIGIR
Ao colocar o Tiida para trabalhar, a primeira coisa que se nota é o baixo nível de ruído. O motor 1.8 "fala" macio e o isolamento acústico funciona bem. Em velocidade média e constante, com os vidros fechados, é possível conversar em voz baixa como se o habitáculo fosse uma sala de estar.
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Por fim, há o preço. Na pesquisa Datafolha, o carro (importado do México) começa em R$ 53.465 na versão S mecânica, e chega a R$ 67.815 na SL automática, topo de linha. Peugeot 307, VW Golf , Ford Focus, Vectra GT e Astra têm preços mais competitivos que os do Tiida em pelo menos uma de suas versões. E todos possuem a opção flex. Como compensação, a Nissan fez um acordo com uma seguradora, e promete um prêmio abaixo de R$ 1.000 pelo carro (que certamente não é muito visado pelos ladrões).

Mas o Tiida, é claro, tem suas qualidades. O UOL Carros testou a versão SL manual (R$ 63.800), equipada para ficar com cara de carro esportivo -- um trato que inclui saias dianteiras (que, aliás, raspam no chão ao menor descuido), laterais e traseiras, aerofólio traseiro com brake-light integrado e acabamento cromado na 5ª porta e na grade inferior dianteira. Tudo isso é importado (a Nissan promete nacionalizar os acessórios futuramente) e caro: sai por mais R$ 6.000, fazendo o preço final encostar nos R$ 70 mil.

Esses elementos, mais as belas rodas esportivas (de série) e o vermelho vivo da pintura, cumprem sua função de pimenta e transformam o Tiida num carro agressivo e imponente. A dianteira sinuosa, com grade curva e faróis trapezoidais com canhões irregulares, é encimada pelo capô proeminente, que se destaca do conjunto e cria uma "testa" bem enfezada e peculiar. A linha de cintura alta e reta não resulta em janelas menores: estas começam com um pequeno vidro logo antes dos espelhos (como no Honda Civic) e fazem um arco que só termina na coluna C (a da 5ª porta) num ângulo aberto.

Por trás, o Tiida esportivado fica quase parecendo um carro tunado, com o aerofólio e as lanternas salientes "pulando" para fora da carroceria e uma antena de teto preta arrematando o conjunto. O visual -- que lembra um pouco o Vectra GT -- fica ainda mais agressivo quando o teto-solar é erguido.

Flávio Florido/UOL
Por trás, com acessórios, o Tiida SL testado parece um carro tunado
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E o fato é que o Tiida se mostrou um verdadeiro "torcedor de pescoços". Pessoas na calçada apontavam o carro acintosamente; uma atendente de uma padaria perguntou de quem era o "filezão" parado em frente; o motorista de um Renault Mégane emparelhou numa avenida movimentada de São Paulo, perguntou o preço, e emendou: "Esse tá bonito!"; e o carro ainda causou furor entre os vendedores e funcionários de uma concessionária de uma marca rival da Nissan, onde ficou estacionado por alguns minutos.

Interior e conforto
Por dentro, o Tiida oferece acabamento correto, mas sem grandes luxos e sem elementos que continuassem a esportividade do exterior -- o que resultou num contraste meio careta no exemplar emprestado ao UOL Carros para avaliação. Há couro nos bancos, no volante e em detalhes das portas. Já a forração do teto, em tecido, não causa boa impressão.

A posição de dirigir oferecida pelo Tiida é uma de suas maiores qualidades. O volante possui boa empunhadura e pode ser regulado na altura (mas não na profundidade), entregando mais conforto ou mais esportividade. No banco, os ajustes de altura do assento e de posição do encosto, embora feitos por alavancas, são precisos. A isso, soma-se a ampla área envidraçada -- e mesmo o piloto mais caprichoso vai se sentir completamente no comando do carro e do percurso.

O painel, com instrumentos redondos, é simples e elegante. Traz velocímetro (com contagem suplementar em milhas por hora, no centro do display), conta-giros, indicador de combustível e hodômetros total e parcial (duplo). O ar-condicionado digital não é exatamente intuitivo, e só com algum tempo de uso (e após muito suor nos dias quentes) aprende-se a tirar proveito dele. Vale o mesmo para os comandos dos limpadores do pára-brisa e da janela traseira, que têm várias combinações de velocidade e temporização. O teto-solar é bem simples e serve apenas a quem vai na frente.

PONTOS FINAIS
O QUE É BOM - O desempenho geral do motor; a dirigibilidade; a sensação de exclusividade
O QUE É RUIM - Falta de opção flex; ausência de alguns instrumentos importantes; saias dianteiras muito baixas na versão esportivada
QUEM VAI GOSTAR - Homens a partir dos 30 anos; tiozões, assumidos ou não, que curtam uma opção mais esportiva; casais jovens; famílias de até quatro pessoas (mas num exemplar SL mais sóbrio)
E QUEM NÃO VAI - O Tiida, mesmo sem a roupa esporte, parece não combinar muito com as mulheres
Ainda no quesito instrumentos, é preciso destacar a inaceitável ausência de computador de bordo -- o que, entre outras coisas, faz com que o único relógio seja o do rádio. Já a falta de iluminação nos comandos dos retrovisores elétricos, comum a vários modelos, é apenas um sinal generalizado de descortesia com o consumidor.

Lá atrás
Para quem vai de passageiro, o Tiida oferece espaço generoso para pernas e cabeças até dos mais altos e corpulentos. No banco traseiro, o descanso de braço retrátil impede que um eventual ocupante do meio sinta-se bem. Normal: esse tipo de carro geralmente é delicioso para quatro pessoas e chato para cinco (especialmente se o 5º passageiro ficar reclamando). O porta-malas acomoda 289 litros, mas o comprimento bem utilizado do Tiida (4,295 metros, com 2,6 m de entre-eixos) permite que, na versão SL, o banco traseiro deslize para ampliar a capacidade de carga até 463 litros.

Tudo isso somado, o Tiida tem espaço e conforto para servir de carro principal para uma família-padrão. Na roupagem esportiva, porém, seu público-alvo passa a ser composto principalmente por motoristas solitários ou casais jovens, que não se incomodem de chamar atenção por onde passarem com um carro ainda raro e bem diferente.

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