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18/09/2007 - 18h49

Os chineses estão chegando; indústria se prepara

Da Auto Press
De uns anos para cá, a idéia de modelos chineses ganhando o mundo causa arrepios entre os executivos do setor automotivo. E os piores pesadelos do passado parecem próximos de se realizar.

A quimera tem lataria, quatro rodas e atende por nomes estranhos, como Chana, Effa e Chery. Estes são apenas alguns modelos já com visto de entrada para desembarcar no Brasil. É certo que os chineses chegam com forte apelo de preço.

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O M100 já incomodou a Fiat, que entrou na Justiça para que ele não se chamasse Ideal no Brasil
LEIA A AVALIAÇÃO DO EFFA M100
Ou seja: os modelos de entrada das outras marcas, de baixa tecnologia, são os que mais devem sofrer -- inclusive porque são modelos com esse perfil, como Fiat Mille, Fiat Palio, Volkswagen Gol e Chevrolet Celta, que ocupam o topo do ranking de vendas brasileiro de automóveis.

Ao mesmo tempo em que os chineses levam vantagem em custo e manufatura, a invasão dos produtos orientais terá de enfrentar e superar todo um processo de adaptação e de conquista -- além, é claro, de sofrer uma brutal desconfiança num mercado recheado de peculiaridades.

De uma forma ou de outra, é certo que os veículos mandarins vão incomodar.

Novos setores
A competitividade oriental no preço já foi constatada em outros setores, como o têxtil e o de calçados. Agora, os chineses já estão em segmentos com maior valor agregado, como eletrônica e mecânica. E é a bordo dessa sofisticação industrial que os automóvel chineses aportam no Brasil.

Mão-de-obra farta, custos baixos e agilidade na produção fazem dos modelos orientais alguns dos mais baratos do mundo. E é por esse sistema que o compacto Effa M100, montado no Uruguai, custa R$ 28.990. Ou ainda a possibilidade de um Chery QQ ser vendido aqui por menos de R$ 20 mil.

CHINA IN BOX
Existem atualmente na China nada menos que 120 montadoras. A capacidade produtiva do país é de 8 milhões de unidades/ano. Em 2006, o país registrou a produção de 6,5 milhões unidades/ano.
Atualmente, a China é o terceiro maior produtor de veículos. Em 2006, foram 7,2 milhões de veículos. O primeiro foi o Japão, com 11,4 milhões de unidades, seguido dos Estados Unidos, com 11,2 milhões de unidades. O Brasil, com 2,6 milhões, foi o oitavo maior em 2006.
Analistas apostam que até 2017 a China deve conquistar a liderança mundial na produção de veículos.
No continente sul-americano, Colômbia e Venezuela já comercializam automóveis de oito marcas chinesas diferentes.
A Chana, maior fabricante de automóveis independente da China, foi a primeira a chegar ao Brasil, com picapes e vans de pequeno porte.
A Effa Motors tem planos de fabricar o Ideal no Uruguai para se valer dos acordos alfandegários do Mercosul. No Brasil, porém o modelo já é importado sob a alcunha de M100 (nome do projeto) por conta de uma notificação extra-judicial da Fiat, que quis "preservar" o nome de seu monovolume Idea.
Outros modelos que devem sofrer com a chegada dos chineses são os veículos de trabalho, como furgões e vans.
"Os chineses fizeram esforço grande em investimento de capacitação de pessoal. Isso proporciona escala de produção e capacidade de adaptação", afirma Edgard Pereira, economista chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).

Estudiosos e especialistas acreditam que o brasileiro tem predileção por itens que não fazem parte do cotidiano do mercado interno chinês. Além disso, há ainda o quase esotérico "custo Brasil", que sempre reafirma a crença de que esse não é um país para amadores.

"Os preços dos chineses tendem a subir aqui. Quando começarem a adotar os nossos processos, o custo fatalmente terá de subir", acredita Marcel Salzmann, diretor do Comitê de Manufatura do Congresso da SAE Brasil 2007.

Além disso, importado ou não, o carro oriental vai ter de ajoelhar no milho e rezar pela cartilha brasileira em relação a impostos. "Se for importar, por mais competitivo que seja, tem preço do frete e imposto. E, se decidirem produzir aqui, vão estar alinhados às montadoras locais", pondera Sergio Habib, presidente da Citroën.

Montadoras se mexem
É certo, porém, que os modelos de entrada, onde o preço é o principal atrativo, vão estar no olho do furacão asiático. E não é à toa que as montadoras estão se mexendo. A Ford prepara um novo compacto em cima da plataforma do Ka e a General Motors já tem na gaveta o projeto do subcompacto Spark, para contra-atacar a possível chegada do QQ.

"O consumidor de baixa renda não vai se preocupar com a qualidade do carro. Ele quer fugir do transporte público, que é deficiente. Montadoras como Ford, Fiat e Volkswagen já estão trabalhando com projetos novos", diz o economista Alexandre Andrade, da consultoria Tendências.

As fabricantes instaladas aqui, é claro, vão usar de velhas artimanhas para se blindarem. Como o surrado discurso de falta de qualidade, que sempre é usado contra forasteiros de olhos puxados -- foi assim com os japoneses na década de 1970 e com os coreanos na década de 1990.

"Eles têm vontade e entrada de tecnologia, o que confere rapidez e os torna capazes e competitivos. Um projeto que demora dez anos, eles fazem em três", alerta Sergio Alvarenga, diretor de Relações com Entidades da AEA (Associação de Engenharia Automotiva).

A ameaça é tão iminente que até práticas protecionistas por parte do governo são esperadas. "Acredito que alguma coisa pode ser feita para proteger o produto brasileiro. O ideal, porém, é que não houvesse nenhuma taxa de importação. Isso obrigaria as marcas [já estabelecidas] a fazerem produtos de qualidade com preço menor", avalia o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive. (Fernando Miragaya)

DÚVIDA SOBRE QUALIDADE VAI PASSAR, DIZEM ESPECIALISTAS
Primeiro foram os japoneses, nos anos 1970. Depois os sul-coreanos, na década de 1990. Os carros asiáticos sempre despertaram atenção e temor nas indústrias ocidentais. Agora são os chineses. Por terem uma espantosa agilidade industrial, especialistas acreditam que as tradicionais contestações em relação à qualidade dos automóveis chineses não se sustentarão muito tempo. Afinal, é o mesmo estratagema usado contra os carros nipônicos e coreanos. Hoje, eles são sinônimo de qualidade e têm fama de carros que quebram pouquíssimo.

"Os japoneses demoraram a ganhar credibilidade. O processo com os chineses é o mesmo, só que mais acelerado. Eles devem atingir em um nível de qualidade rapidamente", aposta Sérgio Alvarenga, da AEA.

Mas a agilidade chinesa pode encontrar uma resistência inesperado nos trópicos. O brasileiro tem uma certa síndrome de abandono em relação marcas asiáticas, como as japonesas Mazda, Daihatsu e Suzuki e a coreana Daewoo . "Carro chinês é novidade e vai haver um inevitável interesse do mercado. Essa bolha de vendas pode durar um determinado período, mas vai ser tudo muito gradual porque o brasileiro está escaldado", acredita Paulo Garbossa, da ADK Automotive.

"Eles vão precisar ganhar reputação de qualidade, de bom atendimento e investir no estilo. Há um caminho longo para conquistar a simpatia do consumidor", finaliza Edgard Pereira, do Iedi.

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