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01/08/2007 - 15h55

Onda de suicídios em montadoras preocupa a França

CLÁUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros
Com agências internacionais

AFP/Arquivo

Uma onda de suícidios de funcionários do grupo PSA, que reúne as montadoras Peugeot-Citroën, ameaça colocar em xeque as condições de trabalho nas empresas privadas da França. O país acaba de eleger como presidente Nicolas Sarkozy, que tem fortes ligações com o setor empresarial.

Desde o começo do ano, seis funcionários da PSA, cinco deles da mesma unidade, a Mulhouse, em Haut-Rhin, suicidaram-se. O caso mais recente aconteceu em 16 de julho, quando um empregado enforcou-se nas dependências da fábrica. A investigação policial concluiu, segundo os jornais "Le Monde" e "Le Figaro", que tratou-se de um suicídio motivado por "questões pessoais".

No entanto, no primeiro caso registrado este ano e relacionado à PSA, o funcionário que se matou deixou uma carta denunciando a "pressão moral" a que era submetido no trabalho. Ele trabalhava numa unidade da PSA denominada Charleville-Mézières, em Ardennes.

Os outros casos de suicídio este ano ocorreram em abril (um, dentro da PSA em Mulhouse) e maio (três funcionários da Mulhouse, todos em suas respectivas casas).

A instalação de Mulhouse fabrica o Citroën C4 e os Peugeot 206 e 308, e tem cerca de 10,5 mil empregados. As idades dos suicidas estão na faixa dos 30 aos 60 anos. O último deles, o que morreu em 16 de julho, tinha 55 anos, 29 deles como empregado da PSA.

Reações
A PSA reagiu aos casos de suicídios de funcionários pela voz de seu diretor-presidente, Christian Streiff, quando ele apresentou os resultados do grupo, na semana passada.

"A mídia e várias partes ouvidas pela imprensa, como sindicatos, médicos e psicólogos, quiseram estabelecer uma ligação estreita entre trabalho e suicídio. Mas o primeiro não é isoladamente a causa do segundo", disse Streiff.

Internamente, a PSA decidiu enfrentar a situação determinando que seus gerentes alertem a direção sobre quaisquer sinais suspeitos vindos de empregados. A imprensa francesa chegou a divulgar que o grupo temia que o suicídio de alguns "contagiasse" os demais empregados.

O conservador Le Figaro ouviu um psiquiatra, Didier Cremniter, do serviço de urgência de Paris, que afirmou: "As epidemias de suicídios existem, de fato, e a aparição desse tipo de conduta gera o risco de arrastar outros a comportamentos extremos". Para ele, indivíduos mais frágeis e que se sintam "desprotegidos" no local de trabalho podem ser levados ao sucídio.

O sindicalismo francês, comandado pela CGT (associada à esquerda), culpa as condições de trabalho, a redução do número de empregos e também a implantação de metas e métodos de gestão empresarial que podem causar uma pressão maior sobre os empregados.

De sua parte, o governo da França manifestou "preocupação" com a série de suicídios na indústria automobilística, por meio de seu ministro do Trabalho, Xavier Bertrand.

Durante a campanha eleitoral, na qual derrotou a socialista Ségolène Royal, o presidente Sarkozy prometeu não tocar na semana de trabalho de 35 horas, mas afirmou que as leis deveriam ser flexibilizadas para que quem desejasse trabalhar mais, para aumentar seus ganhos, pudesse fazê-lo. O próprio Sarkozy disse que, na prática, isso já acontecia no país - certamente referindo-se ao setor privado.

Números altos
Não se pode perder de vista, no entanto, que o suicídio não é exatamente uma raridade na França - muito ao contrário: ele é a principal causa não natural de mortes no país entre as pessoas na faixa de 25 a 34 anos, superando os homicídios e mesmo os acidentes de trânsito.

As autoridades de saúde estimam que, anualmente, há 155 mil tentativas de suicídio no país. Cerca de 11 mil delas resultam em morte.

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