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Documentos sugerem que montadoras colaboraram com a ditadura no Brasil

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Documento do extinto Dops da Polícia Civil traz suposta "lista negra" da Volks Imagem: Reuters

Brian Winter

Em São Paulo (SP)

05/08/2014 17h22

Quando João Paulo de Oliveira foi demitido em 1980 pela Rapistan, um fabricante de esteiras transportadoras cuja matriz fica em Michigan, nos Estados Unidos, seus problemas estavam apenas começando. Nos anos seguintes, a ditadura militar no Brasil (1964-1985) prendeu ou deteve Oliveira por cerca de dez vezes. Carros de polícia passavam por sua casa nos subúrbios industriais da Grande São Paulo, disse ele, e os oficiais faziam gestos intimidadores ou apontavam armas em sua direção.

O crime aparente de Oliveira: ser um sindicalista durante uma época em que os militares consideravam greves como subversão comunista.

"Eu costumava brincar que a minha casa era a mais segura no bairro com tanta polícia por perto", disse Oliveira, hoje com 63 anos. "Mas era difícil, realmente assustador, como uma tortura psicológica."

Pior, disse ele: outras fabricantes se recusaram a contratá-lo por muitos anos depois, vagamente citando seu passado. Outros colegas tiveram o mesmo destino. "Nós sempre suspeitamos que as empresas estavam passando informações sobre nós para a polícia", afirmou. "Mas nunca soubemos com certeza."

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  • Imagem: João Bittar/Reuters
    João Bittar/Reuters
    Imagem: João Bittar/Reuters

    Demissões e perseguição

    A Reuters entrevistou dez pessoas cujos nomes aparecem na "lista negra" dos funcionários de montadoras de veículos envolvidos em atividades que a ditadura militar (1964-1985) considerava subversivas. A maioria relatou ter sido despedida pelas empresas no início dos anos 1980. Alguns disseram que foram presos pelo menos uma vez. A maioria relatou problemas para encontrar trabalho mais tarde.

Evidências recentemente descobertas sugerem que as suspeitas de Oliveira eram bem fundamentadas. Uma comissão apontada pelo governo para investigar abusos durante a ditadura no Brasil encontrou documentos mostrariam que a Rapistan e outras empresas secretamente ajudaram os militares a identificar suspeitos "subversivos" e ativistas sindicais em suas folhas de pagamento.

Empresas estrangeiras e brasileiras são citadas nos documentos, incluindo algumas das maiores montadoras de automóveis do mundo: Volkswagen, Ford, Toyota e Mercedes-Benz, entre outras -- todas com sede brasileira na região do ABC.

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Relatório da Polícia Civil de São Paulo, de 1981, atribui informações sobre David Rumel, médico do sindicato dos metalúrgicos do ABC, ao "serviço de segurança da Volkswagen" Imagem: Reuters
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) ainda tem de publicar suas conclusões, e as empresas não foram até aqui acusadas de qualquer crime. Está em debate se elas colaboraram com a ditadura -- e, se sim, em que medida. No entanto, defensores dos direitos humanos e alguns dos trabalhadores citados nos documentos dizem que podem mover ações cíveis ou legais como resultado das conclusões da comissão. Alguns trabalhadores querem que as empresas paguem reparações por salários perdidos. Outros, incluindo aqueles que duvidam que o relatório da CNV será conclusivo o suficiente para um caso nos tribunais, dizem que ficariam satisfeitos com um pedido de desculpas.

A CNV foi instituída em 2012 pela presidente Dilma Rousseff, ela própria uma ex-militante de esquerda que foi presa e torturada por militares na década dos anos 1970. A comissão tem a tarefa de lançar nova luz sobre os abusos cometidos durante essa época, e quem foram os responsáveis por isso.

A ditadura apoiada pelos Estados Unidos matou cerca de 300 pessoas, e torturou e/ou prendeu milhares mais, como parte do que o regime via como uma luta para parar o esforço de esquerdistas de transformar o Brasil em uma versão muito maior da Cuba de Fidel Castro. Dilma, que está concorrendo à reeleição em outubro, expressou a esperança de que um registro histórico mais completo ajudará a garantir que o Brasil, agora uma democracia próspera e um crescente poder econômico, nunca repita erros daquela época.

As empresas, em geral, se beneficiaram das políticas conservadoras da ditadura. Acadêmicos há muito acreditam que as empresas locais e multinacionais ajudaram o regime a identificar os funcionários que estavam fomentando conflitos trabalhistas ou representavam uma suposta ameaça à estabilidade. Agora, os investigadores da comissão descobriram evidências que acreditam comprovar tal relação.

A CNV planeja incluir as alegações no seu relatório oficial, previsto para sair em dezembro. Seus membros permitiram que à Reuters tivesse acesso a documentos com evidências sobre as empresas à medida que a investigação se aproxima do fim.

Os documentos não fornecem um registro completo da repressão do Estado durante a ditadura. Alguns jornais da época foram queimados pelos militares ou desapareceram; alguns foram encontrados no ano passado nas casas de ex-oficiais depois que eles morreram; outros estão espalhados em arquivos oficiais.

A descoberta mais valorizada da CNV até aqui é um documento encontrado nos arquivos do governo do Estado de São Paulo que investigadores chamam informalmente de "lista negra". Datilografada, ela contém os nomes e endereços residenciais de cerca de 460 trabalhadores de 63 empresas do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano), região às vezes chamada de "Detroit do Brasil" por ter muitas montadoras estrangeiras.

A lista, que data de início de 1980, foi elaborada pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), uma agência de inteligência da polícia que existia principalmente para monitorar e reprimir os esquerdistas. Historiadores dizem que o Dops deteve um número indeterminado de pessoas -- incluindo a presidente Dilma -- e torturou muitas delas.

A Volkswagen é a empresa que tem mais funcionários na lista do Dops, com 73. A Mercedes-Benz aparece em seguida, com 52. O documento não diz para qual finalidade o Dops usou a lista, ou quais os critérios para selecionar os nomes. Também não indica como o Dops obteve as informações.

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Rosa Cardoso, da Comissão da Verdade, acredita que as "listas negras" não foram elaboradas por informantes, e sim pelas próprias empresas Imagem: Reuters
ORIGEM DAS INFORMAÇÕES
A advogada Rosa Cardoso, que lidera a subcomissão da CNV que investiga supostos abusos contra trabalhadores, disse que a lista parece ter sido usada para monitorar ativistas sindicais num momento em que os sindicatos da Grande São Paulo foram se tornando mais assertivos em suas demandas por melhores salários e condições de trabalho.

A lista, ou alguma versão dela, também pode ter sido distribuída a empresas para impedir os trabalhadores de conseguir emprego em outro lugar após serem demitidos, disse ela, com base em entrevistas que a comissão realizou. O documento inclui informações que, segundo Rosa, só podem ter sido fornecidas pelas empresas. Mais da metade dos nomes na lista têm o setor da fábrica onde os funcionários trabalhavam.

Esse dado, escrito à mão ao lado dos nomes dos empregados, é altamente específico, denotando a função do departamento ("Manutenção") ou sua nomenclatura interna ("Setor 4530"). "É uma prova de que essas empresas conspiraram para reprimir os seus trabalhadores", disse Rosa.

Alguns estudiosos alertam que é possível que as informações sobre os trabalhadores tenham sido obtidas por outros meios -- por exemplo, informantes dentro dos sindicatos ou pelo próprio Dops. Questionado sobre as explicações alternativas, Rosa disse: "Não com esse [nível de] detalhe".

Certos documentos descobertos pela comissão indicam mais claramente que as empresas passaram informações para os militares. Investigadores encontraram uma carta de duas páginas da Polícia Civil de São Paulo para o Dops, datada de 9 de março de 1981, sobre David Rumel, então um médico para o sindicato dos metalúrgicos.

A carta inclui data de nascimento e endereço residencial do Rumel, mas é mais concentrada em seu passado esquerdista. A carta observa que ele ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), como estudante, em 1971, e foi preso por cinco meses entre 1975 e 1976. A polícia diz que a informação foi "recolhida pelo serviço de segurança Volkswagen do Brasil".

O nome de Rumel não aparece na "lista negra". Não foi possível localizá-lo para esta reportagem.

OUTRO LADO
Em resposta a perguntas detalhadas da Reuters sobre se forneceu tais informações aos militares, a Volkswagen disse que ainda não foi contactada pela CNV. No entanto, informou que vai iniciar a sua própria investigação. "Sem o conhecimento dos documentos concretos, não somos capazes de dar respostas a todas as suas perguntas", disse Renato Acciarto, porta-voz da Volks, num e-mail. "Mas a Volkswagen vai investigar todas as indicações para obter mais informações sobre a empresa e as instituições do Estado durante o período (do regime) militar."

"A Volkswagen lançará luz sobre esse assunto para obter pleno conhecimento [do que aconteceu]", escreveu Acciarto.

Cheryl Falk, porta-voz do Dematic Group, com sede em Luxemburgo e que agora controla a Rapistan, disse que a empresa "não tem documentação ou registros" em relação aos empregados em sua unidade brasileira em 1980. "Valorizamos nossos funcionários e respeitamos sua privacidade, e não iríamos tolerar a conduta alegada [pela comissão da verdade]", acrescentou ela.

A assessoria de imprensa da Mercedes-Benz no Brasil disse que a empresa "não confirma" que deu informações aos militares, e disse que "tem entre seus valores ser apartidária e zelar pela confidencialidade dos dados cadastrais de seus empregados." A Ford se recusou a comentar. A Toyota e a Fiat, que agora é dona da Chrysler, disseram não ter registros de possíveis abusos durante aquela época.

"Gostaríamos de lembrar que estamos nos referindo a um período passado há mais de 30 anos", disse o Departamento de Relações Públicas da Toyota do Brasil.
 

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