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Montadoras se reorganizam após acordo Brasil-México

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A fabricante japonesa Nissan é uma das principais atingidas pela revisão nos termos comerciais Imagem: Divulgação


Alberto Alerigi Jr.

De São Paulo

19/03/2012 14h38

A revisão dos termos do acordo de comércio automotivo entre Brasil e México deve causar mudanças na organização produtiva de montadoras de veículos em ambos países, diante da restrição no volume de exportações ao Brasil e do incremento da regionalização de peças no México, disseram analistas.

O México aceitou na quinta-feira reduzir suas exportações de veículos ao Brasil para uma média de US$ 1,55 bilhão nos próximos três anos ante os US$ 2,4 bilhões de 2011. Depois desse prazo, os termos voltam ao livre comércio. Os mexicanos também aceitaram aumentar a proporção de peças da América Latina em seus carros de 30% atualmente para 40% em um prazo de cinco anos.

A revisão ocorreu depois que o Brasil ameaçou cancelar o acordo após sofrer déficit de US$ 1,17 bilhão no comércio exterior com o México em 2011, em meio a um salto de 70% das exportações mexicanas de carros. Atualmente, o intercâmbio comercial entre os dois países movimenta cerca de US$ 8,5 bilhões, dos quais 40% são correspondentes ao setor automotivo.

A mudança também ocorreu depois que o Brasil elevou, no final de 2011, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos importados fora do México e Mercosul em 30%. Para analistas, a revisão do acordo em vigor desde 2002 pode incentivar investimentos em categorias de veículos no Brasil como sedãs e utilitários esportivos, que atravessam aumento na demanda interna, atendida em grande parte por importações.

MOMENTO DE ADEQUAÇÃO
Além disso, os novos termos podem fazer o México, que tem vendas internas de cerca de 900 mil veículos por ano, transferir parte das vendas antes direcionadas ao parceiro para outros mercados da região, como Colômbia e Chile e mesmo os Estados Unidos, cujo mercado passa por recuperação após o colapso de 2009.

"Cada empresa vai ter que se adequar para volumes menores entre Brasil e México", disse Marcelo Cioffi, analista do setor automotivo da consultoria PricewaterhouseCoopers. "O acordo vai demandar que as montadoras se reposicionem nesse curto prazo porque a estratégia até agora era de trazer modelos mais sofisticados do México para o Brasil".

Segundo ele, o aumento da exigência de conteúdo local do México pode ser um complicador na estratégia global das montadoras para a região, na medida em que as empresas terão que desenvolver mais fornecedores regionais para o país.

No lado brasileiro, o acordo com México "tende a incentivar as montadoras a aumentar investimentos em produtos de maior valor agregado", acrescentou Cioffi, um objetivo perseguido pelo Brasil .

Atualmente, os investimentos de montadoras previstos para o Brasil são de cerca de US$ 20 bilhões até 2014, com vários projetos de novas fábricas sendo voltados a veículos compactos, como no caso da japonesa Toyota e da sul-coreana Hyundai.

Analistas consultados, porém, avaliaram o momento como ainda precoce para se especificar o tamanho do impacto do acordo em termos de volume de produção em ambos países, uma vez que não está clara a maneira como a cota limitada de exportações será distribuída entre cada marca.

Procurada, a associação de montadoras instaladas no Brasil, Anfavea, afirmou na sexta-feira que as próprias fabricantes de veículos definirão de que maneira se dará a distribuição da cota entre as companhias. Esta definição está prevista para "breve", segundo a assessoria de imprensa da entidade.

Por enquanto, uma das empresas consideradas por analistas como mais atingidas pela revisão dos termos é a japonesa Nissan, que importa do México para o Brasil cinco modelos: Sentra, Tiida hatch e Tiida sedã e os compactos Versa e March. No Brasil, a Nissan informou apenas que vai "continuar o nosso diálogo com ambos os países para melhor compreender o total impacto deste último acordo em relação ao nosso negócio".

SEM PRIVILÉGIOS
Para a diretora da consultoria MB Associados, Tereza Fernandez, a combinação da medida de elevação do IPI com a reforma do acordo com o México cria um "forte impacto para a indústria automotiva. De qualquer jeito as importações de carros pelo Brasil vão sofrer num primeiro momento, até as montadores se adequarem à nova realidade".

Segundo ela, o Brasil importou do México 71 mil veículos em 2010, volume que saltou 66%, para 118 mil, em 2011. Entre eles estão modelos sofisticados para os padrões do mercado brasileiro como Journey, da Chrysler; Beetle e Jetta, da Volkswagen; Fusion, da Ford; Captiva, da General Motors; e Honda CR.

"Agora não tem mais privilégio para ninguém", disse ela, referindo-se ao fato de que as importações mexicanas não tinham sido impactadas pelo aumento do IPI.

A avaliação de Tereza é que as montadoras poderão continuar exportando do México para o Brasil, mesmo fora do novo acordo, enquanto o real seguir valorizado contra o dólar. "Elas podem subir um pouco o preço (para compensar impostos), diminuir um pouco a margem, enquanto o câmbio estiver ajudando". Ao mesmo tempo, deverão investir para melhorar seus produtos no Brasil. "Estamos fabricando carroças de novo", disse.

Em termos de investimentos da indústria automotiva na região latino-americana, o analista Guido Vildozo, da consultoria global IHS Automotive, acredita que as montadoras passarão por um período de espera.

"É muito provável que passaremos por um processo de 'stand by' pelas montadoras. Vimos três montadoras anunciarem investimentos no México no último ano, mas acredito que não vamos ver isso nos próximos anos", disse Vildozo em referência ao limite de exportação para o Brasil e citando o potencial de crescimento do mercado brasileiro, previsto para atingir 6 milhões de unidades nos próximos cinco anos.

"O México continua projetando no médio e longo prazo que o Brasil tem muito potencial, então eles querem continuar sendo sócios estratégicos do Brasil no futuro", acrescentou.

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