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Mercado brasileiro de carros muda e pressiona fabricantes nacionais

Murilo Góes/UOL
Projetos da chinesa JAC (na foto, o J3) e coreana Hyundai mudam cenário nacional Imagem: Murilo Góes/UOL

Por Alberto Alerigi Jr.

Em São Paulo

02/12/2011 21h26

O mercado brasileiro de veículos atravessa um momento de desaceleração no crescimento, mas nem por isso tem deixado de atrair interesse de novos grupos, o que exercerá pressão ainda maior sobre fabricantes estabelecidas há décadas no país.

Uma combinação de crescimento da renda, crédito abundante e medidas do governo para incentivar a produção local e frear importações deve fazer o Brasil passar de cerca de dez marcas fabricantes existentes no país até há pouco tempo para mais de 20 até 2014, segundo projeção recente divulgada pela General Motors.

Isso exigirá atenção das montadoras em renovação acelerada de modelos ao mesmo tempo em que se expande capacidade produtiva, em investimentos de cerca de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 35 bilhões) até 2014, de acordo com estimativa da Anfavea, entidade que reúne as montadoras.

As margens das empresas que disputam a tapas (leia aqui o mais recente capítulo da disputa entre nacionais e importadores) o mercado brasileiro, atualmente o quarto maior do mundo, devem diminuir, disseram especialistas consultados pela "Reuters", enquanto o consumidor busca carro com qualidade alemã, design italiano e preço indiano.

"O mercado é soberano, não admite conviver com produtos velhos num ambiente de alta competitividade. Isso vai obrigar as montadoras a renovarem seus produtos mais rapidamente", disse o consultor do mercado automotivo e diretor da Universidade Fenabrave, entidade de educação com foco em gestão do mercado automotivo, Valdner Papa.

A preocupação com a renovação é crescente num momento em que novos e bem equipados modelos importados, principalmente da China e da Coreia do Sul, chegam ao Brasil com preços atraentes.

Esses veículos chegam para disputar mercado com modelos que em alguns casos ultrapassam décadas do lançamento da primeira versão, como a Kombi, da Volkswagen, de 1957; ou o Uno, da Fiat, dos anos de 1980; além de Corsa, da General Motors, e Ka, da Ford, dos anos de 1990.

Dados da consultoria do setor automotivo Oikonomia mostram que a participação de mercado dos principais fabricantes vem registrando quedas constantes desde pelo menos 2007: Fiat passou de 26 para 22%; Volkswagen recuou de 23 para 20,5%; GM passou de 21 para 18,5% e Ford caiu de 11 para 9%.

Enquanto isso, a coreana Hyundai avançou de 0,8 para 3% e marcas chinesas recém-chegadas ao Brasil, como a JAC, passaram de 0,08% em 2009 para 2% em novembro deste ano.

PLATAFORMAS
Agora que o Brasil se consolidou como grande mercado mundial e atraiu investimentos de fábricas de uma série de empresas -- Hyundai (em Piracicaba, SP), JAC (na Bahia), Chery, Suzuki e Nissan (que elegeou o Brasil como centro de suas ações), para citar exemplos recentes --, o interesse das montadoras já estabelecidas é defender participação de mercado adotando mais rapidamente plataformas globais de carros que vinham lentamente sendo implementadas no país.

A Ford anunciou recentemente que vai migrar todos os seus carros no Brasil para o modelo de plataforma global até 2015, em investimentos de R$ 4,5 bilhões. Enquanto isso, a GM prepara nova família de carros compactos (saiba como será o 2012 da marca no Brasil), de olho no segmento que mais deve puxar a expansão no Brasil, por conta da chegada de consumidores que até o início desta década não tinham condições de comprar seu primeiro veículo.

Segundo Papa, da Universidade Fenabrave, as vendas de veículos novos no Brasil desde 2005 mais que dobraram, saindo do patamar de 1,5 milhão para 3,5 milhões.

Para 2012, a avaliação é de crescimento mitigado pela crise financeira internacional, abaixo de 5%, e depois disso o ritmo médio esperado é de 5 a 6% ao ano, de acordo com os analistas consultados. De 2009 para 2010, o mercado brasileiro cresceu 12%.

"É um negócio que, pela concorrência, virou de volume. Hoje somos mais parecidos com o Walmart... A briga para atrair cliente está crescendo todos os dias", disse o presidente da GM para América do Sul, Jaime Ardila, geralmente pessimista, em evento recente do setor.

CLASSES A e C
Para o sócio responsável para o setor automotivo no Brasil da PricewaterhouseCoopers, Marcelo Cioffi, o crescimento da indústria global de veículos vai vir dos mercados emergentes e os consumidores nesses países demandam produtos atraentes, mas de baixo custo.

"Esse é o grande dilema das montadoras", disse ele, citando as plataformas globais como mecanismo para as fabricantes reduzirem custos e agilizarem o desenvolvimento de novos carros entre suas unidades mundiais.

Segundo ele, entre 2011 e 2017 o mercado brasileiro de veículos novos, excluindo caminhões, crescerá 46%, para 5,4 milhões de unidades. A capacidade produtiva da indústria terá alta de cerca de 30%, para 5,84 milhões de unidades ao ano.

Nesse sentido, a indústria avalia o segmento A, de veículos urbanos subcompactos, como importante para o crescimento do mercado brasileiro nos próximos anos. Para o presidente da GM sul-americana, muitas das novas fábricas sendo instaladas no país são voltada para isso, para atender a classe C que está crescento.

"As grandes montadoras já instaladas no Brasil vão continuar jogando onde jogaram até agora, mas vão complementar suas ofertas no segmento A mais premium", disse o diretor para mercado automotivo para América Latina da consultoria global IHS, Guido Vildozo, citando que em 2010 o PIB per capita do Brasil quebrou pela primeira vez a marca dos US$ 10 mil.

"Isso é muito importante, permite a entrada de mais consumidores no mercado (...) O país agora é consumidor, o que tem obrigado as montadoras a mudar suas ofertas."

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