Topo

Cultura do carro


É do Brasil: fãs de Volkswagen Gol cultuam hatch na Europa e EUA

Tiago Kfouri/Acervo pessoal
Até no deserto: Gol 1991 foi para os EUA e virou celebridade Imagem: Tiago Kfouri/Acervo pessoal

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

2019-05-17T07:00:00

17/05/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Brasileiros compartilham paixão pelo carro em cantos opostos do mundo
  • Gol CL 1998 foi achado por Renato "semi abandonado" em uma loja na Alemanha
  • Tiago levou seu Gol turbinado para os EUA e virou celebridade no universo de fãs da VW

Nürburgring Nordschleife é a meca dos amantes de carros do mundo inteiro. É por isso que o autódromo recebe todo dia milhares de visitantes a bordo de todos os tipos de carros. Mesmo assim uma imagem que circula pelas redes sociais intrigou os brasileiros: como um Volkswagen Gol foi parar lá?

Renato Hinkelmann tem as respostas. Residente em Colônia, o engenheiro estava começando a montar sua coleção de carros antigos. Já tinha dois carros: um Fiat 500 e uma Volkswagen Kombi Standard 1974 fabricada no Brasil e importada para a Alemanha por conta própria. Foi quando ele encontrou um veículo "perdido" em uma loja de carros antigos e raros: um Gol CL Mi 1998.

A história bizarra de um Gol na Alemanha (e não "da Alemanha", é bom frisar) começou quando uma empresa do setor de autopeças importou o carro para realizar testes de desenvolvimento de componentes.

Renato Hinkelmann/Acervo pessoal
Disputando posição com um Porsche? Renato diz que só curtiu o passeio Imagem: Renato Hinkelmann/Acervo pessoal

Porém, quando o Gol chegou em solo alemão a Volkswagen já havia lançado a Geração III do hatch no Brasil e o veículo ficou desatualizado. O carro ficou guardado até 2000, quando foi vendido. Porém, como o veículo foi importado para testes, ele não tinha os documentos necessários para ser licenciado.

Dois alemães tentaram legalizá-lo, sendo que um deles até consultou a Volkswagen da Alemanha e do Brasil, mas nunca conseguiram. Em 2015, o Gol foi adquirido por Stephan Krupp, dono da Autohaus Krupp, loja especializada em automóveis antigos e raros. E lá ficou por meses à espera de um novo dono.

"Fui ver o Gol por curiosidade, pois nem tinha a intenção de comprá-lo. Porém, quando cheguei lá o Stephan fez uma proposta pela minha Kombi dando o Gol como parte do pagamento. Só depois que fechei negócio pensei o que faria com o carro: ninguém se interessaria por ele e o carro acabaria sendo desmontado porque só conseguiria vender algumas peças. Então resolvi ficar com ele", conta Renato.

Depois de um ano correndo atrás dos documentos necessários para regularizar o Gol na Alemanha, Renato finalmente conseguiu emplacar o hatch. Mas não sem antes realizar algumas alterações. "Precisei instalar faróis de neblina, que eram exigidos pela lei, e também tive de levar o carro em um dinamômetro para realizar testes de emissões de poluentes", diz Hinkelmann, que escolheu um tipo de licença que permite rodar apenas durante o verão alemão.

Dois brasileiros em Nürburgring

Renato Hinkelmann/Acervo pessoal
Cena insólita: Gol CL chamou atenção de todos em Nürburgring Imagem: Renato Hinkelmann/Acervo pessoal

Renato parecia ter resolvido todos os problemas quando um imprevisto colocou o futuro do Gol em xeque. "O para-brisa tinha uma fissura bem pequena que virou uma rachadura gigante quando levantei o carro em um elevador. Fiquei sem saber o que fazer e já estava até negociando com uma empresa especializada em importação de Kombis brasileiras para trazer um para-brisa quando achei uma peça de Gol G4 em uma concessionária da Alemanha. Até hoje ninguém soube me dizer o que aquele para-brisa estava fazendo lá", disse.

Fora as alterações obrigatórias para ser licenciado, apenas as rodas originais com calotas foram trocadas pelas belas Westwood vendidas no Brasil no Gol GTI 16V -- oferecidas como opcionais no Passat alemão. Do lado de dentro, Renato instalou um rádio original da Volkswagen utilizado no Golf Mk3, bem parecido com os rádios Volksline vendidos como acessórios no fim dos anos 90.

Foi assim que Renato viajou alguns bons quilômetros até Nürburgring Nordschleife. Logo o brasileiro virou o centro das atenções na mítica pista de 20,8 km de extensão e virou celebridade nas redes sociais após postar fotos no perfil do Instagram "Classic Cars Europa".

Mesmo sem a pretensão de realizar modificações profundas, Renato admite que quer fazer pequenas melhorias para recuperar o nível máximo de originalidade do Gol. "Preciso trocar o para-sol porque a mola dele não funciona mais e estou pensando no que fazer com os logotipos de plástico que perderam a aparência cromada". A pintura também está queimada no teto, mas o engenheiro não pretende restaurá-la. "Quero deixar assim como uma cicatriz do tempo", afirma.

E qual seria a próxima aventura? "Pretendo fazer uma viagem até a Eslovênia e passar por algumas cidades da Áustria antes de fazer uma parada estratégica em Reifnitz, onde acontece o Wörthersee Treffen (maior encontro de fãs de carros da Volkswagen do mundo). Já fiz até a inscrição", conta orgulhoso.

Sonho realizado: Gol foi aos EUA e coleciona prêmios

Marcos Camargo/Acervo pessoal
Tiago levou seu Gol turbinado para os Estados Unidos e virou celebridade Imagem: Marcos Camargo/Acervo pessoal

São 8.353 km que separam Renato de outro conterrâneo que compartilha a mesma paixão. Tiago Kfouri tinha uma carreira de sucesso na indústria automotiva quando se mudou para os Estados Unidos no fim de 2015. Apesar de realizar o sonho de morar fora do Brasil, ele se viu em meio a um grande dilema: o que fazer com seu maior xodó, um Volkswagen Gol 1991?

"Decidi vender meus carros antigos antes de deixar o país, mas fiquei com ele porque meu sonho de moleque era ter um Gol turbo. Assisti muitas corridas e provas de arrancada em Interlagos e tinha uma vontade muito grande de ter um carro modificado, e o Gol era um carro que eu podia sonhar em ter um dia, algo bem diferente de uma Ferrari F40", brinca Kfouri, que mantém um canal no YouTube chamado "Carros de Colecionadores".

O Gol GL foi comprado em 2010 de sua primeira dona com apenas 26 mil quilômetros rodados. "Ele era do jeito que eu queria, com um motor 1.8 a gasolina que era perfeito para montar um turbo e o mais simples possível, mas com algumas coisas interessantes, como o painel satélite. Sempre fui louco por carros modificados e um Gol turbinado era a maior expressão de um carro assim".

Tiago Kfouri/Acervo pessoal
Kfouri posa ao lado do GLR, que ainda estava no primeiro estágio do projeto Imagem: Tiago Kfouri/Acervo pessoal

O projeto foi concluído no mesmo ano, extraindo 256 cv e 38,2 kgfm do motor AP-800 com 1.1 bar de pressão na turbina. O Gol recebeu outros itens como freios maiores com dutos de refrigeração, rodas de 15 polegadas e um par de bancos concha fixos do Maserati Trofeo com cintos de quatro pontos (o banco traseiro foi retirado). Até o nome foi modificado: GLR, uma combinação do "GL" da versão original de fábrica com o "R" de Racing.

Essa receita permaneceu por sete anos, período no qual o GLR virou celebridade no mundo dos carros personalizados no Brasil. Até Rubens Barrichello pilotou o Gol em uma gravação do programa "Acelerados" e se surpreendeu com o nível de qualidade do projeto realizado por empresas renomadas como a Keller Preparações. Até que chegou a hora de realizar outro sonho: levar o Gol para os Estados Unidos.

Depois de dar baixa no documento do carro no Detran e contratar uma empresa especializada em exportação de bens para a América do Norte, Tiago resolveu fazer um upgrade no seu xodó. Além de algumas modificações sutis no visual, o carro teve o acabamento interno totalmente refeito e ganhou até peças feitas sob medida, como um criativo porta-copos instalado do lado esquerdo do motorista.

Agora com 1,9 litro, o motor foi adaptado para rodar com a gasolina norte-americana de 93 octanas -- o projeto original rodava com etanol -- e ganhou uma injeção eletrônica Fueltech FT600. Atualmente, o GLR está com 341 cv e torque máximo de 49,2 kgfm. Desde sua chegada aos Estados Unidos, o Gol virou figurinha carimbada em evento e desperta muita curiosidade por onde passa.

Tiago Kfouri/Acervo pessoal
GLR foi exposto no SEMA Show, maior evento de personalização do mundo Imagem: Tiago Kfouri/Acervo pessoal

"Aqui (nos EUA) carros como Camaro e Mustang são muito comuns nas ruas, e o Gol é um modelo diferente de tudo. Eles adoram e se interessam sobre a história do carro. Me sinto feliz por mostrar que o Brasil tem muita mão de obra de qualidade e faz um trabalho bacana a ponto de o carro ser convidado para participar do SEMA Show (maior evento de personalização do mundo)", diz.

Kfouri ainda tem um Chevrolet Corvette C6 Z06, um Volkswagen Jetta e uma picape Ford F-150. Mesmo assim, Tiago usa o Gol sempre que pode em compromissos diários. Porém, Tiago tem uma notícia para quem espera novas modificações no Gol.

"Por enquanto nenhuma modificação está nos planos. Agora quero curtir meu carro e viajar pelos Estados Unidos dirigindo o GLR", conclui.

Mais Cultura do carro