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Mão na roda


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Quais os novos tipos de pneu no mercado? Sai mais caro usar no seu carro?

Gary Cameron/Reuters
Pneu de um Honda Accord 2013 Imagem: Gary Cameron/Reuters

Thais Villaça

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-03-26T07:00:00

26/03/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Mercado já oferece pneu verde, pneu que não infla e até mesmo sem ar
  • Tanto os pneus verdes quanto os run flat são até 40% mais caros que os tradicionais
  • Pneus em carro elétrico têm desgaste até 30% maior que em carros a combustão

Com tantas tecnologias de ponta sendo constantemente anunciadas na indústria automotiva, os pneus acabam ficando em segundo plano - muitos motoristas só lembram deles quando furam. Mas os pneus têm um efeito enorme em todo o funcionamento do veículo. Como o único elo entre seu carro e a estrada, eles são um dos componentes mais importantes em temos de performance e segurança.

À primeira vista, os pneus de 50 anos atrás parecem muito os que temos hoje em dia. Pneus radiais começaram a se popularizar na década de 1960 e são usados até hoje. Mas muito vem acontecendo no universo da tecnologia desses componentes graças às inovações exigidas pelos consumidores e legislações que visam a economia de combustível.

Já existe no mercado hoje em dia diversas novidades que muitos consumidores desconhecem devido à falta da divulgação: pneus que rodam mesmo furados, que selam sozinhos em caso de danos, que ajudam a economizar combustível ou mais resistentes e silenciosos para atender à nova demanda de carros elétricos. Além de outras inovações surpreendentes que ainda estão por vir, atualmente na fase de testes ou conceito.

Murilo Góes/UOL
Diversos fabricantes já adotam "pneus verdes" em seus lançamentos no Brasil Imagem: Murilo Góes/UOL
Pneu verde

Duas tecnologias se tornaram mais populares nos últimos anos: os pneus verdes e os run flat. Os pneus verdes nada têm a ver com a cor do material usado, afinal, na aparência eles são basicamente iguais aos pneus comuns. A diferença é que, por terem baixa resistência ao rolamento, ajudam na economia de combustível. A adição de sílica na produção do componente reduz o atrito com o asfalto, então eles trabalham mais frios e exigem menos do motor, diminuindo o consumo - uma economia de até 5%. Dessa forma, também ajudam na redução das emissões de poluentes.

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Run flat é quase sinônimo de carro de luxo, mas o EcoSport 2020 já usa Imagem: Murilo Góes/UOL
Pneu que não murcha

Já os run flat, como diz o nome, podem rodar mesmo furados, uma vez que possuem reforços estruturais nas laterais que suportam o peso do veículo sem que a roda encoste na banda de rodagem. Assim, o motorista pode percorrer até 80 km de distância, a uma velocidade máxima de até 80 km/h, até encontrar um local apropriado para fazer a troca.

"O principal benefício ao consumidor é eliminar situações de emergência, já que ele não precisa parar em uma área de risco para trocar o pneu. E também há vantagens para a montadora, que não precisa colocar estepe no veículo, deixando-o mais leve e com mais espaço no porta-malas", afirma João Scalabrin, Supervisor Comercial de Desenvolvimento de Produto da Continental. O carro precisa ter um sistema de monitoramento de pressão (TPMS) para que os pneus run flat sejam eficientes de fato, pois assim o motorista saberá quando há um furo e as medidas de segurança a tomar.

Muitas fabricantes já adotam esse recurso no Brasil, especialmente marcas premium como Audi, BMW e Mercedes-Benz, mas até o Ford EcoSport ganhou recentemente uma versão sem o característico estepe na tampa do porta-malas equipado com pneus run flat desenvolvidos pela Michelin. Tanto os verdes quanto os run flat são de 20 a 40% mais caros que os pneus tradicionais, de acordo com as medidas e o tipo de uso, mas oferecem vantagens em longo prazo. O reparo em caso de furo pode ser feito nos verdes, mas nos run flat, há uma ressalva: "Para isso, o veículo não pode trafegar com o pneu sem ar, já que o peso acaba afetando os reforços estruturais. Caso o veículo seja encontrado com pneu sem ar parado, é possível repará-lo", explica Roberto Falkenstein, Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Pirelli para a América Latina.

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BMW i3 usa pneu mais alto e fino, mas que também é mais resistente Imagem: Divulgação
Pneu para carro elétrico

Com o crescimento da frota de carros elétricos, pneus específicos para essa categoria tem sido uma grande preocupação das fabricantes do componente. Pirelli e Goodyear, por exemplo, apresentaram novas tecnologias para melhorar o desempenho dos elétricos no Salão de Genebra do ano passado. "Os pneus desses veículos podem sofrem um desgaste até 30% maior que em carros a combustão por fornecerem torque instantâneo, além de serem mais pesados devido às baterias", ressalta Fernando Pexe, Líder de Marketing de Pneus Passeio da Goodyear. Mais duráveis e resistentes, os pneus precisam ser ainda mais silenciosos, uma vez que motores elétricos não fazem barulho. Ruídos que antes eram imperceptíveis aos ocupantes do veículo passam a ser motivo de incômodo, então esses pneus possuem revestimentos internos para melhorar a acústica. Sem alterar o desempenho do veículo, prometem as empresas.

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Imagem: Divulgação
Pneu que não fura

Outra novidade que já pode ser encontrada no marcado é o pneu autosselante. O ContiSeal, da Continental, traz uma película protetora no interior que sela o buraco causado pela perfuração, impedindo a saída do ar. Segundo a fabricante, o processo funciona em quase todos os furos causados por objetos de até 5 milímetros de diâmetro, que representam cerca de 85% dos danos de perfuração causados aos pneus. "A diferença em relação ao run flat é que esse tipo de pneu pode continuar a ser usado normalmente, sem restrição de distância ou velocidades máxima, além de não precisar de reparo. Nesse caso também elimina-se a necessidade de um estepe", diz Scalabrin.

Tudo isso já é realidade. Mas o que esperar para o futuro dos pneus com as tecnologias cada vez mais avançadas? Há uma série de testes sendo feitos atualmente nesse segmento. Novos materiais mais "ecologicamente corretos", conectividade com o veículo e até pneus para carros voadores são algumas delas.

Pneu com cores

Talvez o desenvolvimento menos tecnológico, digamos, possa ter o maior impacto na segurança do motorista. O chamado "pneu descolorido", à primeira vista, se parece com qualquer outro pneu preto, mas quando sua superfície se desgasta para um nível mínimo de segurança, sua superfície fica laranja brilhante. A cor é inserida em uma camada interna durante o processo de fabricação e permite que o motorista saiba quando é hora de substituir seus pneus.

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Imagem: Divulgação
Pneus autoinfláveis

Usados em maquinário pesado e veículos militares, os pneus autoinfláveis usam sensores para medir a pressão e automaticamente adicionam ou diminuem a quantidade de ar. Eles têm uma espécie de anel interno com uma válvula que, ao rodar, é pressionado para ajustar a pressão. Os componentes costumam perder cerca de duas libras por mês durante o uso normal, e o sistema corrige automaticamente essa perda de ar. Essa tecnologia poderá equipar carros de passeio em breve.

Aternativas sustentáveis à borracha também podem passar a dominar a produção dos pneus. Guaiúle, um arbusto encontrado nos desertos do sudeste dos EUA e no México, tem sido usado em um grau limitado na produção de borracha por mais de um século. Pesquisadores ainda tentam encontrar maneiras de melhorar sua resistência a rachaduras e acúmulo de calor para que possam ter um papel mais significativo na indústria. Há ainda experimentos com raízes de dente-de-leão na Rússia, material semelhante ao extraídos das seringueiras - mas são mais fáceis de colher e melhores para o meio ambiente.

Sistema conhecido como "Informação detectada na área de contato" (Cais, na sigla em inglês) inclui um sensor anexado na parede interna do pneu que monitora como ele interage com a superfície da via. A tecnologia checa as condições do piso para distinguir entre seco, molhado, lama, neve ou gelo, e manda informações em tempo real ao motorista por meio de uma tela no painel do carro ou até por um aplicativo no celular. O Cais também permitirá que o sistema compartilhe a informação com outros veículos com o mesmo tipo de conectividade, possibilitando que o carro antecipe as ações do veículo à frente.

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Imagem: Divulgação
Pneu sem ar

Uma das tendências mais impressionantes visualmente a surgir nos últimos tempos é o pneu sem ar. Eles têm superfície externa suportada por raios flexíveis de poliuretano que absorvem a força da estrada - ou seja, usam menos borracha - alta resistência lateral e índices superiores contra aquaplanagem. A ideia é que durem até três vezes mais do que os pneus tradicionais. Além de serem mais ecologicamente corretos, eles também são mais facilmente reciclados. A desvantagem dos pneus sem ar é uma rodagem mais áspera em velocidades altas, algo que já vem sendo corrigido pelos fabricantes.

E quando tivermos carros autônomos voadores, a Goodyear já terá o pneu próprio pra eles. A marca apresentou o protótipo Aero no Salão de Genebra deste ano, que pode rodar nas ruas e oferecer propulsão suficiente para que o veículo decole e ganhe os céus. Uma série de inovações fazem parte de sua concepção: estrutura não-pneumática (como os pneus sem ar), propulsão magnética, sensores ópticos e inteligência artificial. Essas características permitem aliviar o choque do carro com o solo, proporcionar propulsão sem atrito e, assim como o Cais, monitorar as condições dos pneus e comunicar-se com outros veículos.

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