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Cultura do carro


Perfil: este fotógrafo tomou até tiro para mostrar carros em primeira mão

André Larangeira/Acervo
Larangeira, 60 mil imagens: "Pela minha experiência faço poucas fotos. Em Interlagos, sei onde as coisas acontecem" Imagem: André Larangeira/Acervo

Aldo Tizzani

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

07/01/2019 07h00

Cláudio Larangeira tem acervo de 60 mil fotos, histórias únicas e foi amigo até de um tricampeão da F-1

Cláudio Larangeira -- "com G", ele explica, ainda que praticamente não precise de apresentação dentro do meio automotivo -- começou a fotografar ainda aos 16 anos. Sua especialidade é mostrar carros na melhor forma possível. "Quanto mais rápido, melhor", afirma, sem perder a fama coletada ao longo de quase seis décadas de profissão e muitas histórias vividas.

Aos 73 anos, Larangeira viu o desenvolvimento da indústria automotiva brasileira do carburador à injeção direta, do filme de 36 poses às máquinas digitais de alta definição. Tomou tiros de seguranças da Volkswagen ao flagrar o presidente da companhia dirigindo a Brasília, antes do lançamento. Teve que ficar tocaiado no interior de Mato Grosso para fotografar a segunda geração do Ford Corcel. Acompanhou a chegada dos japoneses, coreanos e, mais recentemente, dos chineses.

UOL Carros conta parte dessa trajetória cheia de experiências, que teve até carona para o piloto Ayrton Senna em Interlagos.

Carona para Ayrton Senna

Com uma câmera emprestada do pai, Larangeira ia com os amigos da Zona Norte de São Paulo ao Autódromo de Interlagos, antes mesmo de ser batizado com o nome José Carlos Pace, homenagem ao piloto falecido em 1977.

Enquanto os colegas se divertiam dentro da pista ele começava a lapidar seu dom com as lentes. Mas também trabalhava adesivando os carros de alguns competidores, já que tinha muita habilidade para trabalhos manuais.

Nessa intimidade com os bastidores de Interlagos e com o automobilismo nacional, teve a oportunidade de ver e fotografar várias gerações de pilotos brasileiros e diversas competições: trabalhou em mais de 40 GPs de F-1 e Formula Indy. E assim conheceu Chico Landi, Emerson e Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Felipe Massa, além de Ayrton Senna.

"Contratado pela Toleman para correr na Fórmula 1 na temporada de 1984, Senna foi convidado pela revista "Quatro Rodas" para testar a avaliar alguns modelos "esportivos" nacionais, em Interlagos. Quando chegou ao autódromo, o jovem piloto confessou que nunca tinha guiado um carro em Interlagos. Larangeira não teve dúvida: chamou Senna de lado e, gentilmente, lhe ofereceu uma carona num dos carros que iria testar em seguida. Apenas para lhe mostrar o caminho", relembra o jornalista Roberto Ferreira, atual diretor de redação da revista "Revenda Construção", que naquela época fazia parte da equipe da revista.

Aquele seria um megateste, com 12 carros que seriam avaliados em Interlagos. Seu Milton, pai de Ayrton Senna, deixou o piloto no portão do autódromo. Mas, segundo o fotógrafo, contou mais como a "estreia" de Senna na pista paulistana, já que as corridas de F-1 no Brasil eram, até então, disputadas em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. 

"Foi a primeira vez que o Ayrton percorreu todo a traçado de Interlagos e isso de carona comigo", afirma Larangeira, emocionado. A bordo de uma Volkswagen Parati vermelha, o fotógrafo deu uma volta no circuito com Senna. 

Senna e o fotógrafo eram amigos desde o tempo em que o piloto estava no kart. Muitas vezes Senna voltava de alguma corrida e parava na casa do fotografo para conversar, tomar café, já que ambos moravam na Zona Norte de São Paulo. "Senna era uma pessoa diferenciado e um profissional focado. Era frio e obcecado pelo que fazia. Era um perfeccionista", lembra Larangeira .

Se o fotógrafo viu nascer um tricampeão mundial de F-1, também acompanhou todo o desenvolvimento e construção do primeiro Formula 1 brasileiro, o Copersucar-Fittipaldi. "Fotografei a modelagem do banco do Emerson. Naquele dia ele usava um moletom velho para sentar no poliuretano e moldar as curvas no assento. Tenho um exclusivo acervo sobre o carro", conta o fotógrafo.

Claudio Larangeira/Quatro Rodas/Acervo
Ayrton Senna estampando mega-teste da revista "Quatro Rodas". Piloto foi de carona com Larangeira naquela Paraty Vermelha ali atrás, instantes antes, reconhecer a pista de Interlagos Imagem: Claudio Larangeira/Quatro Rodas/Acervo

Recordidas do Camel Trophy

Mas Larangeira não é só velocidade, a aventura também corre em suas veias. Ele foi um único a participar de cinco edições do Camel Trophy, uma das maiores competições off-road do planeta, realizada entre 1980 e 2000: Amazônia (1984), Bornéu (1985), Austrália (1986), Madagascar (1987) e Amazônia (1989).

Segundo o fotógrafo, além de falar inglês com desenvoltura, era preciso ter excelente preparo físico e habilidades para suportar altos níveis de estresse. "Nesta competição é preciso ter sangue frio e muito controle, já que o competidor é levado ao limite físico, psicológico, além de se alimentar mal", explica.

"Na edição de Bornéu, por exemplo, em 12 dias rodamos apenas 50 quilômetros de um total de 150. Era uma estrada usada para retirada de madeira. Havia muitos troncos e três metros de água. Os veículos tiveram de ser desmontados, suas peças catalogadas e levadas de helicóptero para outra região. Era pura superação", desabafa Laranja.

"Em 1987 voltei de Madagascar com malária e fiquei isolado no Hospital Emílio Ribas com suspeita de ter contraído uma espécie rara de vírus que não existia no Brasil. Depois dos exames mais rigorosos fui liberado. Um tremendo susto", revela.

De fato, sangue frio e habilidade nunca faltaram ao experiente fotógrafo, que também entendia do lado competitivo. "Claudio Larangeira é um dos maiores experts em off-road do Brasil. Em 1989, fiquei ao seu lado, no banco traseiro do [Land Rover Defender] A-110 da equipe brasileira que participou do Camel Trophy Amazonia, e, confesso, foi uma aula de paciência, conhecimento e dedicação", afirma o jornalista Roberto Ferreira.

"De poucas palavras, Larangeira se transformava quando via, pela frente, um lamaçal aparentemente intransponível. Ele dizia: 'Se quiserem, posso deixar a máquina fotográfica no carro e tirar o carro da lama para vocês'".

Claudio Larangeira/Acervo
Clique fantástico durante Camel Trophy na estrada Transamazônica: recordista de participações Imagem: Claudio Larangeira/Acervo

Todos os ângulos do Corcel II

Uma foto que marcou a carreira profissional de Cláudio Larangeira foi um "furo de reportagem", como é chamada a informação quente, descoberta antes que qualquer outra fonte revele. No caso, a chegada da segunda geração do Ford Corcel, no final da década de 1970.

Havia indícios que a marca norte-americana estava testando o novo carro "no meio do nada". Com a ajuda de um pastor evangélico, amigo do repórter Nehemias Vassão, um intrépido garimpeiro de "segredos", o time da revista "Quatro Rodas" rodava pela região de Rochedinho (MS) com um Ford Rural.

Maltrapilhos, de camisas velhas, calças rasgadas e chapéu de palha, tentavam não chamar a atenção. Como naquela época não havia celular, os jornalistas se comunicavam via rádio.

Escondido em um bar de madeira, à beira de uma estrada de terra, Larangeira estava de tocaia. Vassão passou rádio dizendo que estava vendo luzes de dois carros. O sinal estava dado, era hora de contar com a sorte.

Larangeira se posicionou no meio de escuridão. O flash da Nikon começou a pipocar. Depois dos cliques, o fotógrafo correu para o bar. Colocou o filme dentro de um buraco do botijão de gás e saiu correndo para o mato, onde se escondeu dentro de um chiqueiro.

Foi a forma para os seguranças da Ford não encontrarem o material, ou o fotógrafo. A equipe da revista foi se reencontrar quando raiou o dia. Resultado da missão: uma capa com o sedã Corcel vindo e a perua Belina indo.

Aqui um fato curioso. Segundo Larangeira, ao saber das fotos o publicitário Mauro Salles, que cuidava das campanhas da Ford, marcou um reunião com o presidente da Abril, Roberto Civita. Em função do estoque do Corcel original nas lojas, Salles queria atrasar a publicação do segredo em troca de uma programação de anúncios. "Civita não aceitou a proposta e a matéria foi publicada", relembra o fotógrafo.

Para outro ex-profissional da Ford, o jornalista Luiz Carlos Secco, por muitos anos assessor de imprensa da fabricante, Laranjeira, além de amigo de longa data é um tremendo profissional. "Uma santidade como pessoa e um monstro na fotografia", afirma Secco.

Claudio Larangeira/Quatro Rodas/Reprodução
Trabalho feito: flagra do carro inédito, apesar da violência que acabou até em tiro Imagem: Claudio Larangeira/Quatro Rodas/Reprodução

A foto, apesar do tiro

Vamos voltar ao início da década de 1970, mais precisamente a março de 1973. Então fotógrafo freelancer, Larangeira estava sempre no rastro de lançamentos da Volkswagen. Foi para Foz do Iguaçu (PR), Apiaí (SP) e rodou por todo Vale do Ribeira (SP) a pedido da revista "Quatro Rodas", e nada.

Em uma manhã de verão, o jovem fotógrafo e o repórter Vassão estavam no lugar certo, na hora certa. O então presidente da VW Rudolph Leiding resolveu dar uma voltinha na inédita Brasília pela Estrada Velha de Santos (SP). Com um Fusca alugado, a dupla conseguiu fazer as tão cobiçadas fotos do modelo.

Mas depois dos cliques começa a perseguição. O Fusca era seguido por uma Chevrolet Veraneio que fazia a escolta do presidente da companhia e, obviamente, do novo carro.

O problema é que a ação toda descambou para a violência. 

Os seguranças sacaram seus revolveres e começaram a atirar no Fusca. Um dos tiros acertou a placa. Depois de minutos de perseguição e alto nível de estresse, o utilitário conseguiu fechar o caminho do pequeno besouro.

Dentro do carro, Larangeira só pensa em uma coisa: rapidamente tira o filme da máquina e coloca o pequeno rolo dentro do tênis. Instantes depois, um dos seguranças da VW abre a porta, toma a máquina e retira o filme. Em seguida a Polícia Rodoviária chega e encaminha a equipe da "QR" para uma delegacia de São Bernardo do Campo (SP).

Como toda a ação teve testemunhas, a notícia ganhou até as ondas do rádio. Vários colegas davam boletins sobre "dois jornalistas detidos pela polícia". Não podemos esquecer que o país vivia em pleno regime militar. A repressão da sociedade civil aumentava, o sindicato dos jornalistas foi acionado e a própria diretoria da montadora foi obrigada a entrar no circuito.

Depois de algumas horas, a dupla fez exame de corpo de delito e acabou liberada. Com o filme intacto, no tênis, é claro.

"Este, com certeza, foi o maior furo da minha vida. Foi um marco na minha carreira profissional", lembra Larangeira. A capa da revista estampava a seguinte chamada na edição de maio de 1973: "Brasília: A foto apesar do tiro".

Alguns dias após o incidente, o fotógrafo encontra Victor Civita, presidente do Grupo Abril, no elevador cheio de gente e acompanhado de seu inseparável cachorro de estimação. Naquela ambiente há uma troca de diálogo entre os dois. "Você é o menino da confusão da Volkswagen?", perguntou Civita. "Sou eu sim, senhor", respondeu Larangeira.

O papo continuou: "Eu ouvi dizer que você é freelancer aqui. Quais seus planos para a Abril?', indagou o executivo. Larangeira disse que gostaria de ser efetivado.

Algum tempo depois o jovem seria contratado como fotógrafo oficial da "Quatro Rodas".

Carros e fotos em evolução

Testemunha ocular (literalmente) da indústria brasileira de carros, Claudio Larangeira viu Corcel, Brasilia, mas também o Fusca, carros e competição e os atuais elétricos e carros autônomos.

Larangeira aprendeu mecânica fuçando, lendo e tendo contato com muitos profissionais da indústria, da área da reparação automotiva e de competição. No dia a dia gosta de carros com câmbio manual. Um de seus preferidos foi o Mitsubishi 3000 GT. "O carro era fácil dirigir e tinha até esterço na roda traseira", relembra o fotógrafo.

Já na estrada, câmbio automático é fundamental em qualquer tipo de carro. Um de seus eleitos é o Range Rover Sport, que além de desempenho e conforto, traz uma acústica perfeita e boa dose de tecnologia.

Premiado e respeitado em todo o mundo, Larangeira diz que o enquadramento está no cérebro e não no visor da câmera. "É preciso ter um olhar diferenciado. Sou fotógrafo 100% do dia. Os automóveis evoluíram, as máquinas fotográficas também, mas a minha paixão pelos carros continua igual a da adolescência", conta Larangeira, que já operou os dois olhos pelo efeito da catarata.

Larangeira conta com um acervo de mais de 60 mil fotos. Metade dele está digitalizado e tem de tudo um pouco: carros de corrida, clássicos, até esportivos brasileiros -- do Willys Interlagos e Renault Gordini ao GM Kadett 2.0 GSI. "Tenho ainda uma grande quantidade de imagens de turismo e aventura pelo Brasil e pelo mundo inteiro", explica o profissional.

O jornalista Cicero Lima, hoje com 58 anos, lembra de um pôster de um Dodge Polara SE, amarelo, que decorava seu quarto quando moleque. "Além da bela imagem que trazia a assinatura de Larangeira, o que me marcou era que o pôster estava colado na parede e meu tio ficava fulo da vida já que quanto retirava o papel, descascava a pintura", relembra Lima, um fã do fotógrafo mesmo antes de pensar em cursar jornalismo e se tornar editor da revista "Duas Rodas", especializada em motos.

O também jornalista Wagner González, amigo de Larangeira há 40 anos e parceiro de muitos anos na cobertura da F-1, perdeu as contas dos cliques e das situações hilárias ao lado do fotógrafo. Uma em particular é sua "alegria": ver um "estagiário de plantão" trocar o sobrenome Larangeira por "Laranjeira", algo que, aliás, qualquer corretor automático faz atualmente. O engano, porém, virou apelido no "diminutivo" e "Laranja" é usado até como parte do endereço eletrônico do fotógrafo.

"No fundo acho até que quem merecia mais atenção neste perfil é a dona Cleide, mulher de muitos anos, dois filhos, seis netos e infinitas aventuras ao lado de Larangeira", aponta González. "Só ela para domar esse fotógrafo que não perde o foco e é um dos fanáticos por automobilismo mais raiz que eu conheço".

Larangeira chegou aos 73 anos no no último dia 4 de dezembro, ainda por dentro de tudo o que se passa no mundo automotivo e das imagens.

"Hoje não dá mais para ignorar os carros elétricos, mas não acredito totalmente neste conceito.Temos o problema do reabastecimento e descarte da bateria que pode poluir o meio ambiente", conta o fotógrafo, acreditando que carros a combustão ainda podem ser mais eficientes e, aos mesmo tempo, menos poluentes.

No caso das máquinas fotográficas, sempre gostou de trabalhar com equipamentos básicos: Rolleycord, Pentax e, atualmente, Nikon D700 e D300. "Pela minha experiência faço poucas fotos. Em Interlagos, por exemplo, sei onde as coisas acontecem. Fica mais fácil", diz em tom que mistura seriedade e brincadeira.

Para mais informações sobre o acervo e sobre a história de Larangeira, deixamos o e-mail do fotógrafo: claranja@uol.com.br .

* Aldo Tizzani é jornalista e editor da agência Minuto Motor.

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