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Eletrificação e mais tecnologia: Europa buscou reinventar o carro em 2018

Joe White/Reuters
Audi E-Tron simboliza a "nova fase" da indústria na Europa, com ênfase na eletrificação até nos SUVs Imagem: Joe White/Reuters

Ricardo Ribeiro

Colaboração para o UOL, de Dublin (Irlanda)

2018-12-30T08:00:00

30/12/2018 08h00

Com automóvel como o vilão moderno, fabricantes voltam-se para eletrificação, mobilidade e apelo tecnológico

Fala-se muito mais em eficiência do que em desempenho. Sempre alardeados com destaque, números de potência e torque perderam espaço para os dados de consumo e emissões de CO2. Sistemas de assistência e segurança, com a condução autônoma em alta, e as opções de conectividade, ganharam horas de uma apresentação ou mesmo workshops separados. Também cresceram os programas de compartilhamento de veículos e venda de serviços. Muitas marcas cantam, em coro, querer passar de meras fabricantes para "provedoras de soluções de mobilidade".

Colocar em retrospectiva os principais movimentos da indústria automobilística na Europa em 2018, e os lançamentos do ano, é perceber que as marcas precisaram reinventar o carro como conhecemos, uma vez que este parece ter recebido um papel de vilão na sociedade atual.

Como correram para os SUVs há alguns anos (e ainda correm), fabricantes apostam cada vez mais em veículos elétricos. Modelos do tipo estão entre os principais lançamentos no continente.

A Renault, por exemplo, prometeu um popular derivado do Kwid para competir com chineses, mais baratos, a partir do ano que vem. Global, a versão de produção do protótipo KZ-E, lançado em outubro passado, no Salão de Paris, também está confirmada para Europa e países emergentes, como o Brasil.

Já a Audi convergiu o motor mais comentado e a carroceria mais procurada pelos clientes no utilitário esportivo E-tron. Também apresentado em 2018, o utilitário esportivo médio será o primeiro elétrico produzido em série pela marca.

Até a Tesla, lenta nas entregas no seu país de origem, os EUA, já deu as caras na Europa, com o alardeado Tesla Model 3 e sua promessa de ser uma opção em conta no ainda caro mundo dos elétricos. Inevitável, a eletrificação chegará até a ícones como o esportivo Porsche 911, conforme apurado por UOL Carros. Difícil? Também houve quem duvidasse de marcas de luxo e esportivos aderindo a onda dos SUVs e hoje rodam por aí Bentley Bentayga e Lamborghini Urus.

Híbridos também cresceram nas linhas das marcas premium alemãs, com novidades, por exemplo, na BMW, que retornará com um na linha da nova geração do Série 3, ou mesmo nas mais acessíveis, como a Citröen, que incorporou uma versão plug-in no novo C5 Aircross. Outro que deu as caras em Paris, a nova geração do Toyota Corolla terá uma opção híbrida.

Os modelos verdes ganham força por algumas razões. Recuperar imagem após o dieselgate, se reaproximar de consumidores cada vez mais preocupados com questões ambientais, cumprir legislação de controle de poluição cada vez mais rígida no continente e não ficar para trás na competição, uma vez que a China tem turbinado a eletrificação com mão estatal. Não por acaso, diversos governos europeus também ampliaram incentivos de compra, isenções fiscais e outros benefícios, além de investimentos em redes de recarga.

Sprint tecnológico e mobilidade

Do novo sedã BMW Série 3 ao esportivo quase de pista Audi R8, que avaliamos neste ano na Europa, renovações focam na eficiência e também em uma experiencia de condução mais amigável, além de buscar cada vez mais uma fusão smartphone-carro.

Condução autônoma e interatividade nível internet das coisas são uma maneira de atrair clientes, em especial jovens, cada vez mais "geeks" ou "tech lovers" e menos aficionados por carros. Além do atrativo na compra, mesmo que, em muitos casos, ainda aspiracional e restritos às versões mais caras, os novos sistemas também preparam o terreno para a atuação das montadoras em negócios e serviços de mobilidade.

"Há um apelo em todo o mundo. Tenho recebido muitos prefeitos, incluindo prefeitos do Brasil, cada vez mais interessados em soluções limpas de mobilidade. Queremos ser provedores de soluções", afirmou a UOL Carros Thierry Bolloré, chefe de operações do grupo Renault, que planeja ir do "Moov'in.Paris by Renault", sistema de compartilhamento na capital francesa que acaba de receber 200 unidades do compacto elétrico Zoe, para uma espécie de Uber Black futurista, um lounge autônomo sobre quatro rodas que nascerá do protótipo EZ-Ultimo.

A francesa se junta a outras, como Ford, Mercedes e Toyota, que têm apostado na estratégia de se transformar em um provedor de soluções de mobilidade. Mesmo no continente europeu, outras marcas têm investido no fornecimento de serviços e transportes inteligentes, por produtos ou diretamente com operações.

A Volkswagen, por exemplo, está desenvolvendo uma plataforma em nuvem própria para conectar os veículos do grupo e, neste ano, iniciou seu movimento mais ousado: tomar da Volvo o controle de uma gigante de telemática para crescer em conectividade. Com investimento de R$ 15 bilhões e parceria com a Microsoft, a plataforma é prometida para entrar no ar em 2020, conectando 5 milhões de carros.

O T-Cross, porém, mostra que o grupo alemão tem um pé no futuro e o outro bem no chão. A VW também lançou em 2018 seu utilitário esportivo médio-compacto para três mercados simultâneos: Europa, China e Brasil, que figura como uma das poucas grandes novidades a combustão do ano no continente.

Mercado e modelos mais vendidos

Ainda é cedo para responder se as novas estratégias ajudarão na recuperação das vendas. Os dados da ACEA (associação de fabricantes europeus) indicam que 2018 será um ano tímido. Com dezembro ainda por fechar, o emplacamento de janeiro a novembro de 2018 foi apenas 0,8% maior do que no mesmo período do ano passado.

Olhando para os principais mercados, Espanha (+ 8,0%) e França (+ 4,7%) registraram um sólido crescimento, enquanto os registros caíram em Itália (-3,5%) e no Reino Unido (-6,9%) durante o ano. No mesmo período, a Alemanha subiu 1,4%.

No entanto, no total do continente, os três últimos meses foram expressivamente piores que os correspondentes em 2017, após um pico de vendas em agosto. É que em setembro entrou em vigor o novo (e mais rigoroso) ciclo WLTP de testes de emissões de poluentes, levando a antecipação de compra, ampliação de estoque e liquidação de modelos diesel. Afinal, está na moda ser verde, mas ninguém quer rasgar dinheiro (fabricantes e consumidores).

Entre os mais vendidos, conectados jovens como os Volkswagen Golf e Polo e o Renault Clio devem terminar o ano no topo da lista. O ranking também contempla uma variedade de SUVs, como Nissan Qashqai, Volkswagen Tiguan e Renault Captur. Os dados detalhados também apontam para forte queda nas vendas dos motores a diesel.

Mas elétricos e híbridos, embora tenham chegado a um milhão de unidades na Europa, ainda não aparecem entre os 20 primeiros colocados.

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