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GM, VW e Fiat levaram 15 anos a reagir ao Ford EcoSport; o que vem por aí?

Murilo Góes/UOL
VW finalmente vai entrar no segmento de SUVs compactos, mas só em 2019 Imagem: Murilo Góes/UOL

Leonardo Felix, Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

04/11/2018 08h00

Utilitário derivado do Fiesta foi primeiro SUV compacto nacional, mas rivais tradicionais nunca incomodaram a Ford

Talvez você não tenha reparado, mas o Ford EcoSport já está há 15 anos entre nós. O carro foi a grande estrela da marca americana no Salão do Automóvel de 2002 e chegou às ruas no início do ano seguinte. Inaugurou a categoria de SUVs compactos nacionais e, por incrível que pareça, nadou de braçada até a chegada do Renault Duster em 2011.

Porém, o mais impressionante não foi o reinado do EcoSport em si, mas sim o tempo que as três grandes rivais da Ford, General Motors, Volkswagen e Fiat, demoraram para reagir: nada menos do que uma década e meia -- e contando, já que seus produtos ainda não foram lançados e só ganharão o mercado entre 2019 e 20. De lá para cá outras marcas até então coadjuvantes, como Honda, Nissan e Hyundai, aproveitaram para marcar território nesse crescente segmento.

Quem iniciará a ofensiva será a Volkswagen com o T-Cross, que será lançado no segundo trimestre do ano que vem. Enquanto isso, Fiat e GM despertaram há pouco: ambas devem lançar o tão aguardado "suvinho" derivado do Argo e a segunda geração do Chevrolet Tracker, respectivamente, apenas para 2020.

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Faltou bancar a aposta

Vale especial destaque o caso da GM, que chegou a se posicionar no mercado com as duas primeiras gerações do Tracker, porém nunca da maneira incisiva como deveria. Até agora o modelo, que em sua primeira matriz -- vendida por aqui de 2001 a 03 e de 2007 a 09 -- era apenas um Suzuki Grand Vitara com as gravatinhas da marca americana. Já o modelo atual tem personalidade própria, mas deriva de um projeto americano e vem importado do México, portanto não foi pensado para atender os gostos do consumidor brasileiro.

Tanto que o presidente da fabricante na América Latina em 2015, Jaime Ardila, chegou a confessar que a empresa "subestimou" durante um bom tempo o potencial do produto no país.

Ainda vindo de terras mexicanas, o atual Tracker passou por reestilização aplicada em 2016, ganhando um conjunto motor-transmissão bastante interessante, vindo do Cruze: 1.4 turbo de 150/153 cv (gasolina/etanol) aliado a câmbio automático de seis marchas. Ainda assim, não emplacou.

Agora uma nova geração já vem sendo desenvolvida em parceria com a fabricante chinesa SAIC, a partir da base global modular GEM, e deve estrear por aqui em 2020, formando uma família inteiramente nova de compactos com os novos Onix e Prisma, além de outros modelos.

Divulgação
Atual geração do Tracker tem até motor turbo, mas vende pouco Imagem: Divulgação

Despertar tardio

Já a Fiat ignorou o crescimento do segmento por muitos anos -- e ainda está fora da briga até hoje. E olha que não é por falta de representante, já que o 500X existe na Europa desde 2014. O problema é que a cúpula da FCA queria alavancar no Brasil a Jeep, e não a Fiat, como sua representante no mercado de SUVs.

Deu certo para a marca de origem americana, tanto que Renegade e Compass vendem como pão quente, mas deixou a aliada italiana absolutamente "órfã". Afinal, se para a montadora não faz muita diferença se o dinheiro vem via Jeep ou Fiat, já que vai parar no mesmo caixa, para os concessionários Fiat não ter nenhum SUV para oferecer significa perder um potencial cliente para a concorrência -- que pode, inclusive, ser um revendedor Jeep.  

A FCA ouviu os apelos e enfim confirmou o desenvolvimento de um utilitário derivado do Argo para 2020. Antes disso, a marca vai revelar no Salão de SP um inédito carro-conceito que deve antecipar a chegada de um SUV de maior porte.

Murilo Góes/UOL
Em vez de investir na Fiat, FCA apostou na Jeep com o Renegade Imagem: Murilo Góes/UOL

Fechando os espaços

A Volkswagen também ignorou o potencial dos SUVs compactos até agora. Porém, a marca está disposta a brigar pela liderança do segmento com o T-Cross. Feito sobre a plataforma MQB  A0, o nosso T-Cross será mais longo que o modelo europeu por aproveitar a base do Virtus -- isso explica os mesmos 2,65 metros de distância entre eixos.

Serão duas motorizações, 1.0 turboflex de 115/128 cv e 1.4 TSI de 150 cv (com qualquer combustível). Preços ainda não foram definidos, mas devem orbitar entre R$ 80 mil e R$ 110 mil.

Porém, a fabricante poderia ter inaugurado uma nova categoria de SUVs muito antes do T-Cross: a dos subcompactos. O conceito Taigun foi revelado no Salão do Automóvel de 2012 com status de estreia mundial. Altos executivos da marca participaram da revelação do projeto ao lado do jogador de futebol Neymar Jr. Baseado no pequeno up! -- que nem havia sido lançado no país --, o Taigun tinha menos de 3,90 metros de comprimento. E foi justamente o tamanho que determinou a morte do SUV por ser pequeno demais.

Curiosamente, a Volkswagen voltou atrás e enfim apostará no segmento -- por enquanto povoado apenas pelos chineses JAC T40 e Caoa-Chery Tiggo 2 -- ao confirmar a chegada de um CUV derivado do Polo entre 2020 e 21.

Também terá um rival direto do Compass, o Tarek, o já lançado Tiguan Allspace e o grandalhão Atlas Cross Sport.

Almeida Rocha/Folhapress
Estava (quase) tudo certo para o Taigun ser produzido, mas a VW desistiu da ideia Imagem: Almeida Rocha/Folhapress

Vida de rei

Quem agradeceu a falta de reação foi a Ford, já que o EcoSport viveu vários anos de calmaria até o começo de 2010. Nem os vacilos da primeira geração prejudicaram as vendas do modelo em seus primeiros anos de vida. O primeiro deslize aconteceu com a versão de entrada do Eco, movida pelo motor 1.0 Supercharger de 95 cv. Fraco demais para o SUV, ele também não tinha números bons de consumo. Resultado: o Eco 1.0 micou e saiu de cena alguns anos depois.

Outro vacilo estava no projeto do carro, que tinha acabamento de qualidade apenas regular e isolamento acústico ruim. O jipinho sofria com os barulhos internos, principalmente ao passar por pisos irregulares. Depois de ganhar o maldoso apelido de “Nhecosport”, a Ford arregaçou as mangas e reduziu o nível de ruído na reestilização feita em 2007, que trouxe uma leve atualização visual na dianteira com direito a nome no capô, ao melhor estilo Land Rover.

Mesmo assim, o Eco não foi desbancado pelo Duster, que tomou o primeiro lugar em poucas ocasiões. A Ford lançou a segunda geração do EcoSport em 2012, desta vez baseado no New Fiesta da época. Com status de modelo global, o suvinho ganhou design mais ousado, mas manteve soluções como a tampa traseira com abertura para o lado esquerdo e o estepe externo. Mesmo assim, apenas em 2015 é que o SUV da Ford perdeu a liderança com as chegadas de Jeep Renegade e Honda HR-V.

Atualmente, o carro vive uma fase de declínio diante de novos concorrentes e tenta reconquistar o consumidor com medidas como a estreia da versão Storm (a única da gama com tração nas quatro rodas) e o lançamento, enfim, de uma opção sem o bendito estepe externo para 2019. 

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