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Cultura do carro

Brasileiras vão de moto aos EUA, divulgam "Outubro Rosa" e conhecem H-D

Arquivo pessoal
Ana Sofia e Ana Pimenta saíram de Porto Alegre (RS), atravessaram Brasil e EUA e foram recebidas na sede da Harley-Davidson Imagem: Arquivo pessoal

Aldo Tizzani

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

29/10/2018 15h21

"Rolezinho" de 28.000 km entre Porto Alegre (RS) e Milwaukee (EUA) percorreu 115 lojas na festa de 115 anos da marca

Amigas e sócias, Ana Pimenta e Ana Sofia de Oliveira são fanáticas pelo ronco do motor "V2"” e, como a paixão é arrebatadora, a dupla resolveu dar um "rolezinho básico" de 28 mil quilômetros pilotando suas motos entre Porto Alegre (RS) e Milwaukee (EUA).

A missão foi conhecer 115 concessionárias, duas fábricas e um museu ao longo do percurso e participar da festa dos 115 anos da Harley-Davidson, nos Estados Unidos.

Foram exatos 115 dias longe das famílias, mas tudo por uma boa causa. Uma não, duas: além da festividade, as experientes motociclistas levaram para a estrada a bandeira da conscientização da prevenção do câncer de mama, doença que hoje atinge 1,4 milhão de mulheres e homens em todo o mundo.

Segundo o INCA (Instituto Nacional do Câncer), estima-se que este ano teremos 60 mil novos casos de câncer de mama no Brasil.

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Nesta trip, batizada de "The Ride 115", havia outra companhia inseparável além das duas Harley (Street Glide e Ultra Limited, no trecho brasileiro): o cachorrinho de pelúcia Bruce, que foi na garupa da moto de Ana Sofia e era uma espécie de amuleto da sorte.

Para Ana Pimenta, além da paixão por este ícone sobre duas rodas, "esta viagem foi uma jornada pela vida". Detalhe: a aventura da dupla brasileira foi tema de reportagem da TV Fox norte-americana.

Viagem épica

O start foi em 19 de maio, em Porto Alegre (SP). A chegada em Milwaukee (Wisconsin, EUA) aconteceu dia 29 de agosto. Para quem não está muito antenado ao universo motociclístico, Milwaukee é a cidade-sede da Harley -- a cada cinco anos, a marca costuma comemorar seu aniversário reunindo centenas de milhares de fãs do mundo todo.

No Brasil a dupla rodou 8.500 quilômetros passando pelos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Maranhão, Pará e Amazonas, além do próprio Rio Grande do Sul. Em Manaus (AM), as "Anas" embarcaram para a Flórida e de lá aceleraram por mais quase 19 mil km, cruzando os Estados Unidos praticamente inteiro.

De Miami até São Francisco e depois direto para Milwaukee, passando por Geórgia, Carolina do Norte, Tennessee, Mississippi, Texas, Arizona, Nevada, Califórnia, Utah, Idaho, Wyoming, Dakota do Sul, Minnesota, Illinois e Michigan.

Só para comparar, a histórica Rota 66, que liga Chicago a Santa Mônica (na Califórnia), tem 4 mil quilômetros de extensão. Uma prova de resistência física e mental para as motociclistas brasileiras.

Arquivo pessoal
Ana Sofia e Ana Pimenta registraram vários momentos da viagem de mais de 28 mil quilômetros Imagem: Arquivo pessoal

Vitória sobre o câncer

Este ano Ana Sofia completa dez anos de cura do câncer de mama. Para comemorar, a viagem também serviu de alerta sobre a saúde da mulher. A dupla chegou à conclusão que seria muito importante repassar a todos que encontrassem pelo caminho informações sobre o câncer de mama, segundo tipo de tumor mais comum entre as mulheres, excluindo-se o câncer de pele.

Por isso, as "moto-viajantes" também falaram sobre conscientização e a importância da realização do autoexame e de exames preventivos, como mamografia, que realmente salvam muitas vidas. Por fim, a dupla entregava aos novos amigos uma pulseira que contém o laço rosa, marca da campanha.

"Quando entregávamos a pulseira para os homens, pedíamos que se lembrassem das mulheres de sua família -- mães, esposas, filhas, irmãs, primas -- e amigas para a real importância de se fazer os exames. Escutamos ao longo do caminho inúmeras histórias sobre a doença. De vitórias incríveis de superação até relatos tristes de perdas irreparáveis", conta Ana Sofia.

Tinha um taxista no meio do nada

Em função do vento forte, em certo momento da viagem a dupla foi obrigada a parar na pequena cidade de Fernley (Nevada). Depois de devidamente instaladas em um hotel, Ana Pimenta e Ana Sofia decidiram pedir ajuda na recepção e chamar um taxi. "A recepcionista nos disse que só existia um único motorista de Uber na cidade e que ele só trabalhava quando queria. Bom, arriscamos e a sorte estava ao nosso lado. Ele aceitou a viagem pelo app, o carro chegou e, para nossa surpresa, o motorista era um jovem senhor no auge dos seus 80 anos", revela Ana Pimenta.

"Ao entrarmos em um restaurante, nos sentimos em um filme da 'Sessão da Tarde': toalhas coloridas, pedidos anotados em surrados bloquinhos e café servido à vontade. Além daquelas garçonetes já senhoras e que conheciam todos que entravam no restaurante pelo nome. Perguntavam da família, se haviam feitos os exames médicos, coisa e tal. Um ambiente 100% familiar onde percebemos a intimidade entre as pessoas e o tempo que já conviviam em comunidade. Apesar de nos sentirmos 'estranhas no ninho', fomos muito bem atendidas. Um lugar totalmente inusitado no meio do nada, experiência única e maravilhosa", afirma Ana Sofia.

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Viagem durou alguns meses, mas poderia ter sido mais rápida se não fosse pela greve dos caminhoneiros Imagem: Arquivo pessoal

O maior prazer e o maior "perrengue"

Segundo a dupla, o maior prazer está nos amigos que fizeram, nas histórias que compartilharam e nos ensinamentos que absorveram. "Depois de tudo visto e revisto, pegamos a estrada. Pensamos em todos os tipos de contratempos que poderiam ocorrer na nossa viagem. Porém, a única coisa que não contávamos foi com a greve dos caminhoneiros. E, consequentemente, a falta de combustível nos atrapalhou muito e nos obrigou a ficarmos paradas em Curitiba (PR), pois a rodovia havia sido totalmente bloqueada. Que resultou no atraso em alguns dias", relembra Ana Pimenta.

A melhor e a pior estrada

Entre as melhores estradas que a dupla percorreu, merece destaque o trecho que cruza a Serra do Rio do Rastro, na Serra Catarinense; o "Tail of the Dragon Road" (tradução para "Estrada do Rabo do Dragão"), famosa por suas 318 curvas, que fica entre os estados da Carolina do Norte e Tennesse, nos EUA; e a Bearthooth Highway, que cruza o estado de Montana.

No Brasil, elas rodaram por vários trechos ruins, entre obras inacabadas, pontes que ligam nada a lugar nenhum e, claro, enormes buracos na via. Nos Estados Unidos, a dupla rodou ainda por vários quilômetros em manutenção, que afunilavam o trânsito. "Como lá não é permitido rodar pelo corredor, incomodava o calor que emanava do motor e o peso das motos -- cerca de 400 quilos, cada", relembra Ana Sofia.

O trecho mais curto desta tour rodado em um único dia foi entre São Francisco a Sacramento: apenas 140 km. As motociclistas tiveram que parar por conta de um incêndio que devastou a região. O mais longo foi de quase 900 quilômetros com rajadas de vento constantes -- saindo de Fernley, seguindo pelo Estado de Nevada, até Sandy, no estado de Utah.

Temperatura mais alta e a mais baixa?

Sobre as temperaturas, as "Anas" passaram de "picolé" a "fritar ovos no asfalto". Elas enfrentaram 3ºC com chuva na Serra do Rio do Rastro (SC) e 44 ºC em Nevada (EUA). "Durante este percurso tivemos chuvas fortíssimas e rajadas de vento que nos impediram de seguir a diante. Esbarramos ainda no furacão Florence", conta Ana Pimenta, dizendo que não foi nada fácil esta viagem, mas que "o planejamento foi fundamental."

"Nosso trabalho foi incessante para deixar tudo absolutamente em ordem. Desde a documentação das motos; todas as taxas, seguros, aéreos pagos; paletes cobertos e específicos para o transporte das motos, contornar problemas alfandegários etc. Até o dia do nosso embarque para os Estados Unidos estava tudo certo e sem problemas para as motos serem enviadas via aéreo. Mas, passado alguns dias, as motos não chegaram. Foi quando recebemos a notícia de que elas não haviam embarcado. "Literalmente um banho de água fria", conta Ana Pimenta.

Mas sempre há alternativas para enfrentar um problema e as motociclistas "não deixam a peteca cair". A ajuda veio de dois amigos dos Estados Unidos, que emprestaram suas motos para o trecho americano da viagem. "São nessas situações que aprendemos o verdadeiro sentido de irmandade que unem motociclistas. O lema é não deixar nenhum irmão para trás", comemora Ana Sofia. As motos eram uma Road Glide Ultra e uma Street Glide Police.

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Dois amigos dos Estados Unidos emprestaram suas motos para o trecho americano da viagem Imagem: Arquivo pessoal

A chegada

"Nossa chegada à festa de 115 anos da Harley foi um momento inesquecível. Fizemos a visita na 115ª concessionária, cercada por amigos e familiares que vieram do Brasil para compartilhar essa conquista conosco. Deixamos para finalizar nossa linda jornada no Museu da Harley, ponto de encontro de muitos brasileiros e americanos que conhecemos ao longo do caminho. Todos queriam nos dar um abraço e comemorar com a gente o final dessa viagem de superação e também de amor ao próximo", afirma Ana Pimenta.

A dupla já havia combinado com os organizadores da festa que chegariam ao museu no dia 31 de agosto, data que finalizava o compromisso oficial de visitas e aguardariam o grande desfile que aconteceria em 02 de setembro.

Como foi chegar à festa de 115?

"Foi uma sensação indescritível ser recebida pela família Davidson. Lá estavam Willie G. (neto), Bill Davidson e Karen Davidson (bisnetos de um dos fundadores). Ouvir Bill Davidson dizer que ele estava seguindo vocês pelas redes sociais foi totalmente inesperado, realmente não imaginávamos que um dos membros do clã da Harley-Davidson acompanhava nossa loucura, ou melhor, nosso sonho", conta, orgulhosa, Ana Pimenta.

"Conversamos por alguns minutos e entregamos a eles o nosso certificado, adesivo, pulseira e patch, pedimos que eles assinassem nossa bandeira. E, claro, pedi para que eles assinassem minha camiseta", completou.

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As duas "Anas" foram recebidas por amigos, familiares e até por membros da família Davidson Imagem: Arquivo pessoal

Missão cumprida?

"Essa viagem foi a realização de um sonho, prova final de superação de um trauma vivido. Conseguimos realizar o que nos propusemos. Hoje temos um sentimento de plenitude e prazer juntos, além da certeza de missão comprida", comemora Ana Sofia, que venceu o câncer e hoje pode ser considerada uma embaixadora extraoficial da campanha de prevenção de câncer de mama no Brasil. Junto à comunidade motociclística, ela já é.

Em uma viagem longa não existe diferença de língua, cor, raça, credo, fronteira. Existem pessoas especiais. Sobre cada motocicleta há uma pessoa e cada uma delas tem uma história, uma experiência de vida única.

"Nossa filosofia de vida era muito simples: faça tudo com muito amor e você receberá amor de volta", relata Ana Pimenta, dizendo que a vontade e a determinação da dupla sempre foi mais forte que qualquer adversidade, seja mecânica, de clima ou na relação com as pessoas. "Essa viagem nos fez crescer em todos os aspectos. Tenho certeza de que nossas vidas jamais serão as mesmas. Melhoramos como seres humanos", complemente Ana Sofia, uma semeadora de sonhos e uma espécie de estandarte na prevenção do câncer de mama.

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