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Toyota Hilux, 50 anos: picape coleciona fãs por robustez e mecânica

Reprodução/Helio Vieira
Toyota Hilux SW4 de Helio Vieira Imagem: Reprodução/Helio Vieira

Fernando Miragaya

Colaboração para o UOL, do Rio de Janeiro (RJ)

14/09/2018 04h00

Donos elogiam valentia em trilhas, mas criticam desempenho e segurança fracos no asfalto

Com 50 anos de história, a picape Toyota Hilux virou referência em fora de estrada até para quem nunca teve, nem pensa em ter uma. Mas para quem tem, o modelo é mais que um utilitário: chega a ser um misto de amor, vício e religião. 

A Hilux -- e sua variante SUV SW4 -- começaram a ser vendidas no Brasil em sua sexta geração, em 1992, com importação do Japão.

Desde então, não são poucos os relatos de pessoas que se apaixonaram pela picape e que hoje têm mais de um modelo na garagem. Tem até quem fez do veículo, que chegou ao Brasil em 1992, seu ganha-pão.

Também existem críticas, sobretudo ao comportamento instável em rodovias. Vamos contar algumas dessas histórias!

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Robustez é motivação

É justamente a mecânica, considerada robusta e confiável, que perpetua a legião de fãs do modelo. Mas é preciso ter cuidado, também. Dono de uma pousada em Gonçalves (MG), Carlos Eduardo Fontoura Lopes, comprou a sua picape ano 2000 (modelo já produzido na Argentina, origem do utilitário desde 1998), versão SR5 2.8, há três anos. Ele usa a picape durante 80% do tempo em estradas de terra e viaja frequentemente para a capital paulista sem preocupações.

"Tenho mecânico de confiança e o que precisei de peças achei fácil na própria Toyota ou em lojas de autopeças", explicou.

A aquisição da Hilux já revelava o grau de confiança. "Era de um senhor de idade que a usava muito pouco. Troquei correias, mangueiras, pastilhas de freio, o rolamento do ar-condicionado e já estava rodando", recorda Lopes, que comprou a picape com 260 mil km. Hoje, o hodômetro passou dos 300 mil km.

A acadêmica de medicina Raphaella Viana Guimarães, é outra que anda para cima e para baixo com sua picape SRV com motor turbodiesel 3.0 ano 2013, de sétima geração. Moradora de Manaus (AM), está na segunda Hilux e a família ainda tem um SW4, também 3.0, só que 2010, que já encarou viagens até a Venezuela.

A jovem tomou gosto pelo modelo depois que o pai se entusiasmou com o bom funcionamento de um Corolla e resolveu trocar sua Chevrolet S10 pela picape da marca japonesa. "Quando ele percebeu que a Hilux era mais confortável e também era carro de peso, trocou e assim elas entraram em minha casa. Eu ganhei a minha SRV 2.7 flex devido à necessidade que eu tinha de me locomover entre os hospitais e a paixão foi instantânea", recordou do primeiro modelo.

"Carro bom, forte, com manutenção moderada. E fui tomando gosto quanto ao acerto da suspensão. Mas o que mais chama a atenção é a confiança que passa. Não quebra fácil", afirmou.

Arquivo pessoal
Toyota Hilux SW4 1993 americana de Sandro Dias: do período pré-importação, é raríssima Imagem: Arquivo pessoal

Misturou paixão com profissão

Sandro Roberto Dias, de Santo André (SP), já teve 16 Hilux. Dezesseis! Hoje é dono de dois SW4. Uma das picapes é raríssima, pré-importação oficial ao país. De origem americana, ano 1993, chegou de forma independente. O mecânico a comprou em 2000, por R$ 22 mil na época, após ver um anúncio na internet. Equipada com motor 22R-E 2.4 a gasolina, fez Dias "pirar". Mas ele falou do primeiro exemplar, um SW4:

"Queria um veículo 4x4 para fazer expedições. Na falta de grana para pegar outro carro, comprei a Hilux SW4 e fui me apaixonando por pequenos detalhes: bloqueio do diferencial, ar-condicionado, direção hidráulica, baixo consumo, mas principalmente o custo/benefício", afirmou. "Então, devo esse vício a esse meu primeiro SW4".

"Vício" foi a palavra usada pelo próprio mecânico, mas a paixão de fato virou profissão: ele tinha acabado de sair da Mercedes-Benz, onde trabalhava como ferramenteiro e mecânico de manutenção. Formou-se mecânico de veículos e fez consertos de outros carros em sua própria casa durante três anos. Com o SW4 na garagem, se encantou de vez pela mecânica da Toyota. Fez cursos, passou a fuçar o modelo e abriu a "Toy Garage Club Oficina", especializada em consertos e manutenção de Hilux abaixo de 2004.

O ofício traz vantagens como livrar o orçamento dos custos de manutenção. 

"No início também fui me assustando com o preço das manutenções e foi aí que comecei a me aprofundar em mecânica, estudar Toyota, fazer curso sobre mecânica diferenciada", explicou. "A paixão em mexer em Hilux aumentava e surgiu a ideia de fazer algo exclusivo e dedicado ao modelo. Comprei ferramentas, construí outras, fiz amigos e clientes e hoje estou aí, dou dicas, ajudo oficinas em outros estados e até algumas concessionárias com os macetes que vivo no dia dia".

Arquivo pessoal
Marcelo Calil e sua picape Hilux 2002 pronta para a aventura Imagem: Arquivo pessoal

Deixa que eu mexo

Tem mais gente que bota a mão na massa para resolver eventuais problemas. É o caso de Hélio Vieira de Sousa Junior, morador de Ubatuba (SP). Técnico em telecomunicações, ele e a esposa rodam cerca de 500 km por semana com um dos primeiros SW4 que desembarcaram aqui, um exemplar de 1994 na versão DLX com motor 2.8 a diesel.

Além da manutenção preventiva, que considera essencial para um veículo com idade avançada, ele próprio costuma fazer pequenos serviços do seu carro.

"Faço o que posso eu mesmo. Toda troca de óleo e filtros, nos diferenciais, lubrificação de eixos cardãs, trocas de correias, pastilhas de freio  etc. E isso deixa mais barata a manutenção. Mas, no geral, não acho tão cara a manutenção para este veículo", garantiu. Junior já está de olho em outro SW4, ano 1999.

Dentro desse clima de robustez, o modelo também acaba sendo o queridinho da galera que gosta de um fora de estrada pesado. Marcelo Calil, de Itatiba (SP), deu um belo trato na sua Hilux SR5 2.8 turbodiesel 2000, que usa para trabalho e lazer. Serralheiro de alumínio, ele herdou a picape do pai há cinco anos e conseguiu deixa-la ainda mais robusta. 

"Tem 'lift' de suspensão e carroceria, alteração de pneu e rodas e uma apimentada no motor", enumerou Calil. Com as mexidas, a Hilux dele ficou com 12 cm a mais na altura. E o motor de originais 78 cavalos agora gera 130 cv. "Fiz para melhorar a performance em trilhas. Não tenho o que reclamar da picape, para mim ela é perfeita, pois uso praticamente para tudo: lazer e serviço".

Sandro Dias, o mecânico de Santo André, também modificou profundamente seu segundo SW4. Por volta de 2006, soube por amigos que tinha um SUV ano 1993 à venda no Rio de Janeiro, mas com a frente batida. Viu o modelo azul com motor 3.0 diesel, levou para casa e fez um trabalho de reconstrução total.

Trocou todos os rolamentos e pôs amortecedores ajustáveis, além de dois tanques de combustível, discos nos freios traseiros e dois bagageiros. Bomba de combustível, pirômetro de escape e guincho com capacidade para 12 mil libras também entraram no pacote. O mecânico ainda alongou a relação do diferencial, aplicou para-choque off-road e novos pneus.

O SW4 ainda tem "mimos", como central multimídia, wi-fi e câmera de ré. Sem contar a carreta de camping, que Sandro define como "acessório", também pintada na cor azul e com as mesmas rodas e pneus do SUV, além de câmera de ré própria. E tem mais!

O toque especial no SUV foi na dianteira, com os faróis quadradinhos da picape, que, segundo ele, remetem à quinta geração -- nunca vendida no Brasil. "Eu remontei esse SW4 do zero", diz o mecânico, que desembolsou R$ 28 mil para deixar o SUV do jeito que queria.

Arquivo pessoal
Um dos dois Toyota Hilux SW4 japoneses de Luciano Rassolin Imagem: Arquivo pessoal

Limitações (que donos reconhecem, mas relevam)

Nem tudo são flores. Proprietários tanto da versão a diesel quanto da gasolina reclamam da entrega em baixas rotações. "Poderia andar um pouco mais rápido mantendo um giro baixo, acho a quinta marcha curta. Mas aí lembro que não é um carro para correr e relaxo”, ponderou Lopes.

Junior entende a limitação do motor do seu SW4 1994. "São mais fracos, porém com maior durabilidade. E a reduzida do carro é muito forte. Em fora de estrada é sensacional. É um carro para andar devagar mesmo", reconheceu.

Além disso, a desenvoltura em trilhas cobra sua conta no comportamento dinâmico no asfalto -- todo mundo que pesquisa sobre o assunto conhece o "fraco" que a Hilux tem no chamado "teste do alce", que mede a estabilidade em manobras rápidas de troca de direção.

A maioria dos donos reconhece que o veículo não permite abusos. "É um veículo excepcional, no entanto, em alta velocidade você tem que ter muita noção do carro que você tem, pois ele não vai fazer algumas manobras que parecem simples", explicou Raphaella Guimarães.

Mesmo assim, a lista de donos só aumenta, tanto de modelos mais recentes da oitava geração (lançada em 2015 e recentemente reestilizada a R$ 197 mil), quanto para os modelos mais antigos.

O empresário Luciano Rassolin, de Gonçalves (MG), possui dois SW4 3.0 turbodiesel, um ano 2000, outro 2001, ambos japoneses -- a produção do SUV na Argentina só teve início em 2005 -- e resume bem o espírito dos amantes da Hilux: "É uma paixão e, às vezes, uma devoção. Tem grupos técnicos de Hilux onde é difícil entrar, mas que são de enorme ajuda aos proprietários dessas magníficas viaturas. Tem os que gostam das japonesas e os que preferem as argentinas. Tem os que gostam delas originais. Os que querem modificar. Os que usam para passeio somente. E tem os trilheiros. Mas todos são Toyoteiros".

Linha do tempo da Hilux

+ 1968: a picape começa a ser produzida em março, em Hamura, próximo a Tóquio, pela Hino Motors. É lançada no mercado japonês com motor 1.5 de 76 cv, câmbio manual de quatro marchas, tração traseira, caçamba simples com três lugares e capacidade de carga de uma tonelada.

+ 1969: chega aos Estados Unidos com motor 1.9 de 84 cv e cabine um pouco mais comprida.

+ 1972: segunda geração do modelo traz os mesmos faróis duplos redondos, mas adota grade estreita e cabine mais espaçosa. Usa motores 1.6 de 81 cv e 2.0 de 103 cv (este a partir de 1973). As versões japonesas têm o simpático retrovisor externo na ponta do capô.

+ 1973: nova Hilux é lançada nos EUA com motor 2.0 de 109 cv, entre-eixos maior e cabine estendida (long bed).

+ 1978: terceira geração é apresentada no Japão com tração nas quatro rodas. O quarteto de faróis cede lugar a duas lentes redondas separadas por uma grade mais bicuda.

+ 1979: surge opção de tração integral e câmbio automático de três marchas.

+ 1981: parceria com customizadores nos EUA fazem nascer os primeiros SUVs derivados da Hilux: Trekker, Wolverine e Trailblazer. Usavam a cabine da versão 4x4 com o restante da carroceria feito de fibra de vidro.

+ 1983: faróis quadrados e opção de cabine dupla dão a cara da quarta geração.

+ 1984: utilitário esportivo derivado da Hilux estreia como 4Runner nos Estados Unidos e como Hilux Surf, no Japão.

+ 1987: variante V6 com motor 3.0 de 150 cv é lançada.

+ 1988: derivação com entre-eixos de 3,09 m é uma das novidades da quinta geração da Hilux.

+ 1991: começa a produção no estado americano da Flórida, mas alguns modelos continuam importados do Japão na metade da década de 1990.

+ 1992: Hilux e SW4 começam a ser vendidos no Brasil importados do Japão com motor 3.0 V6 a gasolina de 170 cv e 2.8 a diesel de 77 cv.

+ 1997: picape passa a ser feita em Zárate, na Argentina, de onde segue para o Brasil com facelift. O SW4 continua importado do Japão com motores a gasolina 2.7 e 3.4 V6, além do 3.0 turbodiesel.

+ 2002: nova reestilização e uso de motor a diesel de 3.0 litros.

+ 2003: SW4 deixa de ser vendido no Brasil.

+ 2005: sétima geração é lançada no mercado brasileiro com motor a gasolina 2.5 de 102 cv. As opções turbodiesel usam o 3.0 de 163 cv. O SW4 vira Fortuner no mercado estadunidense e passa a ser produzido na Argentina. Além do 3.0 da picape, o SUV é vendido por aqui com o 2.5 turbodiesel de 102 cv.

+ 2008: linha estreia versão com motor 2.7 a gasolina de 158 cv na carona da reestilização. O SW4 passa a ter terceira fila de bancos. Em 2009, surge o V6 4.0 de 238 cv na linha SW4.

+ 2011: nova remodelação; picape passa a ser comercializada apenas na configuração cabine dupla e com tração 4x4.

+ 2012: pela primeira vez, Hilux e SW4 usam motor flex: o 2.7 bebe álcool e gasolina e gera 163/158 cv. O 3.0 turbodiesel passa a 171 cv. Já o câmbio automático é de cinco marchas.

+ 2015: oitava geração da picape chega inicialmente com motor 2.8 turbodiesel de 177 cv. O SW4 mantém opção do 4.0 V6, mas adota visual diferente da picape.

+ 2016: o 2.7 flex passa a equipar a nova geração com aprimoramentos, como o comando variável de válvulas.

+ 2018: reestilizações apenas nas versões SRV e SRX da picape. As configurações para trabalho mantêm o mesmo desenho.

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