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Avaliação: Fiat Strada ainda "aguenta o tranco" após 20 anos? Assista

Leonardo Felix

Do UOL, em Atibaia (SP)

27/08/2018 04h00

UOL Carros andou com a versão Hard Working 1.4 Cabine Dupla, que custa R$ 72.240 com todos os opcionais

A Fiat Strada é um dos veículos mais antigos em circulação no Brasil. Em 2018 está completando 20 anos de vida sendo vendida sobre a mesma plataforma monobloco do Palio I -- que, por sua vez, é um projeto de 1995. UOL Carros está publicando um especial com quatro reportagens sobre o passado, o presente e o futuro do modelo.

Provavelmente nem os executivos da fabricante na época esperavam que o modelo fosse tão longevo e chegasse a 2018 ainda como líder de mercado...

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Parte do sucesso está no fato de que, apesar de manter a base de duas décadas atrás, a "Stradinha" foi responsável por trazer diversas inovações ao segmento: foi a primeira picape compacta do Brasil a contar com cabine estendida, cabine dupla, bloqueio de diferencial e terceira porta (tipo suicida).

Ainda assim, ao entrar em contato com a Strada nos dias atuais fica perceptível que ela está sentindo o peso da idade em alguns aspectos. Quais? Será que ela ainda aguenta o tranco de ser o veículo leve de trabalho preferido dos brasileiros?

Para responder a essa pergunta UOL Carros rodou com uma unidade da versão Hard Working Cabine Dupla 1.4 manual, que custa R$ 67.990 e vai a R$ 70.230 quando dotado de todos os opcionais (R$ 1.940) -- vidros, travas e bocal da tampa de combustível elétricos; banco do motorista com ajuste de altura; barra de proteção do vidro traseiro; rádio com Bluetooth e entradas USB e Aux., protetor de carter -- mais pintura vermelho Alpine (R$ 300).

Murilo Góes/UOL
Apesar de várias mudanças visuais, Strada manteve seu projeto baseado na mesma geração desde o início Imagem: Murilo Góes/UOL

Pau para toda obra

Idade à parte, a Strada ainda demonstra boa aptidão para aquilo que mais se espera dela: transportar carga sem preguiça. São 705 kg de capacidade e 680 litros de volume na caçamba da versão avaliada, o que permitiu à reportagem jogar alguns sacos de cimento a argamassa ali sem que ela reclamasse.

Boa parte dessa valentia vem da suspensão traseira, formada por eixo rígido e feixe de mola, mesma arquitetura presente em picapes médias montadas sobre chassis e até caminhões. Tal conjunto faz bastante diferença na decisão de compra dos frotistas, além de o modelo ser relativamente barato, ter manutenção em conta -- são R$ 2.240 de preço fixo para cinco revisões de 10 mil a 50 mil km -- e ter seus segredos conhecidos por qualquer mecânico.

Ainda, a "picapinha" possui agilidade de carro de passeio para trafegar em meio ao trânsito pesado da cidade, ao mesmo tempo em que aguenta andar na boa em trechos off-road não tão complexas. A boa altura de 17 cm em relação ao solo contribui para isso. Claro que não dá para esperar dela um veículo "lameiro", porque a tração é dianteira, os pneus são voltados a uso urbano e não há sequer bloqueio de diferencial nesta versão.

Também não se pode achar que a Strada terá desempenho de uma picape a diesel. Afinal, sob o cofre desta versão está o velho 1.4 Fire EVO flex, um tetracilindro 8V de 85/88 cv (a 5.750 rpm) e 12,4/12,5 kgfm (a 3.500 rpm), ainda dotado do obsolescente tanquinho de partida a frio.

Para rodar na cidade até que não há problemas. As duas primeiras marchas do câmbio manual de cinco posições têm relações bastante curtas, o que ajuda a gerar acelerações e retomadas minimamente satisfatórias. Já em rodovia a falta de fôlego e elasticidade é latente, e nem mesmo a quinta velocidade mais longa, voltada ao consumo, resolve.

Por falar em câmbio, este preserva as mesmas características de carros antigos da Fiat: engates longos, durinhos e um tanto folgados. Há quem goste.

Em relação ao consumo, em nosso teste a Strada Hard Working 1.4 alcançou 7,8 km/l com etanol após 280 km andando em todo tipo de piso: ruas citadinas, rodovias, barro e até pedra. Não é ruim, especialmente se levarmos em conta que picapes ou comerciais maiores costumam consumir combustível com voracidade, mas também não dá para chamá-la de econômica.

No geral e também em sua categoria o modelo leva somente nota C no programa de etiquetagem veicular do Inmetro.

Montagem/Arte UOL
Fiat Strada foi lançada em 1998; UOL Carros mostrou como era o mundo naquela época Imagem: Montagem/Arte UOL

Viagem no tempo

Sim, ela é valente e simpática -- o visual formado por faróis de parábola simples do Palio IV, mais uma dose cavalar de apliques em preto fosco a fim de acentuar sua robustez --, mas a verdade é que há coisas na Strada que nos fizeram torcer para que a nova geração não tarde muito a chegar.

A principal questão está na parte de segurança. A Strada não traz mais do que os obrigatórios airbags frontais e freios ABS (antitravamento) a bordo. Não há qualquer tipo de reforço estrutural na carroceria nem controle de estabilidade e tração. As rodas de liga leve aro 14 calçadas por pneus 175/70 são muito pequenas e finas. Nível de torção e inclinação da carroceria nas curvas é alto. Resultado: não há sensação de segurança ao rodar com ela na estrada.

Direção hidraulicamente assistida se apresenta um bocado rígida, mas isso não é um problema para quem gosta de uma direção mais pesada. Já as folgas sentidas ao esterçar para manobrar, estas sim são. Conforto? Não muito com o comportamento "seco" das suspensões. Silêncio? Tampouco, pois barulhos de motor, transmissão, suspensões e peças de acabamento batendo invadem o habitáculo frequentemente.

Volante e banco do motorista contam com regulagem de altura, o que é bastante bem-vindo, mas tentar repousar na parte superior do encosto lombar ou no encosto de cabeça enquanto se dirige é missão impossível. Os vidros elétricos com função um-toque surpreendem positivamente, assim como as travas elétricas. Claro que não esperávamos por uma chave com sensor presencial, mas ao menos do tipo canivete ela poderia ser...

Já o sistema de mídia conta opcionalmente com rádio, Bluetooth e entradas USB e Auxiliar. Até valeria pedir uma central mais moderna, mas para um veículo de trabalho está de bom tamanho. Também vale menção positiva o ar-condicionado manual, forte para um veículo de cabine tão compacta.

Chegamos, então, ao tema "cabine". Aqui é onde a Strada mais lembra o velho Palio. Espaço interno é acanhado para ombros e cabeça mesmo na fileira dianteira, e a cabine dupla acomoda com dificuldade até outros dois passageiros na fileira de trás. Afinal, são apenas 1,66 metro de largura e boa parte dos 1,58 metro de altura se devem à suspensão elevada. A terceira porta é uma grande sacada, mas não tira por si só a sensação de claustrofobia.

Desenhos de painel, volante, chave, chaves de seta etc. também remetem muito ao extinto hatch, deixando a sensação de que viajamos de volta ao início dos anos 2000. Sem falar no acabamento formado por peças um bocado desalinhadas e fora dos padrões atuais de compacto.

Tudo que aqui relatamos não significa que a Strada seja um projeto ruim -- pelo contrário! --, mas sim que já não consegue acompanhar o nível de evolução do restante da indústria. Uma hora a idade pesa para todos...

E aí, aguenta o tranco?

A Strada ainda é robusta, guerreira e cobra um preço relativamente baixo por isso, sendo uma ótima opção para o trabalho ou até para "brincar na terra" num fim de semana. Logo, a resposta é sim. Só que comprá-la significa abdicar de boa dose de conforto e modernidade que modelos mais atuais proporcionam.

Portanto, é a combinação de valentia com versatilidade, tradição e bom custo-benefício o que mantém a velha e boa "Stradinha" tão atraente e... líder. Por quanto tempo ela seguirá no topo? Difícil prever, mas ela terá que seguir aguentando o tranco por pelo menos mais dois anos, até que sua sucessora seja lançada e ela possa, enfim, desfrutar da merecida aposentadoria.

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