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Duelo: Ford Mustang e Mercedes E 43 provam que esportivo pode ter conforto

Eugênio Augusto Brito, Leonardo Felix

Do UOL, em Tuiuti (SP)

23/07/2018 09h07

Que tal um carro com desempenho de sobra, mas que também permite desfilar "de boas"? Eles proporcionam isso

Foi-se o tempo em que esportivo era sinônimo de "tábua": aquele carro que trazia emoção ao dirigir junto com dores na colune e pouca ou nenhuma praticidade.

Não que Ford Mustang e Mercedes-Benz E 43 AMG sejam as melhores opções do mundo para ir ao supermercado ou levar os filhos à escola, mas ao menos ambos mostram que hoje já é possível criar um automóvel voltado ao desempenho e, ao mesmo tempo, capaz de oferecer um grau bastante aceitável de conforto.

O mais curioso é que os dois modelos aqui avaliados utilizam receitas bastante diferentes para isso: enquanto o primeiro é um cupê duas-portas de R$ 299.900, sendo um dos muscles americanos mais icônicos e cultuados do mundo, o segundo é um sedã executivo alemão supertecnológico e munido de certa dose de veneno, embora mais sóbrio e discreto: R$ 525.000.

Qual deles tem a proposta mais equilibrada? É o que vamos mostrar nesta edição do #Duelo UOL Carros. Dê o play e confira!

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Mustang: evolução dos muscles

Finalmente vendido de forma oficial pela Ford no Brasil, o Mustang chegou estabelecendo um novo padrão para os chamados muscle cars. Sim, a força do motorzão V8 5.0 Coyote III, de 466 cv e 58 kgfm (usando gasolina... comum, uma de suas maiores sacadas) está lá, e muito bem auxiliada por um moderníssimo câmbio automático de 10 marchas, de respostas bastante rápidas para uma caixa com conversor de torque.

Se a ideia for acelerar no modo "Pista", o ronco será vigoroso e a relação de marchas ficará mais longa, privilegiando intensidade de retomadas e giros mais altos. Nessas condições o "Mustangão" será capaz de ir de 0 a 100 km/h em 4,3 segundos e chegará a uma máxima de 250 km/h controlados eletronicamente.

Agora, se o condutor quiser apenas desfilar, é possível manter o "veoitão" mais silencioso e aproveitar a abundância de marchas altas para rodar "de boas" em velocidade de cruzeiro, inclusive com consumo relativamente moderado (nossas medições chegaram perto de 11 km/l). Faltou apenas um sistema de corte de cilindros como o que existe no Chevrolet Camaro para completar este pacote e deixá-lo ainda mais eficiente.

Suspensões adaptativas com amortecedores magnéticos deixam a dinâmica de condução certeira de acordo com as exigências. Sensores ajustam instantaneamente o comportamento e a altura de cada amortecedor de maneira independente. Claro que não se pode esperar o conforto de um sedã ou um SUV, mas mesmo em uso urbano o comportamento surpreende para aquilo que se esperaria de um cupê esportivo. Há até um certo grau de agilidade nas manobras, que o rival direto Camaro não consegue proporcionar.

Oito airbags, central multimídia completa em conectividade, controle de cruzeiro adaptativo, painel digital personalizável (seu "humor" muda de acordo com o modo de condução escolhido), ar-condicionado digital de duas zonas, alerta de colisão frontal e assistente de permanência em faixa completam a boa lista de itens tecnológicos.

Acabamento interno não chega a decepcionar, mas não se aproxima do padrão do Mercedes nem do que se espera de um modelo de R$ 300 mil. Um exemplo: olhe para o seletor das luzes dos faróis e você se dará conta de que aquela peça também está presente nos compactos Ka e Fiesta. Por outro lado, cabine exibe botões e teclas de muito bom gosto, inspirados em uma cabine de avião. Mas se prepare, porque será preciso tempo para aprender a lidar com o excesso de comandos ao redor do motorista.

Mancada mesmo é manter um ajuste lombar manual -- a Ford alega que o mecanismo normal facilita o rebatimento do assento para acessar o banco de trás. Apenas a regulagem de distância do banco do condutor é elétrica. Falando em bancos, estes são satisfatoriamente ergonômicos. Surpreende, ainda, o porta-malas com bons 384 litros, maior até do que os 316 litros de um Focus.

E 43 AMG: um sedã para quase tudo

Não, o Mercedes-Benz E 43 AMG não é um esportivo puro-sangue como o Mustang. Até mesmo a pecha de "esportivo" é questionável para ele. Afinal, estamos falando de um sedã convencional que utiliza motor um pouco mais forte e pacote de estilização da AMG. Ou seja: ele não é um produto desenvolvido diretamente pela divisão de desempenho da marca, ficando substancialmente aquém do grau de "fúria" do E 63 AMG, este sim um produto genuinamente AMG.

Ronco passa longe de empolgar ou intimidar como o do Mustang, mas basta selecionar o modo Sport+ no console central e pisar mais fundo no acelerador para respeitar o que os 401 cv e 53 kgfm gerados pelo V6 biturbo de 3 litros são capazes de proporcionar.

Tanto que o 0-100 é quase parelho ao do Mustang, 4,6 segundos, e a velocidade máxima tem seu pico limitado eletronicamente também a 250 km/h. Ao mesmo tempo, a tração integral permanente e a dinâmica mais "bem comportada" da carroceria fazem do três-volumes um modelo mais dócil e previsível do que o cupê americano na pista. Suspensões são pneumáticas e podem variar a altura do solo em até 1 cm, tornando o E 43 AMG bastante versátil para rodar na estrada ou na cidade sem sofrimento.

Visual, até pela predominância da pintura preta em contraste com o chamativo laranja do Mustang, é bem mais discreto, mas não deixa de provocar algum deslumbre. Destaque para as belas rodas bicolores de 20 polegadas.

Em relação ao Mustang, o maior diferencial do E 43 AMG está na cabine. Além do uso de materiais mais nobres no acabamento, como metal, plástico mesclado a fibra de carbono, iluminação interna com 64 opções de cores etc, o sedã executivo oferece ali um clima mais esportivo do que por fora: cintos de segurança e costuras em tons avermelhados em volante e bancos são os maiores responsáveis por isto.

Outro trunfo de ser um membro da família Classe E está no espaço interno. Por ser maior em praticamente todas as dimensões -- 4,92 metros de comprimento, 1,85 m de largura, 1,47 m de altura e 2,94 m de entre-eixos, contra 4,79 m, 1,91 m, 1,38 m e 2,72 m do Mustang, respectivamente --, o E 43 AMG transporta quatro adultos com muito mais tranquilidade, ao passo que no muscle da Ford a fileira traseira se mostra mais claustrofóbica, quase figurativa.

Só não espere muito dos 540 litros do porta-malas, bastante comprometidos pela inclusão de um estepe quase que à base da "gambiarra", roubando boa parte do volume do comportimento.

Tecnologicamente o Mercedes também está um passo acima. Além dos itens que o Mustang já traz, o três-volumes conta com duas "telaças" de 12,3 polegadas e condução semiautônoma de verdade, sendo capaz de fazer curvas de raio longo, frear e manter uma distância pré-determinada para o veículo da frente na estrada sozinho. O problema é conseguir ativar todas essas assistências através de comandos separados e não tão facilmente localizáveis no painel, no quadro de instrumentos e na central multimídia.

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Conclusão

O E 43 AMG é mais avançado e aconchegante que o Mustang, só que será preciso pagar R$ 225 mil a mais por isso, diferença um tanto exagerada. Já o cupê da Ford é um esportivo mais "puro", embora surpreendentemente versátil e confortável. Além de ser razoavelmente mais acessível. É por isso que elegemos o "Mustangão" como vencedor deste embate.

A principal lição aqui, porém, é que um carro esportivo moderno já não pode mais ser "apenas" esportivo. Precisa entregar muito mais que isso, e os dois exemplares usados em nosso duelo cumprem tal prerrogativa com louvor.

Agradecimento: Haras Tuiuti.

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